Do outro lado da muralha do Kremlin, fica o GUM, de há muito um imenso centro comercial, creio que o maior de Moscovo.
A primeira vez que lá fui, há mais de 40 anos, os tempos na União Soviética já não eram excessivamente eufóricos. Muito pouco do já pouco que se vendia no GUM tinha qualquer interesse para um estrangeiro.
Ainda guardo, algures em Vila Real, um mal amanhado elefante em mármore que ali comprei por alguns rublos, apenas porque tinha de me desfazer das últimas notas que trazia no bolso, antes do voo de regresso à Noruega, onde então vivia. Ficou-me na memória que se ouvia, por todo o espaço, nos altifalantes, a voz de Júlio Iglesias, nesse tempo em que o romantismo do cantor estava em voga, um pouco por todo o mundo.
Há dez anos, numa outra visita a Moscovo, tive curiosidade de voltar ao GUM. Embora muito modernizado, já não era o centro comercial mais luxuoso e caro de Moscovo. E música era outra, era um “musak” eletrónico, tipo música de elevador.
Não deixou, contudo, de ser uma experiência interessante passar algum tempo sentado numa esplanada de um café do GUM, na Praça Vermelha, servido por belezas eslavas que lavavam o olhar, a beber uma Stolichnaya, mirando o imponente mausoléu de Lenin e vendo, à distância, estranhamente misturado com outros, o discreto túmulo de Stalin, junto à muralha. Onde e como recordarão os russos, um dia, Vladimir Putin?
Há pouco, chegou-me esta imagem do GUM, com clientela rarefeita, talvez pelas sanções. E dei comigo a trautear Bécaud. Que será feito das netas da Nathalie?
