sábado, 9 de janeiro de 2021

Samuel Pisar


Há dias em que, por precipitação, falamos demais. Em 2012, num jantar em Paris (alguns comentadores acham que a vida dos diplomatas é feita de jantares: é verdade, os diplomatas têm o hábito, quiçá excessivo, de jantar uma vez por dia), fiquei sentado próximo de um cavalheiro, já de certa idade, que, em determinado momento, e tendo sabido que eu era português, se referiu a uma homenagem que iria ser prestada, na UNESCO, a Aristides de Sousa Mendes.

Revelou-me estar envolvido na organização e eu congratulei-me com isso, tanto mais que, como o informei, tinha acabado de acumular o lugar de embaixador português em França com o de representante junto da UNESCO e, naturalmente, também ia colaborar no evento. Porque, à mesa, havia uma senhora de permeio e porque ele falava em voz bastante baixa, não tinha ouvido bem o seu nome.

A certo passo da conversa, ainda sob o tema Portugal, passando a voz à frente dessa senhora, perguntou-me por Mário Soares e pela sua "simpática esposa", que ele conhecia bem. Disse-lhe as últimas notícias que sabia de ambos (eram vivos, à época), tendo ele acrescentado: "Um livro meu tem um prefácio de Mário Soares".

Com um orgulho algo adolescente (cada vez mais me convenço que "adolescemos" com a idade), saiu-me de imediato: "Tem graça! Eu também tenho um livro prefaciado por Mário Soares". Sorrimos e o jantar lá prosseguiu.

Minutos depois, perguntei discretamente à senhora que se interpunha entre mim e o tal cavalheiro, já octogenário: "Tem ideia de como se chama o seu vizinho do lado? Não consegui ouvir o nome dele...". A senhora, creio que olhando para o pequeno papel que, na mesa, identificava o conviva, disse, baixo: "Samuel Pisar".

Tive um baque! Samuel Pisar? "O" Samuel Pisar, nascido na Polónia, que estivera detido em Auschwitz e em vários outros campos de concentração, que escapou miraculosamente das garras de Mengele e de outros cenários de horror, cujo pai fora morto pela Gestapo?

"O" Samuel Pisar que, no fim da guerra, se formara em Oxford e na Sorbonne, e que, naturalizado americano, dera aulas em Harvard e fora assessor económico de John Kennedy?

Olhei de viés e, com uma curiosidade acrescida, procurei estar atento a algo que ele dizia para o outro lado da mesa. Nada de decisivo: apenas elogiava a textura dos espargos que estavam a ser servidos, porque então era a época deles.

A casa era magnífica, de um galerista, cujo nome perdi, um conhecimento que herdara do meu antecessor, António Monteiro. Era um andar perto no Quai d’Orsay, curiosamente com um grande quadro de Paula Rego, uma pintora que Paris teima em desconhecer. No final do jantar, num canto da sala de estar, aproximei-me de Pisar. Falámos, recordo, da Europa e do lugar de Portugal nela. Nada de que tenha guardado a menor nota.

Samuel Pisar era, à época, um senador de uma vida que, como poucos, soube recriar a partir da barbárie e que um dia, escreveu: "Hoje, sobrevivente dos sobreviventes, sinto uma obrigação de transmitir algumas verdades que aprendi na minha passagem pelo mais baixo da condição humana e, depois, por alguns dos seus momentos altos". Li isto num livro dele, que comprei, dias depois.

Nunca me perdoarei do facto de, inadvertidamente, ter "rivalizado" com Samuel Pisar, ao reivindicar ter, como ele, um prefácio de Mário Soares. Ou melhor, e pensando bem, talvez tenha a obrigação de ficar contente por poder ter, com ele, esse honroso ponto em comum.

Por que razão falo agora de Samuel Pisar, que morreu já em 2015? Porque, há dias, dei-me conta de que era padrasto de Anthony Blinken, que vai ser o futuro Secretário de Estado americano, isto é, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Joe Biden. Até saber isto, perguntava-me por que luas Blinken falava tão bem francês. Agora percebi: a sua mãe, Judith, vivia em Paris e foi a segunda mulher de Pisar. A senhora devia estar do outro lado daquela mesa, nesse jantar. 

1 comentário:

Flor disse...

"....a tal senhora de permeio..." ?