quarta-feira, 27 de abril de 2011

Hortaliças

Ontem, surgiu na televisão o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Roland Dumas, a propósito de um livro de memórias que acaba de lançar. 

Nesse instante, veio-me à ideia um episódio que teve lugar nos nossos primeiros tempos nas instituições europeias, numa reunião que decorria sob a sua responsabilidade, durante uma presidência semestral francesa.

O debate prolongara-se já muito pela noite dentro, nessas horas que a Europa guarda para as grandes decisões. A temática eram concessões em matéria de produtos agrícolas, incluídas num acordo com países terceiros, menos desenvolvidos. Tratava-se de matéria de grande sensibilidade, porque o peso do lóbi agrícola em vários Estados condiciona muito a liberdade dos governos para poderem fazer gestos de sentido político. Ao mesmo tempo, porém, esse era, como sempre é, o setor onde a abertura de facilidades por parte da Europa se revela mais interessante para esses países. O que estava em causa, naquele caso particular, era aquilo que em Portugal se designa por "produtos hortícolas".

A Espanha era, do lado europeu, o país com maiores dificuldades para aceitar o acordo, nos termos em que este era proposto pela Comissão Europeia. Com eleições dois dias imediatamente após essa reunião, o governo de Madrid entendia que permitir aberturas no seu mercado com impacto na economia agrícola do país poderia ser aproveitado pela oposição para acusar de fragilidade a sua nóvel política europeia. O representante espanhol na reunião, o embaixador Carlos Westendorp, estava "de mão atadas". Por um lado, toda a então CEE já tinha dado luz verde ao pacote de concessões, o que se traduzia numa grande pressão sobre a sua delegação. Esta, por seu turno, embora revelasse uma vontade para se juntar ao consenso, sentia que fazê-lo naquele momento poderia configurar um suicídio político.

Roland Dumas utilizou toda a sua habilidade de advogado para colocar os espanhóis face à responsabilidade política de serem eles a boicotar a decisão europeia, tanto mais que esta era aguardada com ansiedade pelos países contrapartes. Destacou que esta singularização negativa ia refletir-se, com toda a evidência, no modo como Madrid passaria a ser visto pelos Estados potenciais beneficiários das concessões.

Lembro-me que Portugal acompanhou a Espanha tão longe quanto foi possível. Mas, a certo ponto, o facto da Comissão Europeia ter acedido a colocar de fora da lista de concessões alguns produtos que, para nós, eram os mais sensíveis, bem como a importância política do acordo para o nosso quadro de relações externas, deixou-nos sem argumentos para continuarmos a nos opor ao entendimento.

A Espanha estava, assim, completamente isolada. Roland Dumas apelou a uma derradeira flexibilidade política dos espanhóis, dando a palavra a Westendorp. Este ensaiou um discurso dramático, perante o silêncio pesado e tenso que envolvia toda a sala. As 12 delegações nacionais (viviam-se então os tempos da Europa "a doze"), a Comissão Europeia e o secretariado-geral do Conselho bebiam as palavras do representante de Madrid, esperando uma cedência no último minuto, o que permitiria a todos regressarem ao descanso nos seus hotéis.

Como mandam as regras dos Conselhos de Ministros europeus, Westendorp falou em espanhol, com a delegação portuguesa a não necessitar, naturalmente, de tradução. Não mostrou qualquer flexibilidade. Pelo contrário, fez uma chamada à compreensão de todos pela difícil posição em que se encontrava.

A certo passo desse discurso, disse: "Ustedes deben entender que en España la cuestión de las hortalizas es una cuestión de Estado". A pausa que Westendorp fez suceder a esta frase, aguardando o impacto da interpretação simultânea que ia chegar aos ouvidos das restantes delegações, foi subitamente interrompida por risos surdos, oriundos da nossa delegação, assim como da meia dúzia de técnicos portugueses que faziam parte das delegações da Comissão e do secretariado.  

Para nós, portugueses, ouvir a expressão "hortalizas" (que é palavra espanhola para designar "produtos hortícolas") ligada ao conceito de "questão de Estado" havia desencadeado uma imparável e embaraçante epidemia de risadas, que se ia agravando à medida que olhávamos uns para os outros. Essa atitude, que soou pela sala como uma nota de desprezo pelo problema espanhol, tornava-se tanto mais grave quanto era muito difícil de explicar - desde logo aos espanhóis, que nos miravam com um fácies furioso, mas igualmente às outras nacionalidades, que tinham recebido com naturalidade a tradução de "produtos hortícolas". Ficámos, assim, sob um perplexo olhar coletivo, tentando, de modo esforçado, atenuar o nosso contágio de risadas. 

Já não me lembro como aquilo tudo acabou, apenas sei que nunca mais esqueci aquela madrugada europeia de risota lusa. Porque há leitores regulares deste blogue que estavam nessa nossa delegação, deixo-lhes a tarefa de confirmarem ou infirmarem os pormenores desta minha recordação. Talvez o (então) jovem chefe da delegação portuguesa, que ora circula pelos mais altos corredores de Bruxelas, tenha entretanto sido confrontado por alguém com as razões por que comandou esse pelotão imparável de riso, já lá vai quase um quarto de século.

15 comentários:

zamot disse...

Hihihihihi!!!
Hehehehehe!!!

Teófilo M. disse...

Lost in translation...

Gil disse...

Lembro-me de ouvir falar nessa história.
Segundo parece,antes de atingir essa fase de clímax,à medida que iam caindo, uma a uma, as reservas que as delegações tinham na manga como último trunfa na negociação, houve outros episódios mais ou menos insólitos.
Uma das "hortalizas" que incomodavam a delegação espanhola eram os tomates-cereja, que apareciam recorrentemente nas suas intervenções designados por "microtomates" e que também provocavam entre os participantes portugueses alguns risos totalmente disparatados.
Seria o cansaço provocado pela longa e cansativa reunião, uma vez que a graça da expressão não é muito evidente.
Se não erro (talvez o Emb. SC se lembre) uma das últimas reservas portuguesas a "caír" foi a que mantinhamos contra a carne de borrego proveniente de África, suspeita de poder ser potencial "ameaça" à comercialização da carne de cabra portuguesa...
E a delegação, chefiada pelo tal (então) jovem que ora circula pelos corredores e salões de Bruxelas e do Mundo, parecia disposta a tratar o caso com a gravidade desesperada de quem tem, nas cabras, cabritos e similares, a última barreira cntra a fome.
Já agora, uma das "carnes de borrego" espanholas eram...as alcachofras que, como lembrou o Comissário (espanhol) que detinha o pelouro, não existem em África.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caramba, Gil! Que detalhe, para quem só ouviu falar...

Anónimo disse...

Em primeiro lugar, lamento contrariar o Gil mas nesta reunião não se tratou de borregos nem de cabras. Quanto à questão dos tomates, que era também objecto de oposição do nosso lado, o assunto foi longamente debatido nos grupos de trabalho que antecediam os Conselhos onde brilhava a delegação vinda de Lisboa. Nas reuniões desses grupos o tema suscitava alguma risadinha não apenas de portugueses presentes mas igualmente de funcionários da Comissão e outros delegados que, ou tinham também eles várias interpretações, ou tiveram conhecimento das traições da língua portuguesa. O fulcro da questão era a autorização de importações com base no tamanho dos ditos. A delegada portuguesa era, pois, instada a deixar passar os micro que relativamente aos grandes só seriam aceites europeus. Ela, porém, não se dava por achada, as instruções eram claras, tomate era tomate e havia muitos em Portugal! Acabamos por aceitar os micro, salvo erro, no dito Conselho.

Finalmente, a posição de Carlos Westendorp era, talvez, ainda mais difícil, à época ele era ainda Representante Permanente de Espanha e recebeu no decorrer deste Conselho ordens expressas de Madrid para não aceitar as “hortalizas”. Isto passou-se já muito tarde, deviam ser uma 10 ou 11h da noite. Ficou-se a saber quantos portugueses havia na sala, tantos quantos riam, desde a cabine de interpretação portuguesa até ao funcionário do conselho que se sentava no lado oposto da sala, passando pelo jovem chefe da delegação portuguesa.

Anónimo disse...

Produtos hortículas é o politica e burocraticamente correcto para aquilo a que no tempo dos trolhas se chamava hortaliça.

Ex-vizinho de horta

Gil disse...

Agradeço ao Anónimo que corrigiu a versão que ouvi há tantos anos.
O rigor acima de tudo.
Talvez a questão das cabras/borregos não tivesse sido levantada nessa sessão; talvez tenha ocorrido noutra reunião mas no quadro da mesma negociação.
E...que memória!

CSC disse...

Bela memória. Prova de que a Europa também pode ter graça.

Luís Bonifácio disse...

Existe um ditado que diz:
Ri melhor quem ri por último.

Os Espanhóis riem-se agora do país que não tinha nem um Westdorp para o defender e trocaram tudo por patacas.

Passados 25 anos, foi-se tudo. Até as Patacas!

Mas os Espanhóis continuam a ganhar muito dinheiro com as suas hortaliças em Jaén, regadas com a água que devia ter ido para o país que não tinha nenhum westdorp a defendê-lo e que neste momento nem sequer pede patacas em troca.

patricio branco disse...

Um bom exemplo de defesa dos interesses nacionais, o combate espanhol a favor das suas hortalizas e sua exportação.
A espanha é hoje a grande horta da europa, hortaliceira e fruteira, se se pode assim dizer. Dos países nordicos a portugal, passando pela alemanha e frança, grande parte dos vegetais (hortaliças e frutas) que se vendem nos supermercados são espanhóis. Uma potência hortaliceira...
Que hortaliças portuguesas se venderão fora de portugal?
Um pouco como a fábula da cigarra e da formiga é o que acaba por ser contado na entrada do blogue, que pode também ter esta leitura.

Julia Macias-Valet disse...

E que tal a expressao alentejana "temos o burro nas couves" !? ; ))

Anónimo disse...

Vendem-se as couves galegas já cortadas para caldo verde...

Oh Júlia bem oportuno e engraçado o Seu comentário...

Isabel Seixas

Anónimo disse...

Creio que falta acrescentar que o representante da Comissaao - Vice Presidente, Manuel Marin - pediu a palavra depois da intervenccao do seu patricio espanhol e disse, a proposito de um dos produtos que mais celeuma levantou - as alcachofras -, "Monsieur Presidente je veux vous confier un secret, il n'a pas d'artichauds en Afrique!"
CP

Anónimo disse...

Creio que falta o y na frase em francees. Se faltar, ponha-o laa por mim, pf.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro CP: Aconselho a leitura do seguinte: http://duas-ou-tres.blogspot.com/2009/02/alcachofras-diplomaticas.html