sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Lembrei-me do Luís


O Luís morava num primeiro andar na esquina da rua das Trinas com a rua das Praças, por cima do Berimbar. (Passei lá, há pouco, na minha caminhada noturna). O Luís era arquiteto e vivia com o Afonso, um brasileiro divertido, amigo de Malú Futscher Pereira. Com eles e com ela, algumas vezes, fomos jantar à “Adega dos Macacos”, uma tasca na praça dom Luís, que, por razões misteriosas (e gastronomicamente injustificáveis), a todos eles, que não a mim, caíra no goto. 

Um dia, em Angola, nos anos 80, o José Guilherme Stichini Vilela, que, como eu, era diplomata na embaixada, revelou-me que conhecera, já não sei por que luas, um arquiteto, a quem tinha encarregado da renovação de um velho apartamento que comprara, em Lisboa (e que, curiosamente, fica hoje a menos de 100 metros da minha casa, porque isto é uma aldeia). Olhei os desenhos e vi que estava perante um homem de extremo bom gosto. Chamava-se Luís Gomes de Abreu.

Nesse entretanto, também eu acabei por comprar um apartamento antigo, para os lados do Campo Pequeno, que queria remodelar. Escrevi ao Luís uma carta com 27 páginas dactilografadas, dizendo, com precisão, o que queria fazer na casa, que visitara por um quarto de hora e de que apenas tinha uma planta e fotografias. Respondeu-me com uma de 15, manuscrita, com uma letra curiosa. (Ele, entretanto, também escreveu ao Zé Guilherme, perguntando se “o seu amigo por acaso não é maluco”. Eu tinha era tempo!).

Fiz de conta que não sabia do comentário. Numa vinda a Portugal, conhecemo-nos e acordei tudo quanto ao trabalho. O vai e vem da mala diplomática já tinha arrumado todos os pormenores.

Não podia ter feito melhor opção. O seu profissionalismo era imenso, a sua engenhosidade era inesgotável, embora o seu preço não fosse nada barato. A obra saiu mesmo muito bem.

O Luís era uma figura interessante. Pesado, jovial, com um sorriso aberto, um pouco sarcástico, o que me dava justificação para o provocar. Andava sempre impecavelmente vestido. Não tinha um feitio fácil, era muito teimoso, muito orgulhoso daquilo que fazia, renitente, até à exaustão, às sugestões dos "donos das obras". Mas eu conseguia ser ainda mais obstinado e, como cliente, era “chatíssimo” (expressão dele, assumida). Exigi-lhe pormenores impensáveis: "nunca encontrei um cliente que me pedisse um desenho de uma sanca em tamanho natural, sem aceitar um desenho em escala", disse-me um dia: "só você!".

Tinha um atelier no Bairro Alto, ao lado de um dos mais sinistros restaurantes de Lisboa, o “Pucherus”, pouso de dias pouco abonados no final dos anos 60. Às vezes, partíamos do ateliê para jornadas bem divertidas. Ah! E, politicamente, o Luís era um reacionário “de primeira”. Discutíamos imenso e acho que ele se vingava cobrando caro. Mas as nossas "pegas" foram sempre cordiais, em noites de conversa e copos, divertidíssimas, em que ficámos amigos e, depois, quase vizinhos.

Recordo uma noite nossa com o Luís, no velho "Botequim", da Graça. Havia eleições uns dias depois, e, a certa altura, ele disse, em voz alta, que se ia abster. O que ele foi dizer! A boquilha da Natália avançou logo para nós, com o Luís a envolver-se numa homérica discussão com ela, que acabou por se mudar para a nossa mesa. A certa altura, o Luís disse para a Natália: “Mas nós até estamos de acordo na política! Este meu amigo é que é de esquerda!” Desastre! De repente, passei a alvo de Natália Correia, com o Luís divertido e o meu argumentário já um pouco debilitado pelo consumo líquido da noite. Já nem sei como aquilo acabou, lá para as quatro da manhã! Até o Dórdio a veio chamar várias vezes!

Voltei a ter o Luís como arquiteto, na casa onde hoje vivo. E, claro, voltámos a "pegar-nos" sobre a obra... Mas continuámos amigos. E ele continuava a fazer as coisas sempre muito bem.

Desde sempre, o Luís tinha uma rotina ímpar: era a primeira pessoa a mandar-nos boas-festas. Chegavam sempre no início de Dezembro. Já não chegam. O Luís morreu em 2012. A casa lá está, como a fotografia, de há minutos, mostra. Lembrei-me dele.

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