"O senhor não está furioso?" A pergunta era do afogueado motorista de táxi, que, no domingo passado, me tinha ido buscar a casa para me conduzir até à estação de Santa Apolónia, de onde partiria para o Porto.
Chegados ao Cais do Sodré, idos de Santos, percebemos que não havia maneira de cruzar para o lado oriental da cidade. Tentámos diversas hipóteses de trajeto, mas, aparentemente, uma mini-maratona tinha criado o caos no trânsito. O Wase, endoidado, apontava para uma volta imensa, pela avenida de Ceuta.
Com a hora do comboio a aproximar-se, já numa hipótese desesperada pelo Príncipe Real, e sem certeza de aproveitar o horário seguinte, disse ao homem, que paguejava sem cessar, para regressarmos à minha casa, de onde tínhamos partido há quase três quartos de hora. Fi-lo com toda uma resignada serenidade.
"Mas o senhor não disse que queria chegar ao Porto, ainda hoje?", retorquiu, estranhando a minha calma. "Claro que quero. Tenho lá uma reunião, amanhã de manhã, bem cedo. Mas vou de carro".
O homem passou-se: "E diz-me isso com toda a calma?! Não está furioso? Eu, no seu lugar, estava! Vai pagar-me quase vinte euros, conduzir mais de três horas, cansar-se e gastar gasolina e portagens. Não está mal disposto com tudo isto?"
Com um sorriso, interiormente talvez algo amarelo, respondi-lhe. "E o que é que adianta eu estar a aborrecer-me?" Filosófico, acrescentei: "Na vida, aprendi que, quando uma coisa nos corre mal, devemos fazer o esforço para esquecer o assunto de imediato, encontrar uma solução alternativa e passar à frente: o que não tem remédio, remediado está. É assim que eu vejo as coisas. Demorou-me alguns anos a conseguir reagir assim, mas dou-me bem com esta atitude". É verdade, até certo ponto.
Até eu me surpreendi com a intimidade que estava a ter com o taxista. Talvez fosse só para o contrariar. Só faltou explicar-lhe que a viagem de carro me ia impedir o trabalho que tinha planeado fazer, no sossego do comboio. Mas que já tinha uma alternativa: na viagem, ia experimentar as novidades do Spotify e pôr-me a par das músicas recentes.
E acrescentei: "A minha preocupação, agora, é ir atestar o carro, que está na reserva, e arranjar uma mesa para jantar bem no Porto. Ao domingo, é difícil conseguir um bom restaurante por lá. Essas são as minhas duas "grandes" preocupações..."
O taxista calou-se por uns instantes. Deve ter-me achado meio maluco. Eu, para agravar o ambiente, ia cantarolando baixo. Talvez para desanuviar, ele perguntou-me: "Quem acha que vai ganhar o Benfica-Porto, daqui a pouco?" "Não sei, mas gostava que perdessem os dois". A minha resposta, pela cara que fez, não lhe agradou.
Isto de ser sportinguista tem muito que se lhe diga. Isto é, só ficamos furiosos depois de Bodø. Mas logo passa.