sexta-feira, 2 de março de 2018

CDS


Tenho alguns bons amigos (poucos, mas mesmo bons!) que são militantes do CDS. Tenho também - é pura verdade! - um reconhecimento sincero ao CDS pelo facto de, no pós-25 de abril, ter dado acolhimento pré-constitucional a alguma direita que a Revolução deixara tresmalhada e que então se sentia tentada a desvios violentos à nova ordem. 

(Alguns dos meus amigos políticos dirão que algum CDS acabou por consumar essa deriva. E têm razão. Mas, nesse caso, para serem coerentes, terão de contabilizar os setores do PPD, e até do PS, que se deixaram levar nessa onda, do MDLP político ao bombismo assassino. E, já agora, nesse mesmo “barco”, devem incluir alguns incensados militares de abril. É melhor não abrirmos o livro, está bem?)

Hoje, no voto parlamentar de pesar pela morte do coronel Varela Gomes, quatro deputados “centristas” (adoro este eufemismo; melhor só o impagável conceito de “centro-direita”) abstiveram-se. (Ironia: o número “quatro” parece ligado historicamente ao CDS, desde o “partido do taxi”...). Os restantes votaram contra.

Com toda a sinceridade, quero saudar os deputados que votaram contra. Da mesma forma que, em 1976, tive admiração pelos parlamentares do CDS que se opuseram à aprovação de uma nova Constituição que apontava para o socialismo. Esses deputados do CDS de hoje, com toda a certeza, entendem que um revolucionário como Varela Gomes, conspirador contra Salazar e conspirador comprometido com quem tentou impor uma certa ordem no dia 25 de novembro, não merece um voto de pesar, na hora da sua morte. Foram coerentes, melhor, tiveram coragem para o serem. Coisa que outros, como os "abstencionistas" da mesma bancada (e talvez outros, noutras bancadas) não tiveram.

Posso estar enganado (e nunca saberei se o estou), mas tenho um pressentimento, no quadro de um óbvio paradoxo: se acaso João Varela Gomes ainda fosse vivo, teria bastante mais apreço pelos deputados que recusaram “chorar” a sua morte do que por quantos (e foram alguns, podem crer!) que a lamentaram apenas num gesto de mera hipocrisia.

5 comentários:

Anónimo disse...

Imagino que vexa se refira também, indirectamente, ao professor moriarty.

Anónimo disse...

Referência sim directamente ao professor Pardal....

Reaça disse...

A direita tresmalhada afastou-se calmamente para o Brasil, EUA, Espanha...até "eles poisarem".

"Poisaram"

E essa direita voltou e tomou conta daquilo que sobrou: bancos, companhias de seguros, empresas, e antes que "eles" se apercebessem, venderam aos espanhóis, franceses, italianos, brasileiros, e "eles" ainda hoje estão boquiabertos, a ralhar com Bruxelas.

Marcelo Caetano adivinhou tudo em dois dias, só não sabia que a sede ia ser Bruxelas.

Antes assim.

Anónimo disse...

Concordo em absoluto. Desde que as pessoas se manifestem contra, mas saibam porquê e o façam por coerência. Ele jamais respeitaria a hipocrisia. Não sei de quem foi a ideia de um voto de pesar pelo seu desaparecimento, mas é óbvio que o desfecho seria esse. As suas filhas e os seus verdadeiros Amigos cá estarão para sentir a sua ausência, com todas as suas qualidades e todos os seus defeitos, porque foi um Homem. Do tempo em que se arriscava a vida, para se ser contra a Liberdade. Também eu sempre tive amigos, desde o cds ao mrpp (muito mais difícil do que do be). Não somos muitos, mas a verdadeira amizade nunca foi posta em causa. Tolerância é um dos segredos para isso ser possível.


Luís Lavoura disse...

Acho muito bem que tenham votado contra. Eu provavelmente teria feito o mesmo.
Ademais, os "votos de pesar" da Assembleia da República são traiçoeiros, por vezes têm muito mais no seu texto do que o mero pesar pela morte de um ser humano, por vezes esse texto contem considerações que nada têm a ver com esse pesar. Não convemn condenar a atitude de quem vota contra sem saber tudo o que estava escrito no voto de pesar.