Houve um tempo da vida em que, como muitos da minha geração e de outras antes, me deixei enternecer pela escola estética do “realismo socialista”, essa arte militante que nos pintava ora figuras prenhes de otimismo ensolarado, caminhando pelas sendas dos “amanhãs que cantam”, ora mostrando as vítimas dos algozes económicos e políticos, desenhadas nos tons sombrios das desigualdades. Na literatura, houve imensos romances maniqueístas, a-preto-e-branco ideológico, que adubaram, por décadas, o nosso imaginário revoltado. E houve imensa poesia, adjetivada de raiva, transbordando de “povo” e de revolução, declamável de peito feito, alimento rimado que nos conclamava a ajustar contas definitivas com o inimigo de classe, ao virar da esquina de uma História que (então) só tinha um sentido.
Sobraram, é verdade, algumas (poucas) coisas bonitas desse tempo estético, mas outras (muitas) são hoje apenas uns monos que só a afetividade nos inibe de arquivar na prateleira medíocre do património do que, por cá, se chamou “neo-realismo” - porque, “no tempo da outra senhora”, designar isso por “realismo socialista” era insensata ousadia. Com os anos, confesso, passei a achar tanta graça à arte “política” como a alguma “música” militar...
Às vezes, pergunto-me se não teremos mesmo de atualizar a linguagem e se “realismo socialista”, numa “versão” moderna do conceito, não deve também significar, ironicamente, que temos de ser realistas quanto à “quantidade” de socialismo que afinal acabaremos por poder vir a ter...