sábado, 24 de março de 2018

Realismo socialista


Houve um tempo da vida em que, como muitos da minha geração e de outras antes, me deixei enternecer pela escola estética do “realismo socialista”, essa arte militante que nos pintava ora figuras prenhes de otimismo ensolarado, caminhando pelas sendas dos “amanhãs que cantam”, ora mostrando as vítimas dos algozes económicos e políticos, desenhadas nos tons sombrios das desigualdades. Na literatura, houve imensos romances maniqueístas, a-preto-e-branco ideológico, que adubaram, por décadas, o nosso imaginário revoltado. E houve imensa poesia, adjetivada de raiva, transbordando de “povo” e de revolução, declamável de peito feito, alimento rimado que nos conclamava a ajustar contas definitivas com o inimigo de classe, ao virar da esquina de uma História que (então) só tinha um sentido. 

Sobraram, é verdade, algumas (poucas) coisas bonitas desse tempo estético, mas outras (muitas) são hoje apenas uns monos que só a afetividade nos inibe de arquivar na prateleira medíocre do património do que, por cá, se chamou “neo-realismo” - porque, “no tempo da outra senhora”, designar isso por “realismo socialista” era insensata ousadia. Com os anos, confesso, passei a achar tanta graça à arte “política” como a alguma “música” militar...

Às vezes, pergunto-me se não teremos mesmo de atualizar a linguagem e se “realismo socialista”, numa “versão” moderna do conceito, não deve também significar, ironicamente, que temos de ser realistas quanto à “quantidade” de socialismo que afinal acabaremos por poder vir a ter...

11 comentários:

Anónimo disse...

O que escreve sobre o socialismo também poderia ter sido escrito sobre o amor ou outra crença qualquer. A questão que sobra é a de saber quem mudou: se foi o mundo ou o seu olhar sobre ele.

MRocha

Joaquim de Freitas disse...

Revejo-me perfeitamente na descrição da sua peregrinação ideológica através dos anos, Senhor Embaixador. Pelos mesmos caminhos …ou quase! …

E retenho a sua frase essencial: - “que temos de ser realistas quanto à “quantidade” de socialismo que afinal acabaremos por poder vir a ter...”

Sim, creio que um Estado independente e verdadeiramente SOCIALISTA deve procurar por todos os meios a libertar-se da lei do MERCADO.

Porque esta lei do Mercado , à escala da Mundialização, é absolutamente oposta à solidariedade humana, à distribuição equitativa do lucro, porque o que importa é ganhar “partes de mercado”, acumular dinheiro e especular.

Assistimos nestes últimos anos à morte programada do Socialismo. Os socialistas transformaram-se em gestores da burguesia, aplicando praticamente as regras da lei do Mercado.

E quando chegam ao poder supremo, capazes de desencadear guerras, de braço dado com o capitalismo e o imperialismo. Pagamos hoje os dividendos de tais politicas, com a morte de milhares de vítimas inocentes.

Mas os cidadãos estão por alguma coisa nesta derrocada do “sonho”! O consumismo arrebatou-os. Com o egoísmo.

É assim que nos movemos para a “coisificaçao” do ser.

A espiral da vida moderna inverteu a escala dos valores, se os valores ainda existirem!

Mergulhar a população numa distracção falsa, colocar lhe as suas tetas psicológicas para que ela nem sequer tenha tempo para perceber o quanto ela se concentra no supérfluo e se recusa a considerar o essencial.

E quando ousa aventurar-se neste campo, do essencial e do que grita no mundo, não ousa pensar e agir até ao extremo. Fica-se no caminho…protestando.

Na verdade, há muito mais preocupação com o desempenho de seu smartphone, sobre o bizarro de suas aplicações do que sobre o trabalho de crianças que trabalharam mais de 18 horas por dia para fabricá-lo e ainda menos para o número de menores mortos para retirar o tântalo e o lítio necessários para a fabricação de seus condensadores e a sua bateria.

Faltam-me palavras para qualificar um tal descuido: -estupidez, excesso de egoísmo ou o vazio absoluto de piedade e compaixão ou talvez os três. Mas há vazio de qualquer maneira

Neste mundo sem sabor, nada é sagrado e tudo tem um preço. Não há necessidade de multiplicar os exemplos, porque nada pode impedir a venalidade deste liberalismo demasiado libertino que não parece querer inclinar-se perante qualquer princípio superior e parece levar-nos para um futuro de moralidade zero!

Anónimo disse...

Olha a que ainda há milhares de milhões de razões para uma revolta nada imaginária. Outra coisa é constatar que não podemos fazer tudo, que a actual ideologia dominante se estynas tintas para os perdedores. Quanto à cotada arte é de um modo geral uma m....
Fernando Neves

Anónimo disse...


Como não-politizado não posso senão concordar com este post.

Desde há mesmo muito tempo que sabia que esta espécie de arte era apenas propaganda dos "amanhãs". E por iso amanhã seria pouca coisa.

Para mim quanto a este assunto está tudo há muito revelado.
Outros compreendo que, quando a vida já não espera outras coisas, será mais dificil.

Queria também que ficasse bem clarinho que a arte do Estado Novo me interessa pouco pelas mesmas razões.
O artista e o investigador nunca deveria ser um "engagé" e nunca percebi porque razão tinha de o ser. Qual a sua credibilidade por isso.

Anónimo disse...

@ Sr. De Freitas

Não preciso de lhe relembrar que a moral é uma equação básica do ser humano. Quando há 20 ou 30 anos ja se falava em moral básica do ser humano, preferiam dizer que isso era religião. Hoje já se fala em moral mas sem principios alguns. É uma palavra que se pensa adaptar-se ao pensamento de cada um pois a moral é plástica. Mas não é.

Joaquim de Freitas disse...

Anónimo das 12:43: Creio que confunde moral e ética. A primeira é regida por valores relativos, como o bem e o mal, a justiça e a injustiça, e variam segundo os indivíduos, as sociedades e mesmo as diferentes épocas, enquanto a segunda é a definição dos comportamentos aceitáveis ou não através dum raciocínio.

dor em baixa disse...

Não acreditem que os "amanhãs que cantam" acabaram. Tal como a ideologia, é impossível que acabe. Estão aí cheios de vigor, com as suas obras de arte, claro. Basta passar os olhos pelos temas dos livros que mais se vendem nos hipermercados. Ou ir ao cinema e ver aquelas magníficas obras onde um grupo de heróis ataca o mal num recôndito país ou seguir os meandros psicológicos do indivíduo enquanto se apossa da fortuna de um rico.

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador, penso que essas imagens que representam uma época fazem parte da história de uma parte da humanidade, e como a história não se pode, nem se deve mudar, essa apresentação da sociedade deverá ser descrita com objetividade,
é muito difícil julgar os homens do passado longínquo ou recente, porque os anos que correm, também não são muito melhores nalguns lugares do mundo

bom fim de semana

Anónimo disse...

@ Sr. De Freitas 14:53
A ética é de tal forma dificil de isolar, para uma definição, que em inglês [não americano] é uma palavra plural: "Ethics"
O que se sabe é que já Aristoteles dissertava sobre o assunto e depois Kant.
Mas hoje invoca-se a ética como cada um manda.

"Moral" em inglês [não americano] significa:
Palavra concernente ou derivada do código de comportamento que é considerado correcto ou aceite numa sociedade específica.
Veja se consegue encaixar as suas ideias filosóficas nisto.

Anónimo disse...

@ dor em baixa1937.

Podem de certa forma estar adormecidos ou mesmo .....
O que é um facto é que hoje se pode ver o que se quiser e quem vê ou lê o que o sr. diz é porque querem. Se calhar diz-lhes qualquer coisa ao intímo.
Será uma evasão à realidade e por isso uma droga.

Joaquim de Freitas disse...

@anonimo das 12:13

Se conseguir demonstrar-me a diferença entre o que escrevi e o que escreveu, fico satisfeito .