quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Só falam da América!


Há dias, depois de mais uma edição de um programa de comentário internacional em que regularmente intervenho na TVI 24, um conhecido interpelou-me: “Por que é que vocês só falam da América?”.

Não é só da América que falamos mas, na realidade, o tema está muito presente em todas aquelas nossas conversas.

Trump, Biden, as relações de Washington com a Europa e com a China, o seu papel na NATO, o comportamento face à ONU e ao mundo multilateral em geral, o relacionamento com Moscovo, o posicionamento no xadrez do Médio Oriente - caramba!, de facto, estamos sempre a falar da América!

E, no entanto, tem mesmo de ser assim. Os Estados Unidos da América, para além do folhetim, entre o trágico e o divertido, em que a sua vida política interna recente se converteu, graças a um presidente bizarro, são, de há muito, um poder omnipresente pelo mundo. Às vezes, são um poder constrangente, que força a vontade alheia, outras vezes, a maioria delas, são um poder condicionador, que influencia o modo como os outros gerem a sua própria realidade.

Os EUA tanto são notícia por aquilo em que imiscuem, como o são pelo modo próprio como decidem abandonar esses cenários. Elefante em loja de porcelana, a América, pelo seu poder, não deixa ninguém indiferente. Se bem repararmos, é na reação assumida perante os EUA que o mundo se define, que se fica a saber de que “lado” está cada um.

Sei que esta é uma perspetiva que não agrada a muitos que, por boas ou más razões, são críticos dos Estados Unidos e consideram que não é saudável, para uma ordem internacional que idealmente se quereria mais equilibrada, ter esta dependência, quase obsessiva, do poder americano.

Muitos acham que, podendo ter tido alguma justificação que as coisas assim fossem durante a Guerra Fria, com um poder anti-democrático hostil do outro lado do muro, não subsistem já razões para nos mantermos sob a “paternal”, mas menorizante, tutela americana.

Outros, porém, receosos da força crescente da China, embora menos pela ameaça militar e mais pelo seu peso económico, terão ali encontrado uma justificação para voltar a recriar uma “América & os seus amigos”, para se oporem ao “perigo amarelo”, uma expressão desenterrada dos tempos em que o politicamente correto não limitava a nossa diversidade semântica.

A questão, como sempre, é o poder. Mas é também a vontade, porque metade do poder dos outros advém da maior ou menor facilidade com que deixamos manipular a nossa própria vontade.

4 comentários:

Luís Lavoura disse...

Tudo isto é verdade, mas o facto triste é que Portugal se tornou uma colónia noticiosa dos EUA, com os jornalistas a falarem de factos da vida política interna norte-americana como se de factos portugueses se tratasse.
E entretêm-se tanto com a vida política interna norte-americana, que de facto omitem ver o que se passa por todo o resto do mundo, incluindo aquilo que os EUA fazem na sua política internacional.
Seria bom que observassem de facto a política internacional, incluindo aquilo que os EUA nela fazem, em vez de se ocuparem com tricas da vida política interna dos EUA.

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador : Psyco genealogia, estrangulamento demográfico e racismo podem dar elementos de compreensão à perversidade narcisista da América branca, que apodrece todo o país.
Na "velha Europa", o subconsciente dos povos foi construído em torno da luta contra o feudalismo (nobreza e clero) e revoluções que trouxeram a todos os novos direitos e melhores condições de vida (mesmo para aqueles que têm antepassados que lutaram contra) daí o sentimento para todos que a “mise en comum” é rentável (Saúde, Educação, etc. )

O estrangulamento demográfico e o empobrecimento filosófico porque os EUA foram muito recentemente e principalmente povoados por jovens imigrantes, rapidamente aculturados, e por condenados deportados contra sua vontade e a erva que todos encontraram lá estava longe de ser tão verde quanto anunciado. Daí um difícil retorno à realidade e a certeza de ter sido enganado.
E esse sentimento ainda está no subconsciente da América branca de hoje.
Então cada um estando lá para comer a sopa na cabeça dos outros os colectivistas sempre foram marginalizados e caçados.

E a velha Europa, que enquanto isso, tinha conseguido criar um mundo mais harmonioso e menos violento é vista hoje com ressentimento e desprezo porque essa realidade (meus ancestrais teriam feito melhor de ficar lá e fomos ludibriados) é impossível de aceitar.

E a velha Europa, que, entretanto, tinha conseguido criar um mundo mais harmonioso e menos violento é vista hoje com ressentimento e desprezo porque essa realidade (meus ancestrais teriam feito melhor para ficar lá e nós tivemos) é impossível de aceitar.

Como exequivel para a psicose branca, a América branca usou violência racista, como linchamentos públicos de crianças em idade escolar (Waco: Jesse Washington queimado, amputado vivo e torturado durante horas perante 10.000 espectadores hilariantes em frente à câmara.

Tulsa- : Linchando um bairro inteiro de 300 mortos e os saques e assassinatos de povos do terceiro mundo.

O Senhor vê essas pessoas participar num fundo de segurança social ou um fundo de pensão com pessoas negras?

Bom, parece que em 18 de Dezembro de 2018 (sim dois mil e dezoito) o Senado do povo de grandes psicopatas votou a criminalização dos linchamentos. Merci.

Joaquim de Freitas disse...

(Suite) Este país foi construído em selvajaria individual.
Na busca quase exclusiva do interesse próprio, sem laços sociais historicamente bem fundamentados
A selvajaria pura expressa pela lei do mais apto em todos os níveis.
Isso permitiu e justifica por um puritanismo religioso tipicamente inglês mais próximo do paganismo materialista, que crença enraizada e desenvolvida pelos preceitos do cristianismo compartilhado.
Este é o início de uma explicação sobre a adoração do dinheiro e a avenida dos dólares de Deus que sustentam as verdadeiras crenças desta gente selvagem e inculturada.

O resto é apenas simulacros bárbaros aos quais eles se entregam para esconder as suas consciências:

"Nós mentimos, trapaceamos, roubamos" Mike Pompéo em conferência.

Se ele diz isso............ Pela primeira vez ele diz a verdade!
Finalmente, Senhor Embaixador, como não desejar o desaparecimento de tal anti-civilização, devotada ao capitalismo sem limites?

O EUA com o seu sistema económico e político é o câncer do mundo com metástases que se espalham por todo o planeta e até mesmo no espaço.

A sua crença: Eles acreditam em Deus, quase todos eles. Ela forja estruturas de bloqueio no cérebro para a organização social. E a crença do anti-comunismo. O comunismo é o diabo. É repetido, reaquecido e acima de tudo reprimido. Isso pode ser uma causa de sérios problemas nas suas vidas.

Sempre me impressionei como, mesmo na miséria mais sombria, muitos americanos, que teriam tudo a ganhar (previdência social, educação gratuita, pensões dignas...), teimosamente se recusam a considerar a esquerda como uma opção, mesmo que apenas concebível... Bernie Sanders, longe de ser um revolucionário, é até considerado por muitos como um comunista sombrio :-( miséria da miséria!

jose duarte disse...

Se há dúvidas sobre a importância de se falar da América,basta olhar para aquilo que está a acontecer para não haver dúvidas.Fica claro, que nada está adquirido e que as democracias estão a atravessar uma fase difícil.É costume referir-se que a América é a mais antiga democracia.......