sexta-feira, 16 de março de 2018

A novela americana


Não se pode dizer que a demissão do chefe da diplomacia dos EUA, Rex Tillerson, tenha constituído uma grande surpresa. Escolhido por ser um nome forte da indústria e uma boa “ponte” para a Rússia de Putin, sabia-se que o antigo CEO da Exxon nunca havia criado com o presidente Trump uma relação de confiança. Tillerson, que era hierarquicamente o primeiro dos membros do gabinete ministerial, constituía um peso demasiado independente para um presidente que gosta de funcionar rodeado de “yes-men”, que detesta quem ponha reticências ao simplismo das suas ideias e à espontaneidade irresponsável dos seus “tweets”. Trump necessitou dele para credibilizar inicialmente a sua equipa, mas sente-se agora suficientemente à vontade para o dispensar.

Ao longo deste tumultuoso ano, várias foram as vezes em que transpiraram diferenças entre os dois homens. Trump ter-se-á cansado de alguém com quem não tinha a menor intimidade, que discordava abertamente de algumas das suas posições em temas internacionais e que, de forma clara, mantinha com ele alguma procurada distância. O facto de Tillerson nunca ter negado que chamou “imbecil” ao presidente num contexto privado, também não deve ter ajudado...

Tillerson saiu, entra Mike Pompeo, até agora diretor da CIA e conhecido membro do Tea Party, ala radical dentro do Partido Republicano. Alguém que tem um historial de ideias confrontacionistas, que se afigura menos adequado a quem vai ter por missão dialogar pelo mundo em nome da América. Mas este é talvez o perfil que, nesta fase, Trump deseja ao seu lado.

Nos meios internacionais, estava criada, ao longo dos últimos meses, a convicção de que, à volta de Trump, independentemente da ciclotímica estrutura, dia-a-dia mutante, da Casa Branca, permaneciam quatro personalidades que funcionavam como uma espécie de “rede de segurança”, compensatória da imprevisibilidade do presidente. E o mundo respirava de alívio por assim ser.

Uma dessas figuras era claramente Tillerson, sendo as restantes militares: o secretário de Defesa, James Mattis, o chefe da Casa Civil, John Kelly, e o assessor para a Segurança Nacional, H. R. M Master. Crescem agora rumores sobre uma possível saída de McMaster, cujos conselhos parece irritarem Trump, falando-se para o substituir do nome do “falcão” John Bolton, antigo e controverso embaixador na ONU, na era George W. Bush. E, no tocante a Kelly, diz-se haver um crescente desagrado por parte de Trump - em especial depois daquele ter decidido retirar a acreditação de segurança ao seu genro. Só Mattis parece de pedra e cal, o que não deixará de ter a ver com o interesse de Trump de manter o melhor relacionamento possível com o setor militar – o único que ele parece respeitar, em particular se olharmos o que fez ao “State Department”, ao FBI e à própria CIA.

Esta coreografia de caras teria muito escassa importância, e seria reduzida a uma curiosidade  à escala americana, se dela não pudessem resultar consequências muito sérias para o mundo exterior. Há dossiês temáticos, como as “guerras” da política comercial ou a atitude face às alterações climáticas que impactam, de imediato, nos interesses dos amigos da América. Há temas vitais para a segurança global, como a articulação com a China ou o formato de relacionamento com a Rússia, bem como a forma de gerir a tensão com a Coreia do Norte ou a atitude perante o acordo nuclear com o Irão, que têm um potencial fortemente disruptor dos equilíbrios internacionais. 

Neste último caso, que Trump deixou já a entender ter sido uma divergência profunda mantida com Tillerson, há que temer que os EUA possam estar prestes a pôr em causa o compromisso laboriosamente conseguido com Teerão, com o apoio dos seus parceiros europeus. Mais do que isso: Trump pode vir a dar, por essa via, luz verde a que Israel faça um “preemptive strike” sobre as instalações nucleares iranianas, hoje sob vigilância da AIEA e, conjugadamente ou não, estimule a Arábia Saudita para titular uma aventura militar sunita contra esse seu comum inimigo. Imagina-se o que poderá ser o “day after” desse conflito.

O mundo está perigoso e o perigo tem um nome.

10 comentários:

Unknown disse...

J.Delors deve ter sido um excelente europeu. Isto já ele tinha previsto quando de retirou. A UE no futuro vai ter que ter muito medo e contenção com o pior inimigo: os EUA:

Anónimo disse...

"... o único que ele parece respeitar, em particular se olharmos o que fez ao “State Department”, ao FBI e à própria CIA....".

Sim, os apoios do PR dos EUA, Trump, um não-político de carreira, são os militares e, agora, algumas das forças na economia nacional Norte-Americana.

Quanto às forças de segurança FBI e CIA, convém não esquecer, Sr. Embaixador, o que (comprovadamente) os escalões máximos do FBI e da própria CIA prepararam e fizeram por auto-preservação pessoal, contra uma -improvável até ao dia da eleição- vitória de Trump, durante a campanha eleitoral.

E mencionar o que os ex-máximos dirigentes do FBI e da CIA fizeram, já depois da posse, ao seu Presidente.JS

Anónimo disse...

Mas alguma vez Trump não está a ser aquilo que disse que ia ser? Quem votou nele não tem qualquer expectativa defraudada. Ao contrário de muitos, ele nunca enganou ninguém em campanha eleitoral. É mesmo para se dizer que com Trump não há gato por lebre.

Joaquim de Freitas disse...

President Donald Trump um «moron" ? Mesmo mais que isso, “ a f.”uking moron”., disse Tillerson! Mas não sabemos tudo.

Cada dia que passa, Trump puxa o mundo mais próximo do abismo. O que é terrível, é que se quisemos encontrar ao menos uma qualidade neste indivíduo, não podemos. Raramente os Americanos votaram nalguém de tão abominável e perigoso. E o que é ainda mais terrível é de saber que ainda tem milhões de pobres de espírito, nos EUA e no estrangeiro, que o aceitam e defendem.

Um facto agora parece inegável: Trump é o porta-voz, a figura emblemática do movimento internacional da supremacia branca. O personagem é certamente adorado, como Hitler, pelos adeptos do fascismo, do neonazismo e da ideologia da superioridade do homem branco. Quando penso que 60 milhões de pessoas votaram no Trump na última eleição. Homens, mulheres, evangelistas, que juram por raça e religião. Em países ocidentais, incluindo aqueles designados como países da não-imigração, a sua popularidade não é menos elevada. Trump tornou-se na voz duma classe média branca em decrepitude, uma classe operária confusa, definhando numa crise, da qual ela não consegue compreender a natureza.

É este trunfo, a sua ideologia, a dos seus discípulos, desta corrente fascista que se ramifica por todo o Ocidente. Este racismo, se não é novo, é personificado pela nação mais militarizada no planeta. É um perigo que não podemos ignorar. Trump fala abertamente, tomando como ponto de apoio este poder militar que ele não permite que ninguém questione, aliados como inimigos.

O texto do Senhor Embaixador é completo no facto que, no ultimo parágrafo, diz tudo o que nos pode cair por cima das nossas cabeças com uma equipa deste género.

Vale a pena ler o caminho percorrido pelo novo patrão da diplomacia americana, que extrai dum jornal:

“Do Congresso à CIA
Pompeo estudou engenharia na Academia Militar de West Point, serviu por cinco anos como oficial do Exército e, em seguida, estudou Direito na Universidade de Harvard. Mais tarde fundou uma empresa de engenharia no Kansas, financiado pelos irmãos Koch, milionários do setor petrolífero.
Os Koch, com elevada influência no Partido Republicano, deram apoio a Pompeo nas eleições para o Congresso em 2010, e foi eleito para a Câmara dos Representantes pelo estado do Kansas. Pompeo logo integrou o Comitê dos Serviços de Inteligência do Senado, no qual teve acesso a segredos de Estado.

Em 2012 fez parte do comité republicano que investigou o assassinato de um embaixador americano e de três outros compatriotas em Benghazi, na Líbia. Nesse papel, Pompeo tornou-se numa das vozes mais críticas à então candidata democrata, Hillary Clinton, na eleição presidencial de 2016, culpando-a destas mortes, ocorridas durante o seu período como secretária de Estado.

Em 2017, no início do governo Trump, foi para a CIA. O Senado aprovou-o para o cargo com 66 votos a favor e 32 contra.

Esta gente tem o poder de vida e de morte sobre a humanidade.

Diógenes disse...


O atual inquilino da Casa Branca, não estava e continua a não estar, minimamente preparado para o lugar. No Congresso e no Senado, apesar da maioria republicana, estão conscientes do perigo que o homem constitui. A seu tempo, quando for oportuno, surgirá o respetivo processo de impeachement...

carlos cardoso disse...

Parafraseando Winston Churchill, Trump tem todas as qualidades que detesto e nenhum dos defeitos que admiro.

Dito isto, acho que Trump não é tão perigoso quanto alguns julgam. Apesar de ser o presidente da nação mais poderosa deste pequeno planeta, Trump não pode usar esse poder como lhe apetecer e não é a saída de Tillerson que muda isto.

Como o Embaixador já aqui escreveu (se não me engano), os EUA são uma democracia e os "checks and balances" do sistema deveriam impedir a ocorrência de catástrofes como as que alguns profetas do apocalipse gostam de prever.

Trump vai com certeza continuar a tomar decisões irresponsáveis (clima, acordo nuclear com Irão ou taxas aduaneiras) mas, sendo eu optimista por natureza, não acredito que faça nada de irreparável. É um (muito) mau momento a passar, mas acabará por passar.

Anónimo disse...

Não me diga ! e os outros que não escrever ?


Sérgio disse...

O que importa são as questões de economia e emprego. Ninguém fala da pujança da economia nem do emprego criado. Porque será?

Gil António disse...

Visitando, lendo, gostando muito do blogue, e elogiando as suas publicações. Voltarei...
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* Nosso Amor ... a alvura do Universo *
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Deixo cumprimentos.

Anónimo disse...

" Crescem agora rumores sobre uma possível saída de McMaster, cujos conselhos parece irritarem Trump,

creio que a forma correcta seria "cujos conselhos parecem irritar Trump". (mas posso estar enganado)

cmpts