sábado, 24 de março de 2018

Mortágua


Joana Mortágua escreveu um post infeliz sobre o Cristo Rei. Podemos perceber que a estátua, e a sua simbologia, nada diga à deputada do Bloco de Esquerda. A mim também diz muito pouco, mas sinto-me na obrigação de respeitar quantos - e são muitos, sendo mesmo uma maioria, entre nós - alimentam crenças religiosas, as quais, goste Joana Mortágua ou não, são parte integrante e legítima do património de ideias deste país.

Em reação ao comentário, um menino conservador teceu graçolas no Facebook sobre o pai da deputada, Camilo Mortágua. Fê-lo utilizando o mesmo tipo de argumentário que a ditadura usava para desqualificar quantos lutaram contra ela, no mesmo registo que as folhas-de-couve do fascismo utilizavam para vilificar os lutadores pela liberdade. Lembro-me bem dos turiferários oficiais a espumarem raiva na única televisão, das “notas oficiosas” onde se falava do “denominado partido comunista” e misérias similares. Demos-lhes a resposta devida num certo dia de abril de 1974.

Camilo Mortágua, pai de Mariana Mortágua, foi e é - porque, felizmente, está vivo - um valente lutador contra a ditadura, participou no assalto ao navio mercante “Santa Maria”, no desvio do avião da TAP de Casablanca para Lisboa, no assalto ao Banco de Portugal, na Figueira da Foz, bem como em outras ações revolucionárias com as quais, como português e democrata, me sinto perfeitamente solidário e cuja execução lhe agradeço e louvo - e que isto fique aqui escrito, preto-no-branco, porque é preciso não ter medo de dizer as palavras justas.

Só a imprensa de uma ditadura que foi culpada por imensos mortos, por uma criminosa guerra colonial, por décadas de perseguições, torturas e prisões que arrasta no seu cadastro histórico, com a PIDE e a censura cobardemente a seu lado, teve o desplante de qualificar como crimes comuns alguns atos justamente praticados, como hoje está mais do que provado, para enfraquecer o regime que iria cair de podre e de ridículo perante a História no 25 de abril. E aproveito o ensejo para prestar uma homenagem a essa outra figura de homem de bem que se chamou Hermínio da Palma Inácio, diabolizado pelos caluniadores anti-democratas.

Alguma direita portuguesa, que nunca conseguiu fazer o exorcismo do Estado Novo, vive ainda uma orfandade envergonhada desses tempos, disfarçada na proclamação da “honestidade” de Salazar, nas acusações, canalhas e comprovadamente falsas, ao desvio das verbas do assalto na Figueira da Foz, numa equiparação miserável das ações da LUAR a delitos comuns - usando precisamente a mesma linguagem que a PIDE utilizava. Aqui pelo Facebook (como se verá em alguns comentários, de forma direta ou ínvia) há ainda muito quem se sinta solidário com a narrativa da António Maria Cardoso.

O meninote que impunenente ataca o nome honrado de Camilo Mortágua não tem culpa, foi provavelmente educado dessa forma. Seguramente que os pais não lhe ensinaram que foi graças a lutadores como Mortágua que hoje usufrui da liberdade que lhe permite escrever as patetices que escreveu. Ou talvez eu esteja enganado: se nada tivesse mudado, ele teria, com certeza, a hipótese de manter exatamente esse mesmo discurso, porque esse era o discurso da ditadura em que se sentiria bem.

13 comentários:

Anónimo disse...

A cada um as suas fake news !

Reaça disse...

Não sei que menino será esse, que ataca Mortágua,só sei o que a imprensa diz do Mortágua e que ele testemunha.

Mas a liberdade do facebook é bem pior que a censura da ditadura.

E na ditadura, em certos casos só se perderam as que caíram no chão!

Anónimo disse...

Subscrevo inteiramente as suas palavras!
Ainda bem que pessoas como FSC dizem e escrevem isto mesmo, deixando claro de que lado se deve estar quando uns tantos fascistas, que, como diz, ainda não diabolizaram o Salazarismo, tecem umas tantas provocações sobre os revolucionários desses tempos.
Abraço!

Anónimo disse...


Eu sou não-politizado e por isso me permito fazer uma pergunta:
Este sr. em apresso, foi ou não terrorista, como hoje os há, no seu tempo de juventude. A única diferença são as suas causas que para uns são boas e que para outros são não legítimas.
O que ele pensa poderá ser pouco importante pois ele nunca supôs que hoje tinha comparsas nas suas actividades passadas, com mau nome a nível internacional.
Isto de se afirmar coisas relativas é escorregadio....... para não iniciados.

Desculpem-me mas como não-politizado teem que ter alguma condescendência para um ser que poderá ser entendido como "escória humana", por muitos.

Francisco Seixas da Costa disse...

O Anónimo das 22:54, para não politizado, é bastante insultuoso. O que é normal quando se não tem razões mas se possui a mascarilha do anonimato, essa conhecida fonte de coragem

Anónimo disse...



Mas para se ser perguntador não-politizado é preciso ter coragem ou é o ser anónimo.

Ai...ai como diz o adágio: perguntar não pode ofender.

E eu, parece que já estrilhei com uma pergunta insultuosa, por isso vou repetir o meu último paragrafo do meu comentário das 22:54:
"Desculpem-me mas como não-politizado teem que ter alguma condescendência para um ser que poderá ser entendido como "escória humana", por muitos"

Francisco Seixas da Costa disse...

O Anonimato é, em muitos casos, a trincheira cobarde onde se esconde a escória humana, como se vê por aí nas caixas de comentários.

Anónimo disse...

Mas... se não for anónimo e estiver fora da trincheira cobarde pode arriscar algumas consquências para a sua vida.

Há neste blog um tresloucado que tem medo de ir parar à Sibéria pelo que escreve.

WOW disso não sabia. De facto só um cobarde que não decline a sua identidade até há vigésima geraçaõ pode fazer isso do lado de dentro da tricheira.

Impeça a essa gente o acesso ao seu blog. Até podem fazer perguntas insultuosas,como pensou que a minha tinha sido.

Joaquim de Freitas disse...

Ah, a Caixa de Comentários, Senhor Embaixador …Os comentários de alguns nostálgicos dos tempos da outra senhora, são uma espécie de tumor que incarna um estado de espírito num certo momento.

São a incarnação de tudo o que pôde ser a ideologia colaboracionista numa certa época, influenciada pelos ventos doentios que sopravam de Madrid, Roma e Berlim.

Eu era jovem mas recordo perfeitamente as vitrinas nas quais expunham as fotos da entrada dos nazis em Paris. Mas se abstiveram de expor as fotos da rendição de Von Paulus em Estalinegrado…

E quando escrevem no seu blogue “E na ditadura, em certos casos só se perderam as que caíram no chão!”, sonham de meter no mesmo barco: comunistas, socialistas, anti semitas, franco-maçons, democratas moles, duros, sindicalistas, e afundá-lo no Tejo.

Reaça disse...

Senhor J. Freitas, menos mortáguas e o Homem que repousa no Vimeiro talvez tivesse caído da cadeira mais cedo...e de maduro.

Eram os mortáguas que revitalizavam o Estado Novo.

Então o caso do Santa Maria terá sido um grande trunfo para o Homem.

Internacionalmente quem não dava a mínima para o Professor Doutor Oliveira Salazar, passou a dar-lhe alguma atenção.

Só assim teria chegado desde 1968 a 1974 a governar apenas por inércia, quase 4 anos.

Foram os mortáguas que o foram alimentando.

Anónimo disse...

Joaquim Freitas, não perca tempo a responder aprovocações de uns palhaços reaccionários. Aqueles que acham que Palma Inácio, Camilo Mortágoa e Henrique Galvão (ataque ao Santa Maria) são bandidos etc e atl não passam de criaturas de vão de escada, politicamente falando.
Bem fez - muito bem, aliás - FSC em publicar este Post. Teve coragem política, o que é sempre de louvar.

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo das 23:26 : Creio que tem razão. Assim como na ultima frase do seu comentario.

Anónimo disse...

Isso da coragem política na net ainda não percebi. Seremos de facto lidos e o que escrevemos terá consequências mesmo para reformados. Coisa muito interssante. Vou tentar investigar.
Ou seja: ainda hoje quem saia da linha pode ser dificil sobreviver como acontece num partido português e outras instituições mais discretas.
Fico ciente o que é importante para um insciente. [Será ele o pensamenro único]