sexta-feira, 1 de abril de 2011

A cadeira

Os tempos hoje serão outros, mas sou do tempo em que o exercício discricionário da hierarquia permitia a certas chefias assumirem atitudes de forte autoritarismo. A certeza de que a opinião dos dirigentes dos serviços era uma incontornável chave para promoções ou colocações colocava os respetivos subordinados numa dependência quase humilhante. 

A memória da carreira diplomática portuguesa, aliás como de qualquer outra, está cheia de historietas de autoritários chefes. Famoso, entre nós, era um embaixador que sempre obrigava o respetivo secretário, numa capital do Médio Oriente (em que, curiosamente, já não temos embaixada), a ficar de pé, ao lado da sua mesa de trabalho, enquanto despachava a papelada do dia, às vezes por mais de uma hora. Há quem diga que o secretário deverá a essa penitência algum distúrbio psicológico que veio a revelar.

Estas patéticas expressões de autoritarismo não se ficavam pelos postos no estrangeiro, também se praticavam em Lisboa. Num verão do final dos anos 70, durante as férias de um subdiretor-geral (na altura, a designação oficial no MNE era "adjunto do diretor geral") da área económica, o lugar foi interinamente preenchido por um diplomata mais velho que, por uma qualquer razão, transitava pelas Necessidades, desde há alguns meses, sem ocupação fixa.

Aquele nosso chefe interino compensava a sua manifesta irrelevância profissional, que o mantinha oficialmente sem destino, com uma soberba de atitude de onde destilava uma importância que só ele se atribuía. Além do mais, a sua postura contrastava vivamente com o colega que estava a substituir - um homem cordial, muito apreciado pelos colaboradores.

Logo no segundo dia da presença desse episódico chefe, fui ao seu gabinete, para lhe entregar um documento. Mal levantou os olhos à minha chegada, apenas grunhindo um relutante "bom-dia" à saudação que lhe dirigi. Notei, então, que tinha desaparecido a cadeira que sempre estivera em frente à secretária. Decididamente, o homem era dos que queria ter as pessoas de pé, durante o despacho.

Passei a "boa nova" a quem comigo assegurava a permanência na Direção-geral dos Negócios Económicos, nesse verão, que já se anunciava curioso. Ao contá-la a um colega um pouco mais antigo do que eu, figura alta e com voz tonitruante, notei-lhe um brilho irónico no olhar, acompanhado de um "logo veremos!".

Na tarde desse dia, o nosso grupo de jovens diplomatas das "Económicas", que regressava do tradicional almoço nas "Espanholas" (um restaurante vizinho, onde a densidade de pessoal diplomático costuma ser superior aos níveis recomendados pela OMS...), foi surpreendido por um desafio desse nosso colega: "Vocês não querem ver a minha ida a despacho?" Porquê? "Logo verão!", disse, críptico. 

Um tanto artificialmente, colocámo-nos à conversa no "hall", para o qual dava o gabinete da chefia. Um minuto depois, o nosso colega emerge da sua sala de trabalho com uma pasta de papelada na mão, pisca-nos o olho e, decidido, entra no gabinete do nóvel chefe. Nem trinta segundos eram passados e já a porta se abria de novo, com o jovem diplomata a sair, sem papéis na mão, e a dizer alto, lá para o fundo do gabinete: "É um minuto, já volto!". E vimo-lo avançar decidido para a sua sala de trabalho.

Perplexos, interrogámo-nos sobre a cena. Ter-se-ia esquecido de alguma coisa? Algum papel? Mas, afinal, o que é que esta ida a despacho tinha de tão especial?

Tudo ficou mais claro, quando, instantes depois, o vemos regressar, a sorrir, com uma cadeira na mão, que introduziu no gabinete onde iria a despacho.

Não ouvimos, embora possamos presumir, a reação do chefe à entrada da cadeira. Mas ficou-nos para sempre no ouvido a voz muito forte do nosso colega, ainda a porta não estava totalmente fechada, a dizer: "Então não vê? É uma cadeira, para eu me sentar!".

Desde essa tarde, e pelo tempo que durou o interinato da chefia, passámos a poder contar com uma cadeira no gabinete desse esquecido chefe interino, onde sempre nos sentávamos para o despacho. Às vezes, para grandes males...

7 comentários:

ava n'tesma disse...

pensava que era a cadeira do poder

ou a do salazar

ou a de D.João V

decepcionante na realidade

ali triste se assentava

u pobre embaixador

e pobre povo o cercava

pascendo em seu redor

povo meu, ou se m'engano

na cadeira do phoder

senta-se muito magano

que ali fica a crescer

Anónimo disse...

Gosto...

Desses homens que não deixam...

Direitos humanos básicos,seus e dos outros,

(por mãos e ou cabecinhas megalómanas)

Anulando estoica e naturalmente viroses agudas,e mórbidas através do efeito espelho da mostra do poder egocêntrico...

Às vezes penso que resultaria mostrar também o espelho da última morada crú e convincente pelo relativismo.

isabel Seixas

Anónimo disse...

Só para dizer que há de facto cadeiras mais elegantes do meu ponto de vista...

Essa apesar da ilusão de boa parideira com ancas largas é dúbia o estofo parece pouco estofo, corzinha dissimulada de burro a fugir...

Prefiro uma cadeira que cumpra os requisitos de cadeira...Verdadeiramente ergonómica e com respeito pela anatomofisiolofia da mecânica corporal sentada... Tem que abarcar toda a região posterior do corpo e ser similar ao cadeirão executivo, aí é que se vê o respeito pelos trabalhadores e as capacidades/competências de liderança...No criar condições de trabalho que promovam a saúde fisica e consequentemente psiquica de todos todos os trabalhadores.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

A arrogância e prepotência é a arma dos fracos. Que reagem mal quando aqueles que são suas vítimas e têm a razão do seu lado a fazem valer. E então, no silêncio dos seus gabinetes, preparam, meticulosamente, a sua vingança. Que às vezes, todavia, tem efeito “boomerang”.
Z.

Helena Oneto disse...

Adoro estas "estórias" não só pela graça e estilo literário com que são contadas mas sobretudo pela sã e, por vezes, feroz ironia de quem as conta! Afinal, o MNE é um "fac similé" da sociedade portuguesa...

Julia Macias-Valet disse...

Os/estes chefes esquecem-se por vezes que sao os mais jovens que lhes pagarao um dia a reforma...

Helena Sacadura Cabral disse...

É o que se chama "a cadeira diplomática"!