terça-feira, 19 de janeiro de 2021

“Trump ganhou!”

Quando disse a alguém que ia publicar o texto que vem a seguir, ela tentou dissuadir-me: “Não publiques! Há pessoas que podem não perceber.” Decidi correr o risco.

Na noite de 4 para 5 de novembro de 2020, quando estava a ver os resultados das eleições nos Estados Unidos, houve um momento em que me convenci de que Trump ia ser reeleito.

Para encher o tempo, entre a irritação e alguns nervos, coloquei rapidamente no papel (falso, no iPad) um texto de comentário à “vitória” de Trump. Não o publiquei, por prudência. E fui-me deitar. Acordei, surpreendido, umas horas depois, com a possibilidade de uma vitória de Joe Biden. Mal eu sabia a “novela” que essa eleição ainda iria ser.

Trump perdeu, Biden ganhou. Há dias, ao fazer uma limpeza dos rascunhos que tinha “em caixa”, dei com isto. Achei que era curioso publicar este texto contrafactual, precisamente na véspera da posse de Joe Biden. É que é tão raro ficarmos felizes por nos termos enganado. 

Trump, again!

Contra o mundo, contra a pandemia, uma vez mais contra as sondagens, Trump renova o seu mandato. É obra!

Biden, mesmo com a novidade de ter Kamala Harris a seu lado, revelou-se um candidato pouco mobilizador. E vai desaparecer rapidamente, na reciclagem da História.

É a vida!, como costumava dizer um cidadão português, hoje em Manhattan, que tem razões para ver a vida da organização que dirige a andar para trás.

Com esta nova vitória de Trump, com grande probabilidade, vamos ver ruir, com fragor, um sistema multilateral no qual grande parte do mundo colocou, por décadas, as suas esperanças de paz e de progresso. Dossiês vitais para a sustentabilidade global, como o das alterações climáticas, vão ter um destino previsivelmente adverso e trágico para toda a humanidade.

Mas o que tem de ser tem muita força, e o mundo tem de se adaptar à realidade de ter de viver com Trump por mais quatro anos: com a sua megalomania, com as suas mentiras, com o seu autoritarismo, com as suas bizarras opções políticas. O anti-americanismo, que por cá tem raízes profundas, que partiram do salazarismo bafiento para chegarem ao esquerdismo auto-iluminado, vai encontrar novas razões para prosperar. 

A América pode vir a ter ainda um outro desafio: a reconstrução de uma alternativa, no período pós-Trump. É que o Partido Democrático, que tinha encontrado em Biden, conjunturalmente, um denominador comum centrista, de natureza tática, pode vir a ser tentado a uma deriva radical, o que reduzirá ainda mais as suas hipóteses de um regresso futuro ao poder.

Para o que mais diretamente nos importa, a Europa terá de fazer pela vida e aprender a conviver com a continuação de um aliado hostil na Casa Branca. Restará saber se o laço transatlântico conseguirá resistir a mais estes anos de Trump. Imagino mesmo os sorrisos no Kremlin, esta madrugada. E algo me faz pensar que os chineses preferem Trump a uma alternativa democrática, que teria uma muito maior capacidade para gizar uma frente de democracias contra os interesses da China.

Finalmente, sejamos justos: há que dar os parabéns aos populistas, aos demagogos, aos Bolsonaros e toda a casta de autoritários que, neste dia, saem reforçados nas suas agendas.

Valha-nos, porém, uma certeza: com ou sem Trump, a vida continua! Não vai ser fácil, mas na História não há becos: há sempre saídas! Pode é ser mais difícil e demorar mais tempo a encontrá-las.”

3 comentários:

Obelix disse...

Felizmente enganou-se mas parabéns pela honestidade de publicar agora o texto.
E, já agora, parabéns pela vitória de ontem
Cumprimentos

Joaquim de Freitas disse...

Fez bem de o publicar, Senhor Embaixador... A diferença não é enorme!

Um é de direita (o "democrata") e o outro é de extrema-direita" (o Republicano). Um ou outro, é um defensor do capitalismo, um gestor zeloso de cerca de 800 bases militares norte-americanas em todo o mundo e um opositor histérico de tudo o que se assemelha ao comunismo (Cuba, Venezuela, China, Rússia...).

Donald Trump tinha a sua agenda dizendo "América primeiro". Joe Biden, mesmo antes de entrar na Sala Oval da Casa Branca, diz que os Estados Unidos "estão prontos para liderar o mundo".
Como diria alguém, em França, que o Senhor conheceu bem: Bonet blanc, Blanc bonet... E na América: it's six of one, half-a-dozen of another

Creio que me esqueci de lhe apresentar os meus votos para o Novo Ano, Senhor Embaixador ! Bonne Année e para todos os seus. Sans Covid, claro!

Jaime Santos disse...

Em Novembro de 2016, fui-me deitar pensando que acordaria com uma mulher eleita Presidente dos EUA. Este ano, apostava que Trump conseguiria desafiar de novo as sondagens e ganhar. Quando a Flórida foi declarada para ele, logo por volta da 1h30, hora portuguesa, pensei que tudo estaria perdido. Mas como já estava sem sono, decidi esperar pela confirmação.

Fui tomar o pequeno almoço desconfiado, mas esperançado pela calma mensagem de Biden aos seus apoiantes, dizendo-lhes que esperava ganhar a eleição. Assim foi.

Diria que na vida quase sempre somos surpreendidos. Umas vezes desagradavelmente, outras agradavelmente.

Biden conseguiu porventura só o mais fácil. Resta desejar-lhe felicidades e esperar que reestabeleça alguma paz e normalidade na grande República dos EUA.

A derrota de Trump mostra duas coisas. Ganhar a forças populistas é extraordinariamente difícil, porque não respeitam sequer as elementares regras da boa educação. Mas não é impossível.

Espera-se agora que Trump pague pelos seus crimes. Mas isso serão as instituições americanas a decidir, soberanamente.