domingo, 31 de janeiro de 2021

Platitudes


Mais do que o cansaço que sinto nas pessoas, preocupa-me o desânimo. É que a falta de perspetivas não é boa conselheira.

Esta pandemia tem vários tempos e já percebemos que nenhum nos garante o sentido do seguinte. Todos experimentámos a descompressão que o fim do primeiro grande confinamento nos trouxe. O ar livre, as esplanadas, com mais ou menos erros. Os restaurantes abriram, o negócio retomou, adaptámo-nos a um tempo que, longe de ser livre, parecia promissor.

Depois, de súbito, surgiram números pouco sossegantes. Dados contraditórios. E novas preocupações. Fechámo-nos mais. Em muitos casos, (confessem lá!), já com menos uso de gel nas mãos, com menor cuidado com o calçado.

A esperança na vacina que aí vinha dava-nos, contudo, um horizonte, embora sem datas. (Mas a vacina, salvo para alguns poucos, já se percebeu, vai demorar. Há que saber viver sem ela, até ver. Até vir.)

Depois foram as festas, o Natal, o discurso voluntarista sobre o prazer da reunião, com cuidados ao sabor do bom senso de cada um. (Confesso que tive logo um mau pressentimento). E o amigo que nos dizia que a prima chegava ao aeroporto sem lhe perguntarem nada.

Agora, isto. E o presidente já avisou: está para durar. Imagino que alguns digam: ele sabe tanto como nós. Esse enfraquecimento nas certezas que o poder nos comunica também não ajuda muito. Não ajuda nada!

Olho para a cara das pessoas e, por detrás das máscaras, imagino empregos perdidos ou em risco, negócios arruinados ou em desespero, empréstimos com prestações apenas adiadas, miúdos em casa, em casas pequenas, sem condições, com nervos em franja, vontade de sair, o medo à doença, tensões à flor da pele. E, sempre e até ver, a falta de um horizonte, a reforçar o tal desânimo.

Isto não está fácil! (Ora bolas, ele está para aqui a escrever o óbvio! Filosofia barata, como antes se dizia, é o que isto é!). Caramba! Também tenho direito às minhas platitudes, ou não? Durmam bem, se puderem.

3 comentários:

A.B. disse...

Os que levaram a primeira dose da vacina, diz o director da task-force* , pois é claro que levarão a segunda dose. Recordo o seu apontamento sobre isso, e deve sentir-se como eu, defraudado. Está-se a brincar com vidas.
O referido director conseguiu incluir o Chega! e os seus eleitores nas declarações. Para quê? Porquê? Se os critérios de vacinação passarem a ser políticos chegaremos ao fundo da amoralidade.
Lamento imenso ver o nome do meu país nas bocas do mundo pelas piores razões. Não piorem o que já está tão mal.

*
Há tempos falou da saloice nacional sobre matrículas. Quer maior saloice que chamar task-force a um grupo de trabalho?

A.B. disse...

Li agora no Jornal Económico que o Governo considera inaceitável o uso indevido de vacinas, e que o director do INEM que andou a vacinar não prioritários foi demitido. É de louvar.
Falta ainda uma reacção à triste entrevista de Francisco Ramos. Está encarregue dum processo logístico, não político, e a maior ou menor consideração que lhe merecem eleitores dum ou outro partido não vem ao caso. Ainda por cima fez um favor ao Chega! e a André Ventura.
A minha triste realidade é que já conheço mais gente infectada que vacinada, gente de todos os quadrantes políticos, que o vírus não tem os preconceitos do Sr. Francisco Ramos.

Pedro F. Correia disse...

Lúcida platitude! E com entrelinhas. Parabéns