segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O carregador de bananas


“Só vou levar pão. Não preciso de cesto”. Comprar pão era a única tarefa da qual tinha sido encarregado por quem manda nestas coisas, lá por casa. Saco pequeno na mão, lá fui eu, corredores adiante, mas de olho guloso nas prateleiras. “Olha que belo shampoo em promoção!” Dava para segurar, mesmo sem cesto! Andei mais um pouco por ali. “E bananas? Ainda haverá, lá em casa? Pelo sim, pelo não...”. Coloquei-as junto ao peito. Estava quase a chegar à caixa, quando vi uma garrafa de “Rola” e pensei: “Este tinto vai lindamente com as alheiras do almoço!” 

E foi assim que fiquei na fila, uns minutos que pareceram imensos, atulhado de coisas que repousavam sobre mim, tudo já num equilíbrio mais do que duvidoso, com as mãos a abarrotar, sem um dedo livre para sequer poder vir a colocar a placa do “Próximo cliente”, depois da tralha da anterior cliente que, como todas as anteriores clientes, nos parece sempre levarem meia loja com elas, não se despachando como deviam.

Algumas senhoras da fila olhavam-me com uma ironia pouco discreta, num leve sorriso piedoso, a pensarem, lá para elas: “Este vem pouco ao Pingo Doce!” (Nem elas sabem da minha missa a metade!).

Foi então que aquele meu conhecido se aproximou. É um vizinho do bairro, reformado, figura que foi histórica nos meios ultra-conservadores lusitanos. Disse-me, com voz que se ouviu por ali: “Há uma teoria segundo a qual os homens são os mais renitentes a usar os cestos nos supermercados”. Ele ia de cesto, claro. Ainda pensei explicar os apelos consumistas cumulativos que me tinham conduzido àquela ridícula figura. Mas era tarde! Ali estava eu, a imagem viva a confirmar a sábia doutrina empírica!

5 comentários:

Cherry disse...

E é por isso que se deve pegar sempre em cestos, mesmo quando queremos poucas coisas xD.
Beijinhos
Blog: Life of Cherry

Maria Isabel disse...

Ahahah, conheço essa figura típica.
Mas não posso rir, porque detesto levar o cesto. Levo o meu saco e assim vou sentindo o peso e paro.
Também não me deixo levar pelas promoções, a minha reforma é pequena.
Mas vejo muitas figuras como a que tão bem acaba de descrever.
Adoro estas histórias. Venham mais.
Maria Isabel

Anónimo disse...

Cena alternativa

O seu vizinho CANTONA ve a cena da varanda dele. Desce lesto e diz-lhe "vizinho posso ajudar?". Mais tarde KEN LOACH faz 1 variante do seu filme "Cantona looking for bananas"...

Saudades
F. Crabtree

Anónimo disse...

Ah, ah, ah! Delicioso este texto é tão comum...

Anónimo disse...

Mesmo que já tenham passado muitos anos desde o começo dos homens a irem ao supermercados e a fazerem compras , um homem fica sempre um pouco ridículo de saco na mão . Lembro-me sempre duma amiga minha , nesses tempos , dizer-me : vi o ... ( figura pública conhecida na época ) a sair do supermercado , com um saco plástico na mão ( felizmente vão acabar ) , coitado, a figura que ele fazia ... penso sempre nisso , de fato e gravata , como era naquele tempo .
No fundo é melhor levar as bananas ao peito .