segunda-feira, 12 de março de 2018

Elogio do protocolo


Faz parte de uma certa forma de olhar a vida ter, para com as regras do protocolo, uma atitude de sobranceria e até de algum escárnio. Para essas pessoas, o protocolo não é mais do que um conjunto de picuinhices a que alguns snobes dão importância, mas que, no fundo, são perfeitamente dispensáveis. Quem assim pensa está fortemente errado e, confesso, já deixei de perder com eles o meu tempo e o meu "latim".

Com a profissão que tive por décadas, aprendi que essa "liturgia" e esses rituais de entendimento constituem uma espécie de "código da estrada social" - um conjunto de regras, marcadas pela educação e pelo bom-senso, que facilitam a vida em sociedade e, muito em especial, no seio das organizações. No terreno oficial, uma evidência impõe-se: muitas vezes, o protocolo só se "nota" quando falha... Na vida privada, nomeadamente da empresas, a inobservância de um certo normativo básico pode criar constrangimentos, afetar a imagem dos interlocutores e gerar um ambiente desfavorável para um entendimento.

O protocolo pode variar de país para país, quer se trate do protocolo oficial do Estado, quer das regras, mais ou menos consuetudinárias, que regulam as relações sociais. Com o tempo, muitas dessas regras evoluem - e é importante estar atento a essa mesma evolução, caso contrário as pessoas e as instituições ficam presas a "coreografias" datadas e obsoletas. Mas aprendi que há um conjunto quase permanente e generalizado de modos de comportamento que, se forem observadas com um mínimo de atenção, nos servem um pouco por todo o mundo e são, em geral, bastantes resistentes às modas e ao tempo. No fundo, trata-se de regras de respeito pelos outros, de educação e de bom senso, que acabam por facilitar a vida de todos.

Isabel Amaral é, ao que julgo, a figura portuguesa que mais se tem dedicado a este assunto, fora do mundo oficial do Protocolo do Estado. Com uma diversificada experiência, que também passou já por áreas oficiais, coletou em livro, felizmente agora reeditado, essas suas notas e reflexões, feitas de uma decantação inteligente dessa multiplicidade de contactos e vivências.

"Imagem e Sucesso - guia de protocolo para pessoas e empresas" é um trabalho que eu recomendo francamente a quem tenha interesse ou responsabilidades nesta área. É um livro bem escrito, de leitura fácil, muito claro e com uma componente pedagógica forte.

Como sabe quem por aqui me lê, não é frequente eu recomendar livros, pelo que, quando o faço, é porque tenho para isso boas razões. Como é este caso.

6 comentários:

Luís Lavoura disse...

não é frequente eu recomendar livros

Pois não. O último que recomendou, salvo erro, foi o "Administração Clinton", de Raquel Vaz Pinto, que constitui, verdadeiramente, um livro de consulta obrigatória e diária.

Isabel Amaral disse...

Muito obrigada pelo elogio do protocolo e pela critica tão positiva do livro.

Anónimo disse...


A importância do protocolo é tal que o Reino Unido, por volta de 1790, não conseguio acreditar o seu primeiro Embaixador na China porque o mesmo não quiz efectuar o Katow perante Imperador chinês na cerimónia da entrega das credenciais.
O Katow era a submissaõ de qualquer cidadão ao imperador chinês quando o messmo era recebido por ele. Mas o argumento do Embaixador dizia que não o podia fazer porque o seu soberano era o Rei do Reino Unido.

O protocolo é essencial para o estudo da história da diplomacia e mesmo para a história diplomática.

Recordo-me de ter lido que durante as diversas mudanças de regime operadas em vários países da Europa durante o fim do século XVIII e XX os novos regimes não quiseram seguir as normas protocolares anteriores e por isso alguns países não acreditaram senão Encarregados de Negócios nos respectivos países.

Depois de 1821 quando as Cortes quiseram acabar com as nomeações de diplomatas e apenas nomear enviados com o caracter de Cônsul Geral, alguns países não os quiseram receber.
Depois de 1974 em Portugal achava-se que o Protocolo era uma forma burguesa de relações diplomáticas. Rapidamente se verificou isso falso e voltou-se às boas em pouco tempo.

Anónimo disse...

Protocolo é hoje não se dar porco nem a judeus nem moçulmanos.
Finalmente pode-se perceber que protocolo é apenas ser-se bem educado para com aqueles que temos de encontrar sem ofender os seus hábitos e costumes.

Diógenes disse...


Protocolo, é de tanta importância nas relações entre pessoas e países, que recorrentemente os diplomatas dos USA, se sentem constrangidos com as gafes do seu Presidente.

Anónimo disse...

@ Diógenes


Pois.

Os diplomatas também servem para isso.... mas como noutros tempos os nossos diplomaras faziam, podem sempre dizer: Não recebi instruções para isso. Vou consultar o MNE em Lisboa.