Chegou-me há horas pela Amazon um livro de memórias de um diplomata francês, pessoa que conheço há décadas, aliás como acontece com alguns outros colegas portugueses.
Trata-se uma obra minuciosa, que seguramente necessitou de arquivos pessoais muito completos, para obter um total rigor nas datas, nos nomes mencionados, nos dossiês que são desenvolvolvidos.
Admiro sinceramente quem se aventura por esse modelo autobiográfico, que acaba por se converter num valioso auxiliar para os historiadores. Essa minha admiração também deriva do facto de, ao longo da minha carreira profissional, ter guardado muito poucos documentos, ter tomado muito poucas notas que pudessem um dia servir de "andaimes" para construir algo parecido. Confio na minha memória, o que torna o que escrevo muito mais impressionista, com certeza bastante menos útil. Acresce que, também por isso, nunca cometi a ousadia de escrever uma autobiografia.
No livro em causa, é contada uma história curiosa relativa à Roménia, onde esse diplomata francês foi embaixador. É sabida - e o livro detalha isso bem - a má imagem que os romenos têm no imaginário comum francês. O texto detalha os aspetos injustos desse preconceito. Mas conta uma história, que não se sabe se será lenda.
Numa certa aldeia romena, haveria uma "escola de formação" de assaltantes de parquímetros parisienses. Para "treino", tinham sido "trazidos" de Paris exemplares desses aparelhos, para garantir uma formação mais realista...
O texto não menciona o nome da aldeia, o que me impele a também não mencionar o nome de uma localidade portuguesa por muitos anos conhecida pela "qualidade técnica" dos seus carteiristas. Sendo isso verdade ou não, dizia-se que existia aí um "centro de formação" com um manequim, cheio de pequenos guizos, processando-se as aulas na tentativa de retirada de carteiras sem que disso se "desse fé", como se costuma dizer nessa região.
E aqui fica este texto de fim de tarde, que, em duas historietas, parte das elaboradas memórias de um diplomata francês para acabar na singela memória, quiçá económica com a verdade dos factos, de um seu colega português.
