domingo, 31 de janeiro de 2021

Amândio Silva


Foi há menos de oito dias. Tinha no meu telefone nota de um telefonema do Amândio Silva. Como, muito pouco tempo antes, numa conversa com o Carlos Cristo, eu tinha perguntado se o Amândio não tinha ainda escrito as suas memórias - um relato, por mínimo que fosse, sobre a sua extraordinária vida - pensei que o circuito se tivesse “fechado” e ele me viesse falar disso mesmo. Foi nessa convicção que lhe liguei de volta!

Mas não! O telefonema era para me transmitir um convite para estar presente num debate ... que iria ter lugar em 10 julho próximo! Uma iniciativa organizada pelo seu querido “Mares Navegados”, um belo grupo de gente com farta memória democrática, para cujas publicações o Amândio já me tinha desafiado por várias vezes, ao longo dos últimos anos. Sem sucesso, porque a minha vida, feliz ou infelizmente, é o que é.

Depois do detalhe sobre o objeto da conversa, perguntei-lhe pela sua saúde. Senti-o hesitante, vago, como se fosse tema que não lhe interessava abordar. Respeitei e não insisti. Horas depois, relatei o episódio ao Carlos Cristo, seu grande amigo. E, comungando na pena de sentirmos o Amândio bastante “em baixo”, mudámos de conversa, porque a falta de saúde daqueles que estimamos é o pior assunto que se pode abordar.

Conheci o Amândio Silva no Brasil, numa visita que me fez na embaixada, depois da minha chegada, estimulado por amigos comuns. E amigos ficámos. Eu tinha o seu nome registado desde há muito, da História, da coragem da LUAR, do belo assalto ao avião da Tap entre Casablanca e Lisboa, de tantas outras saudáveis e corajosas aventuras contra a ditadura. O Amândio Silva fazia parte da minha memória admirativa dos combatentes pela liberdade. Pela nossa liberdade.

Pode dizer-se que o Brasil, que o tinha recolhido em tempos convulsos, nunca verdadeiramente tinha abandonado o Amândio. Ficara-lhe na fala, na fonética e na sintaxe. E na muita e vasta vida que teve por lá, que muitas vezes era evocada por quem o conhecia.

O Amândio era um homem grande, cordial, com um abraço apertado, imenso. Fazia parte de uma geração que, depois do 25 de abril, nunca se fixou bem nas prateleiras ideológicas com que o regime político se institucionalizou. Na luta contra o fascismo, houve alguma, não muita, gente assim. O Amândio era um democrata desalinhado. A LUAR, a sua LUAR, foi também isso mesmo. E ele tinha toda essa graça heterodoxa, a pairar sobre as convições profundas que o alimentavam. Como ele, houve várias outras pessoas que acabaram por ficar numa espécie de terra de ninguém, às vezes sujeita às diatribes dos ortodoxos e, claro, dos caluniadores daqueles que lutaram de armas na mão pela democracia. Tenho, porém, uma coisa por muito segura: ele esteve sempre do lado certo da História!

Passou uma semana sobre aquela minha conversa com o Amândio. Numa limpeza ao meu email, encontrei um texto que ele me tinha mandado, já há cinco anos. Era uma carta a José Pedro Castanheira, sobre uma questão de 1975, sobre a LUAR e a FUR. Um testemunho muito interessante, que não vem agora ao caso.

O texto ali ficou, sobre a minha mesa. Até hoje! Até à data em que soube, pelo Carlos Cristo, que o Amândio tinha morrido Apetece-me dizer um palavrão! Vou resistir. Vou apenas dizer o que agora me apetecia dizer-lhe: Adeus, Amândio! Muito obrigado por tudo quanto fez para que pudéssemos ser livres. E quem nos dera a nós ser tão livres como você sempre conseguiu ser.

1 comentário:

septuagenário disse...

Normalmente todos os anti-salazaristas que se refugiaram no paradisíaco Brasil daquele tempo, que não tem nada a ver com o Brasil antipático de hoje, deram-se maravilhosamente naquela terra, principalmente no período romântico da ditadura militar brasileira.

Aquilo é que foram tempos maravilhosos para essa gente, em que muitos jamais pensaram em regressar à "democracia dos tamancos".

Esse Brasil de sonho não volta mais.