segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Uma leitura (útil) de Paulo Querido

“A recomposição da direita portuguesa não se fica pelo Chega. O partido Iniciativa Liberal tem feito um caminho praticamente simultâneo. 

Ambos nasceram dentro de um período de dois anos a tempo de disputar as eleições de 2019, ambos elegeram um deputado à Assembleia da República, ambos sangram os outros dois partidos da direita, ambos têm crescido em reconhecimento e em intenções de voto. 

O IL tem tido uma subida menos acentuada, refletindo a diferença entre populismo e responsabilidade, bem como a diferença entre grunhice e educação. Por cada eleitor educado que o IL tirou ao CDS, o Chega tirou três eleitores arrivistas e topa-tudo ao PSD. 

Mas o IL é um poço de equívocos. Muitos vêem nele uma movimentação tão ou mais perigosa para a democracia que o Chega. A hiper-valorização do capitalismo enquanto valor é a principal responsável por essa visão redutora. Os valores sociais que estão presentes no IL raramente ou nunca afloram no confronto de argumentos. Os mantras do “mercado”, do “capitalismo” e da meritocracia e a aversão, ódio mesmo, ao setor público conspurcam de tal forma as conversas que o liberalismo de costumes não tem a menor hipótese de comparecer na mesa. 

Socorro-me da Wikipedia para estabelecer que as ideias e partidos que adotam o liberalismo social são considerados de centro. Assim, os liberais sociais encontram-se entre os mais fortes defensores dos direitos humanos e das liberdades civis, embora combinando esta vertente com o apoio a uma economia em que o Estado desempenha essencialmente um papel de regulador e de garante do acesso de todos (independentemente da sua capacidade económica), aos serviços públicos que asseguram os direitos sociais considerados fundamentais. Todavia no liberalismo social, o Estado não tem obrigatoriamente de ser o fornecedor do serviço público, tendo apenas de garantir que todos os cidadãos têm acesso a serviços públicos básicos, independentemente da sua capacidade económica. 

Ora, o Iniciativa Liberal nasceu agrupando liberais puros e impuros. Estes dois grupos têm um passado pouco recomendável: ambos estiveram na fissão do PSD, empurrando o cabide sublimemente formado na juventude do partido para todas as ideologias, Pedro Passos Coelho, para a liderança, encomendando-lhe uma cartilha neo-liberal bem robusta. (A troika diz mata? Meninos do coro! Moles! Nós dizemos esfola! Nem mais um feriado para a corja!)

O neo-liberalismo — a desregulação selvagem somada à destruição de direitos do trabalho e, em países sem tradição liberal como Portugal, à canalização dos recursos públicos para a iniciativa privada — dominou os primeiros passos da geração de liberais impuros, empolgados com o empoderamento que a blogosfera lhes concedeu no início do século.

Os que andaram com Passos ao colo nos media e chegaram ao tristemente célebre governo de desnorte nacional de Passos/Portas, entre ministros, secretários de Estado, gabinetes e comissões de serviço na Imprensa, eram mais thatcheristas e reaganistas que os próprios mãe e pai do neo-liberalismo. Finda, com traumático estrondo, a irrepetível deriva neo-liberal do PSD, os que não se tinham comprometido demasiado na aventura foram à procura de nova saída. Como deviam. 

À sua espera de braços bem abertos estavam os liberais puros — tão puros que não se tinham metido no comboio de assalto ao PSD e à Assembleia da República. Outros nem sequer andaram alguma vez com o crachá da esfinge de Reagan nem com o pullover estampado com o icónico rosto de Thatcher a vermelho e azul. 

Um pouco como o Bloco de Esquerda a reunir tribos com práticas divergentes, o partido Iniciativa Liberal reuniu tribos liberais com passados divergentes: liberais sociais misturados com neo-liberais duros. 

Ora, enquanto na direção (da fundação aos atuais corpos) pontificam os puros, o combate nas ruas tem estado a cargo dos impuros, muitos dos quais não conseguiram despir a tempo o fato-macaco passista. O grosso da imagem do partido resulta da atividade destes nas redes sociais. Os cartazes irreverentes não se sobrepõem, muito menos o discurso ponderado do presidente do partido e deputado à AR — e do candidato à Presidência da República, já agora. 

Não admira, portanto, a confusão. E a desconfiança.”


https://pauloquerido.medium.com/

4 comentários:

Luís Lavoura disse...

O grosso da imagem do partido resulta da atividade destes nas redes sociais.

Isso, para quem lê as redes sociais. Apenas uma pequena parte da população (creio eu) as lê.

carlos cardoso disse...

O Paulo Querido não parece saber o que é liberalismo.
Thatcher e Reagan, mesmo se chamados neo-liberais, foram conservadores e, tanto em termos sociais como economicos, as suas politicas foram tão liberais como as de Xi Jinping. Passos Coelho também não foi nenhum liberal e, ao nivel internacional, o PSD deixou hà muitas décadas a "familia" liberal - onde tinha encalhado por engano, pois não é mais liberal do que social democrata - para se juntar aos cristãos democratas.
O liberalismo não é de direita como não é de esquerda (conheci liberais muito à esquerda de muitos socialistas), como uma anàlise honesta à campanha eleitoral do candidato liberal demonstra.
Onde o Paulo Querido tem razão é em dizer que o Estado liberal não pretende fornecer todos os serviços pùblicos mas apenas garantir que estes são fornecido a todos os cidadãos (reconheço que esta atitude pode levar a enganos).
Também é capaz de ter razão ao dar a entender que os portugueses não são suficientemente evoluidos para terem um governo liberal...

vr disse...

Curiosíssima leitura dos resultados, a de Paulo Querido. O candidato apoiado pelo PSD e CDS, partidos que juntos tiveram apenas 32% dos votos nas últimas legislativas, obteve uma votação de 61% nas presidenciais. Em contrapartida, os candidatos do PCP e do BE, que tinham obtido 16% dos votos nas legislativas, obtiveram agora, juntos, metade disso (apesar da falta de comparência do PS que lhes poderia abrir algum espaço). Para o PCP terá sido (julgo, não fui consultar o histórico) o pior resultado de sempre em quaisquer eleições. Em Avis, que dizem o concelho mais comunista de Portugal, onde MRS teve uma votação quase exatamente igual à soma das votações de PSD, CDS e PS, João Ferreira teve menos 10 pontos percentuais do que a CDU tinha tido em 2019 e Marisa menos 4 pontos percentuais do que o Bloco. E quem é que terá crescido 14 pontos percentuais, quem terá sido?? Mas o que preocupa Paulo Querido é a situação da direita, conseguindo até ver, numa qualquer bola de cristal, que o lamentável Ventura é ao PSD que está a roubar eleitores (enfim, não eleitores de pleno direito, apenas arrivistas e topa-tudo, em qualquer caso; não é só o Ventura que divide os portugueses entre gente de bem e os outros, mesmo que os apodos não sejam os mesmos).

Luís Lavoura disse...

Thatcher e Reagan, mesmo se chamados neo-liberais, foram conservadores e, tanto em termos sociais como economicos, as suas politicas foram tão liberais como as de Xi Jinping.

Em particular, Reagan aumentou brutalmente a intervenção do Estado na vida económica americana, através das compras maciças de armamento que fomentou, e gerou um brutal défice nas contas públicas americanas, que nenhum liberal poderia aplaudir.