domingo, 24 de janeiro de 2021

Carlos Antunes


Não sei exatamente quando conheci o Carlos Antunes. Ele era, para mim, uma figura quase mítica, desde antes do 25 de abril, na oposição violenta contra a ditadura.

Nos “anos da brasa” de 1974/75, não me recordo de nos termos cruzado alguma vez, embora isso pudesse ter acontecido. 

Tenho, assim, quase a certeza de que foi o Nuno Brederode Santos quem nos apresentou, numa noite dos anos 80, na Mesa Dois do Procópio, na primeira das vezes em que o encontrei por lá, quase sempre com a Isabel do Carmo.

A partir daí, nas ocasiões em que por acaso nos juntávamos, belas conversas pela noite dentro fomos tendo! O Carlos era um conversador magnífico, tinha um estilo, ao mesmo tempo empolgado mas com grande serenidade, de contar histórias, sempre com um sorriso a acompanhá-las! E que vida para contar que ele tinha!

Seria também no Procópio, em inícios de 1995, e isso recordo muito bem, que o Carlos se envolveu numa discussão acesa com o Agostinho Roseta, a propósito de um episódio passado em 1975, cujos pormenores não vêm para o caso. Seria essa, aliás, a última noite em que eu vi o Agostinho, um grande amigo, antes dele morrer.

O Carlos e a Isabel passaram a fazer parte da lista de convivas que, desde 2004, eu convocava para o jantar anual da Mesa Dois, uma organização que assegurei por uma década. Lembro-me de, por duas vezes (no “Manel” e no “Vírgula”), o ter deliberadamente colocado ao lado do Caetano da Cunha Reis, testando assim a convivialidade obrigatória do grupo: o Carlos vinha das pontas extremas da esquerda política, o Caetano havia sido fundador da Juventude Centrista. Deram-se lindamente! Tenho prova fotográfica disso! Essa era uma das “artes” da Dois!

Guardo, em especial, um almoço magnífico com o Carlos, organizado pelo António Dias, também com o José Manuel Correia Pinto, no restaurante do Teatro Aberto, numa data do início do século que não consigo precisar. Foram quase três horas memoráveis (o restaurante queria fechar e nós continuávamos vidrados na conversa), com o Carlos, naquele seu jeito suave e envolvente, a contar-nos os seus tempos da clandestinidade, de Bucareste a Paris, de Argel a Moscovo, com histórias passadas em reuniões com Álvaro Cunhal, em países do Leste europeu, quando ainda andava nas águas do PCP. Fiquei com pena de não ter ali um gravador, porque só aquilo tinha dado um livro muito interessante. Depois disso, várias vezes o estimulei a um exercício desse género, com o qual a história da oposição à ditadura e das dissidência do PCP muito ganhariam. Não sei se o fez.

Vi o Carlos, pela última vez, no Chiado, já há uns tempos. Meia hora de conversa na rua do Carmo soube a pouco. Ficámos de marcar, para um dia futuro, mais um almoço. Afinal, não há futuro para esse almoço. Acabo de saber que o meu amigo Carlos Antunes morreu do vírus que por aí anda. Começo a ficar muito chateado com o destino!