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domingo, fevereiro 22, 2026

Nuremberga


Ontem, apeteceu-me ver, na televisão, o filme Nuremberga. Os atores eram de qualidade, o tema era apelativo. O saldo, contudo, não foi muito satisfatório. A combinação dos vários registos fílmicos, sob uma trama centrada na relação entre um psiquiatra militar americano e Goering, não me pareceu ter resultado. Mas pode ser "dos meus olhos".

O aspeto curioso do filme começava por ser o ineditismo do tribunal internacional "ad hoc" que, em 1945-46, foi criado em Nuremberga, a cidade alemã onde o regime de Hitler tinha encenado alguns dos seus grandes momentos coreográficos e propagandísticos. Os aliados decidiram sentar ali no banco dos réus vinte e tal facínoras nazis, em lugar de os liquidar de imediato, pelos hediondos crimes cometidos. Alguns foram depois enforcados, outros tiveram penas menos capitais.

Nuremberga inaugurou a justiça internacional para crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crimes contra a paz. Décadas mais tarde, outros tribunais “ad hoc” de idêntica natureza foram criados, como os tribunais para a ex-Jugoslávia, em 1993, e para o Ruanda, em 1994. Dando corpo formal a uma justiça internacional, permanente e mais estruturada, para esse tipo de crimes, veio a ser instituído, a partir de 2002, o Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede na Haia, de que alguns importantes Estados se recusaram a ser membros - entre eles os EUA, a Rússia e a China. 

A razão dessa sintomática ausência parece-me óbvia, a menos que inventem outra mais plausível: esses Estados não conseguem garantir que, na sua ação externa, os seus cidadãos não venham a estar envolvidos em crimes de guerra e crimes contra a humanidade, procurando assim subtrair-se à responsabilidade internacional daí decorrente. 

Figuras do calibre ético de Putin - indiciado em 2023 pela deportação ilegal de crianças ucranianas - ou de Netanyahu - indiciado em 2024 por crimes de guerra em Gaza - estão com mandados de captura emitidos pelo TPI, e seria muito interessante, embora pouco plausível, vê-los por ali no banco dos réus.​​​​​​​​​​​​​​​​

Mas voltemos a Nuremberga, cidade que tive curiosidade de ir visitar, numa das primeiras deslocações que fiz à Alemanha, logo no início dos anos 70. O episódio daquele tribunal fascinou-me sempre. A Segunda Guerra mundial estava muito representada nas estantes com livros que existiam na minha casa em Vila Real, onde eu e os meus pais vivíamos com os meus avós maternos. A "História Secreta da Guerra" e romances de Hans Hellmut Kirst e Erik Maria Remarque, entre outros, que só vim a ler anos mais tarde, faziam parte do cenário da sala de estar lá de casa. Um tio que vivia em Lisboa municiava literariamente aquela casa, onde as conversas sobre a guerra europeia eram frequentes, com as Seleções do Reader's Digest a ajudar a prolongar, nas décadas que se seguiram ao fim do conflito, as memórias desse tempo trágico. Toda a minha família era aliadófila, admiradora da resistência britânica, com algum fascínio pelos americanos, ambivalente na apreciação dos alemães e com uma admiração pela resistência militar soviética que se foi esfumando com a invasão da Hungria e desaoareceu com o Muro de Berlim.

Embora tenha muito boa memória, nunca consegui estabelecer com rigor o meu percurso de leituras, em especial da infância para a juventude. Apenas recordo muito bem que, no verão de 1963, com 15 anos, fui de férias uma semana para casa de umas tias, nas Pedras Salgadas, para onde levei e devorei livro "O Julgamento de Nuremberga", cuja edição portuguesa era recente. Lembro-me que o livro estava recheado de fotografias e que eu acompanhava a leitura do texto com frequentes idas a essas imagens, como se, om a observação repetida das caras, pudesse ir desenhando melhor os retratos psicológicos de todas aquelas figuras - cujos nomes passei então a conhecer de cor. Não faço ideia se o livro era bom ou mau. Para mim, nessa altura foi uma leitura fascinante. Há tempos, doei-o ao fundo bibliográfico que, com o meu nome, existe na Biblioteca Municipal de Vila Real. Mas não ouso relê-lo, para não correr o risco de poder ter uma desilusão retrospetiva.


Nuremberga

Ontem, apeteceu-me ver, na televisão, o filme Nuremberga. Os atores eram de qualidade, o tema era apelativo. O saldo, contudo, não foi muito...