domingo, maio 29, 2022

Ainda Mário Mesquita


A circunstância das minhas estantes serem um perfeito caos (prova provada de que o caos também pode ser perfeito) faz com que elas me tragam surpresas inesperadas (as surpresas podem ser esperadas?). 

Procurava um determinado livro, que sabia de capa avermelhada, na preparação para uma palestra que vou fazer na terça-feira, quando me surgiu outro, com idêntica cor. Era um volume assinado por Mário Mesquita, personalidade cuja morte nos convoca a evocar, por estes dias. Eu nunca tinha lido aquele livro! 

E porque me posso dar ao luxo destas errâncias, durante mais de duas horas, deliciei-me a ler textos do “Deve & Haver”. No essencial, ele junta curtos apontamentos que Mesquita diariamente escreveu, entre 1981 e 1982, numa coluna com esse nome no “Diário de Notícias”, de que era diretor.

Trata-se de um exercício executado num estilo leve, mas não menos rigoroso, a propósito de algum quotidiano, mas cuidando sempre em não se deixar aprisionar pela gravidade da política caseira desses dias. Mesquita, numa “prosa ladina” (Eduardo Prado Coelho dixit), revela, sem alardes, a sua constante atenção à literatura, bastante ao jornalismo de cá e para além do Caia, servido por um estilo “à Barthes”, que hoje parece ter desaparecido da nossa imprensa.

Que bom que é não ter tomado, antecipadamente, a decisão de ler um certo livro e, ao acabar por fazê-lo, tomar consciência do que perderíamos se o não tivéssemos feito. Foi o caso deste.

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