quarta-feira, 28 de março de 2018

O Bragança


Não era um homem muito simpático, diga-se. Vendia jornais, revistas, tabaco e meias-folhas de papel selado, nesta loja, no centro de Vila Real. Tinha uma empregada muito pequenina, faladora e agradável, que compensava, em atitude, o défice de comportamento afetivo do patrão. 

Mas estou a ser um pouco injusto: o Bragança (o “senhor Bragança”, como eu naturalmente o chamava) tratava-me bem. Durante anos, fui o “menino”. Depois, já eu matulão, deixei por um tempo de ter designação. Com a ida para a universidade, passei a “senhor Costa”. E assim fiquei, que me lembre, até entrar no governo. Uma tarde, numa visita a Vila Real, o Bragança recebeu-me com um raro sorriso rasgado: “Tenho aqui uma entrevista que o senhor doutor deu ao Notícias”. E mostrou-me duas folhas do JN, já com meses, que amavelmente guardara. O seu já então episódico cliente vinha nos jornais. E subira um furo mais na designação.

Na adolescência, comprava por lá, religiosamente, “A Bola”, então a minha bíblia desportiva trissemanal. No final dos anos 60, nas férias da universidade, o Bragança guardava-me, a cada semana, “A Vida Mundial” e um dos três exemplares do “Diário de Lisboa” do dia anterior que, ao final da manhã, chegavam à cidade, e que eu ia logo devorar para o café. Mais tarde, reservava-me o “Expresso” e “O Jornal”.

Com o Fernando “Choco” e o Albertino “dos jornais”, muito antes do Pelinhos engraxador (e comunista) na Avenida, o Bragança era um dos grandes fornecedores de imprensa à cidade. 

O local era também um lugar de tertúlia, como o eram a Farmácia Barreira, na rua Direita, e a relojoaria do Salgueiro, na rua Central. Nas conversas no Bragança lembro-me que preponderava o Dr. Elísio Neves, oftalmologista, bom amigo do meu pai, no triângulo do seu trânsito da Pompeia, o café em frente, para o consultório, sobre a pastelaria Gomes. 

Filho de um velho “chofér” de praça que recordo com o boné preto da profissão, o Bragança, que sempre estava elegante, de fato e gravata, era casado com uma senhora loira, com um ar muito arranjado, redonda de carnes, que mantinha uma loja de cabeleireiro de senhoras no piso superior, com entrada pela tabacaria. Estava longe de ser o cabeleireiro “top” da cidade, mas a localização era imbatível. O Bragança tinha fama de ser um homem rico, presumo que não pelos jornais que vendia, mas pelos edifícios de que era proprietário ou que herdara, alguns “na marginal”. 

Tenho ainda a imagem do Bragança e da mulher, ambos de costas muito direitas, de braço dado, a caminharem, a passo lento, ao final da tarde, com as lojas a fechar e as luzes a abrir, pelas ruas já quase desertas da cidade, a caminho de casa, cruzando-se comigo, a sair do bilhar do Excelsior e a dizer-lhe: “Boa noite, senhor Bragança”.

Por que é que agora me lembrei disto? Passei pela tabacaria do Bragança, ontem à tarde. Está fechada, no estado que a fotografia mostra, aliás não muito diferente de imensas outras casas no centro histórico de Vila Real. É um ambiente algo desolador, mas bem comum a muitas terras portuguesas.

Verdade seja que, nos últimos anos, já depois do próprio Bragança ter desaparecido da circulação, o interior da loja, que noutros tempos fora ordenada e era um espaço bastante decente, apresentava o aspeto de um verdadeiro caos: a imprensa amontova-se no balcão e pelo chão. Algumas revistas velhas, amarelecidas, jaziam espalhadas a esmo pela indescritível montra. 

O anúncio da morte a prazo da tabacaria começou a ser dado pelo caráter errático da sua abertura. Presumia-se que a loja estava aberta se, no exterior, surgia pendurada uma régua de madeira com molas, de onde pingavam algumas revistas já sebentas e datadas, incompráveis, naquele estado. 

Um dia, sei lá quando, a loja não abriu mais. A cidade nem se terá dado conta, outros locais de venda de jornais há muito a substituíam. Acabou “o Bragança”, a vida continuou. 

Só a mim passou pela cabeça recordá-lo. Logo eu, que o não achava muito simpático. Mas é talvez, subliminarmente, a maneira de me penitenciar pela crueldade da minha memória. É, deve ser isso.

2 comentários:

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, este seu texto demonstra que as "coisas" não lhe passam ao lado... As "tabacarias", noutros tempos, eram ponto de encontro aqui em Lisboa. Conheci pessoas "importantes" que religiosamente as frequentavam diariamente e algumas nem se quer fumavam. Era lá que se sabiam as últimas novidades políticas, desportivas e outras. A tabacaria Mónaco no Rossio será talvez a última que ainda existe, porem com outros usos e costumes.
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2018/01/tabacaria-monaco.html

Anónimo disse...

Embaixador, efetivamente também por lá passei na semana passada e vi esta decadência. Realmente a memória de Vila Real vai desaparecendo a toda a velocidade. Hoje em dia a "cagança" gosta de ir toda para o shopping, para terem o que falar uns dos outros. Sou mais novo que o senhor, mas recordo bem a loja do Bragança, tinha ao lado direito quem entrava a porta, umasvitrinas onde tinha imensos carrinhos miniatura em metal, que ainda guardo dois ou três que me ofereceram. Outros tempos, mas realmente é pena que a memória se vá perdendo, ficando a cidade mais pobre.