domingo, 10 de abril de 2011

Um compromisso nacional*

1. Portugal está a viver uma das mais sérias crises da sua história recente. Essa crise tem uma dimensão financeira e económica, que se reflete no défice orçamental, no desequilíbrio externo, no elevado grau de endividamento público e privado e nos baixos índices de competitividade e crescimento da economia, com grave impacto no desemprego, em especial nas gerações mais novas; mas tem igualmente uma dimensão política e social grave, que se exprime numa crescente dificuldade no funcionamento do Estado e do sistema de representação política e em preocupantes sinais de enfraquecimento da coesão da sociedade e das suas expectativas. 

2. A crise financeira e económica mundial que se iniciou em 2007,com origem nos Estados Unidos, gerou em 2009 a maior recessão global dos últimos 80 anos e transformou-se, mais tarde, na chamada crise da dívida soberana, que abriu no seio da União Europeia um importante processo de ajustamento político e institucional, afetando de modo especialmente negativo alguns dos Estados membros mais vulneráveis, entre os quais, agora, Portugal.

3. Nesta situação de grande dificuldade, em que persistentes problemas internos foram seriamente agravados por uma conjuntura internacional excecionalmente crítica, os signatários sentem-se no dever de exprimir a sua opinião sobre algumas das condições que consideram indispensáveis para ultrapassar a crise, num momento em que a dificuldade de diálogo entre os dirigentes políticos nacionais e a crescente crispação do debate público, nas vésperas de uma campanha eleitoral, ameaçam minar perigosamente a definição de soluções consistentes para os problemas nacionais. 

4. Essas condições envolvem dois compromissos fundamentais:

a) em primeiro lugar, um compromisso entre o Presidente da República, o Governo e os principais partidos, para garantir a capacidade de execução de um plano de ação imediato, que permita assegurar a credibilidade externa e o regular financiamento da economia, evitando perturbações adicionais numa campanha eleitoral que deve contribuir para uma escolha serena, livre e informada; este compromisso imediato deve permitir que o Governo possa assumir plenamente as suas responsabilidades para assegurar o bem público e assumir inadiáveis compromissos externos em nome do Estado. 

b) em segundo lugar, um compromisso entre os principais partidos, com o apoio do Presidente da República, no sentido de assegurar que o próximo Governo será suportado por uma maioria inequívoca, indispensável na construção do consenso mínimo para responder à crise sem a perturbação e incerteza de um processo de negociação permanente, como tem acontecido no passado recente; numa perspetiva de curto prazo, esse consenso mínimo deverá formar-se sobre o processo de consolidação orçamental e a trajetória de ajustamento para os próximos três anos prevista na última versão do Programa de Estabilidade e Crescimento; e, numa perspetiva de médio/longo prazo, sobre as seguintes grandes questões nacionais, relacionadas com a adaptação estrutural exigida à economia e à sociedade: a governabilidade, o controlo da dívida externa, a criação de emprego, a melhor distribuição da riqueza, as orientações fundamentais do investimento público, a configuração e sustentabilidade do Estado Social e a organização dos sistemas de Justiça, Educação e Saúde. 

5. As próximas eleições gerais exigem um clima de tranquilidade e um nível de informação objetiva sobre a realidade nacional que não estão neste momento asseguradas. A afirmação destes compromissos, a partir de um esforço conjunto dos principais responsáveis políticos, ajudará seguramente a construir uma solução governativa estável, que constitui a primeira premissa para que os Portugueses possam encontrar uma razão de ser nos sacrifícios presentes e encarar com esperança o próximo futuro. 

* Documento subscrito por um conjunto de cidadãos, oriundos de áreas muito diversas da opinião, publicado ontem pelo jornal "Expresso"

6 comentários:

ECD disse...

Salvo o devido respeito, não tem ponta por onde se pegue. Basta olhar para as historias pessoais e politicas recentes dos subscritores


Mais, para mim estas coisas de compromissos (e unidades) nacionais cheiram-me sempre a discurso reciclado do antigamente

Finalmente, politicamente (e moralmente), Cavaco Silva não tem condições para ser polo agregador de coisa nenhuma

Anónimo disse...

Também li ontem no "Expresso".

Acredito que se houver "Um compromisso nacional", podemos iniciar uma nova fase da História de Portugal sem cometer sucessivamente os mesmos erros.

Isabel BP

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Senhor Embaixador,
De compromissos está o inferno cheio!
Os que se comprometeram o que irão fazer?
Há lá gente com nódoas que lhe sujaram a roupagem.
Me parece que é uma forma de sacudir a água do capote e atirar, aos portugueses, com areia para os olhos.
Saudações de Banguecoque
José Martins

Helena Oneto disse...

Haja consenso e coragem!!!

Subscrevo o comentário da Isabel BP. O essencial esta dito. Concordo com ECD no que respeita ao PR.
Bem haja, Senhor Embaixador!

Helena Sacadura Cabral disse...

Se Raul Solnado fosse vivo, a sua irmã Jorgina diria: "pois"!
Aguardemos, pois...

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, "estive a observar as estrelas" e o que encontrei escrito foi um próximo governo PS-CDS/PP a tudo fazer para assegurar que Portugal e os Portugueses conseguem engolir todos os sapos vivos que tem para engolir nos próximos 3 anos, findo o qual se demite e voltamos ao chorrilho de asneiras com que diariamente temos sido brifados.
APETECE-ME VOLTAR A TER SAUDADES DE PORTUGAL!!

Eduardo Antunes