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sexta-feira, março 13, 2026

Fúria mansa

"O senhor não está furioso?" A pergunta era do afogueado motorista de táxi, que, no domingo passado, me tinha ido buscar a casa para me conduzir até à estação de Santa Apolónia, de onde partiria para o Porto. 

Chegados ao Cais do Sodré, idos de Santos, percebemos que não havia maneira de cruzar para o lado oriental da cidade. Tentámos diversas hipóteses de trajeto, mas, aparentemente, uma mini-maratona tinha criado o caos no trânsito. O Wase, endoidado, apontava para uma volta imensa, pela avenida de Ceuta. 

Com a hora do comboio a aproximar-se, já numa hipótese desesperada pelo Príncipe Real, e sem certeza de aproveitar o horário seguinte, disse ao homem, que paguejava sem cessar, para regressarmos à minha casa, de onde tínhamos partido há quase três quartos de hora. Fi-lo com toda uma resignada serenidade.

"Mas o senhor não disse que queria chegar ao Porto, ainda hoje?", retorquiu, estranhando a minha calma. "Claro que quero. Tenho lá uma reunião, amanhã de manhã, bem cedo. Mas vou de carro". 

O homem passou-se: "E diz-me isso com toda a calma?! Não está furioso? Eu, no seu lugar, estava! Vai pagar-me quase vinte euros, conduzir mais de três horas, cansar-se e gastar gasolina e portagens. Não está mal disposto com tudo isto?"

Com um sorriso, interiormente talvez algo amarelo, respondi-lhe. "E o que é que adianta eu estar a aborrecer-me?" Filosófico, acrescentei: "Na vida, aprendi que, quando uma coisa nos corre mal, devemos fazer o esforço para esquecer o assunto de imediato, encontrar uma solução alternativa e passar à frente: o que não tem remédio, remediado está. É assim que eu vejo as coisas. Demorou-me alguns anos a conseguir reagir assim, mas dou-me bem com esta atitude". É verdade, até certo ponto.

Até eu me surpreendi com a intimidade que estava a ter com o taxista. Talvez fosse só para o contrariar. Só faltou explicar-lhe que a viagem de carro me ia impedir o trabalho que tinha planeado fazer, no sossego do comboio. Mas que já tinha uma alternativa: na viagem, ia experimentar as novidades do Spotify e pôr-me a par das músicas recentes.

E acrescentei: "A minha preocupação, agora, é ir atestar o carro, que está na reserva, e arranjar uma mesa para jantar bem no Porto. Ao domingo, é difícil conseguir um bom restaurante por lá. Essas são as minhas duas "grandes" preocupações..."

O taxista calou-se por uns instantes. Deve ter-me achado meio maluco. Eu, para agravar o ambiente, ia cantarolando baixo. Talvez para desanuviar, ele perguntou-me: "Quem acha que vai ganhar o Benfica-Porto, daqui a pouco?" "Não sei, mas gostava que perdessem os dois". A minha resposta, pela cara que fez, não lhe agradou. 

Isto de ser sportinguista tem muito que se lhe diga. Isto é, só ficamos furiosos depois de Bodø. Mas logo passa.

Fúria mansa

"O senhor não está furioso?" A pergunta era do afogueado motorista de táxi, que, no domingo passado, me tinha ido buscar a casa pa...