quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A vida relativa


Eu andava nos últimos anos do liceu. Uma noite, a rádio, no dia seguinte a televisão, no outro dia ainda os jornais do Porto que se liam lá por casa, em Vila Real, trouxeram o relato dramático do desastre. 

As fotografias, no preto e branco da época, mostravam as imagens de uma parte de um comboio que embatera contra uma ponte. Era em Custóias, junto ao Porto. Morreram 90 pessoas, que vinham da Póvoa e de Vila do Conde, depois de um domingo de praia.

Para mim, esse número pareceu-me sempre uma monstruosidade. Quase 100 pessoas! Caramba!

No ano anterior, a cobertura de cimento da estação do Cais do Sodré, em Lisboa, tinha caído, provocando meia centena de mortos. Um número impressionante! Mais ou menos o mesmo número de pessoas (o número exato nunca se soube, ao certo) que, duas décadas depois, não muito longe de Viseu, em Alcafache, viriam a morrer num acidente com o Sud Expresso, a caminho de França.

Trago comigo na cabeça esses números, desde sempre, como uma espécie de “benchmark” negativo das nossas tragédias coletivas. 

Hoje, ao ouvir que, só no dia de ontem, a pandemia levou mais de 300 vidas, não tive nenhum arrepio, só senti imensa pena. Como a gente se habitua às coisas, como tudo se torna tão relativo!

4 comentários:

Luís Lavoura disse...

É tudo relativo. Num dia morrem em Portugal, em média, umas 300 pessoas (nos dias de verão menos, nos de inverno mais). Por isso a mortalidade covid, na primavera de 2020, que nunca ultrapassou as 40 pessoas, era despicienda, apesar de muito apregoada.

Jaime Santos disse...

Pois, Luís Lavoura, mas qualquer vida a mais que se perca é um abismo. E essas 40 mortes teriam concerteza dado lugar a números bem piores, como se viu em Itália, sem o confinamento.

Algumas dessas pessoas terão morrido agora, sobretudo as que estavam em lares? Seguramente, mas ganharam um ano de vida, o que é muito significativo para quem tem uma idade avançada. Se lhe perguntassem se preferia morrer agora ou dentro de seis meses, o que responderia?

E cabe notar que o conhecimento que se ganhou na luta contra o vírus seguramente que permite salvar muitas vidas...

Por isso, ter que ler os disparates que você escreve dá por vezes vontade de dar urros. Não há pachorra!

maitemachado59 disse...

Por que e que tanta gente "da" no Luis Lavoura? O homem e um original, terra a-terra, "thinks outside the box". Nao e par-a louvar? (anagrama deliberado).

maitemachado59

Jaime Santos disse...

Não é Maite, é mais para alarvear (passe o neologismo)... Terra-a-terra é outro nome para um rústico, como sabe...