Um dia de março de 1971, ao passar pela Place da la Nation, em Paris, onde tinha aportado por uns dias, num turismo baratucho que conseguia fazer nesse tempo, dei de caras com um antigo colega de Vila Real, que sabia ter saído “a salto” de Portugal e a quem tinha perdido, por completo, o rasto.
Era um tipo alto, com raízes em Bragança e com quem, curiosamente, me cruzara também em algumas férias em Viana do Castelo. Não éramos íntimos, mas éramos amigos.
Fizemos aquela festa tradicional, típica de dois transmontanos que se prezam. Generoso, convidou-me a ir beber uma cerveja à sua casa, ali perto.
Foi-me contando que tinha um emprego em que lavava janelas a partir das seis da manhã (“não é nada mal pago, sabes?, mas é muito chato ter de sair de casa às quatro!”). Em fins de tarde, aproveitava para assistir a uns cursos livres na Universidade de Vincennes. “A vida há-de mudar!”.
Sem dizer expressamente, deu-me a entender que era militante de um partido político português (na clandestinidade, claro, porque todos o estavam), o que conteve a minha curiosidade inquisitiva sobre mais aspetos da sua vida em Paris. Anos mais tarde, encontrei-o numa bancada de vendas, numa Festa do Avante.
Subimos ao apartamento onde vivia, uma sala e um quarto, num 4.º andar sem elevador, com uma cozinha a meias com um argelino, de onde chegava um cheiro menos convidativo a comida, que se espalhava por toda a parte.
“O problema é o frio. A casa não tem aquecimento. Temos de pôr aquecedores, mas a eletricidade é cara. Às vezes, vou para a cama mais cedo, só para me aquecer.”
E, num tom mais triste, com aquela saudade que a minha presença lhe trazia, acrescentou: “Queres saber uma coisa? Lá em Vila Real, parece que o nosso frio era diferente.”
Pois era. O frio da terra portuguesa, para quem sofria a distância e a tragédia da emigração e do exílio, tinha outro calor.
