sexta-feira, 8 de abril de 2011

O caso

Um amigo brasileiro contou-me, há dias, uma história conhecida na sua carreira diplomática, envolvendo um embaixador português, ao tempo em que a capital permanecia ainda no Rio de Janeiro. O nosso representante era então o embaixador António de Faria, figura muito conhecida da diplomacia portuguesa, que foi também chefe de missão em Londres e aqui em Paris. 

Num jantar social no Rio, uma noite, veio à baila, numa conversa, que Faria teria uma ligação romântica com uma determinada senhora. Alguém, da Embaixada de Portugal, confirmara a um dos presentes que Faria desaparecia do serviço por longas horas, o que só credibilizava mais o rumor.

O chefe do Protocolo (no Brasil, diz-se Cerimonial) brasileiro afirmou então, para espanto geral:

- Não pode ser verdade, meus amigos. Vou revelar um segredo: Faria tem "um caso" mas comigo.

Os olhares cruzaram-se, de incredulidade, tanto mais que quer Faria quer o diplomata brasileiro tinham um historial de comportamento que tornavam pouco plausível tal cenário, além de que, à época, os "outings" ainda não estavam na moda.

E logo o diplomata explicou:

- É comigo que esse Faria passa a maioria das horas do dia.

E, numa diatribe contra o diplomata português, o brasileiro revelou que António de Faria ia todos os dias vê-lo ao Itamaraty, ficando horas infindas no seu gabinete.

À época, estava em curso de preparação uma importante visita oficial portuguesa ao Brasil. Como sempre acontece nessas ocasiões - e sei bem do que falo -, as Embaixadas são bombardeadas com pedidos crescentemente mais preciosistas da parte de Lisboa, o que, à medida que as datas se aproximam, obriga a contactos cada vez mais intensos com as autoridades locais. Faria, que era conhecido por ter um caráter meticuloso e detalhista para as questões da logística, exasperava assim o seu colega brasileiro, que só ansiava vê-lo porta fora.

O falso "affaire" de Faria passou assim a constar dos anais de memória dos corredores diplomáticos brasileiros. Quanto ao eventual outro, a ser verdadeiro, não sobreviveu na farta tradição oral daquela nossa Embaixada. Posso garantir.

6 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Regalo-me com estas suas short stories. Mas hoje, hoje, soltei uma sonoríssima gargalhada com a sua diplomaciaao referir-se aos "outings".
Simplesmente divina, a expressão!

patricio branco disse...

numa bela obra de andre brink, "the ambassador", o autor sul africano conta no romance a história dum embaixador da ras em paris, no anos pesados do apartheid(anos 60)que tem uma relação extra conjugal com uma bailarina de club nocturno.
Há outras figuras secundárias, a amante, a mulher e a filha do embaixador, o secretário da embaixada que denuncia o affair do embaixador a pretória. Todos contam parte da história. Novela densa, psicológica, pesada, uma das primeiras de brink, hoje um dos grandes escritores da ras. Ao embaixador são-lhe pedidas explicações por pretoria que ele não dá, dizendo apenas que não faz comentários. Finalmente, abandona o lugar.
Como AB viveu em paris nos anos 60 não sei se haverá alguma base histórica para a novela.
História menos profissional que a do embaixador português, mas mais romanesca.

João Antelmo disse...

Já próximo do fim da vida, o Embaixador António de Faria inquiriu, através de amigos brasileiros, se ainda era viva uma determinada Senhora carioca que, segundo esses amigos, com ele tinha mantido , um "affaire" bem conhecido dos círculos sociais brasileiros dessa época.
António de Faria planeava uma viagem ao Brasil, que julgo não ter concretizado, e os seus amigos que me relataram esse interesse não tinham a certeza se ele desejaria encontrar a Senhora ou, antes, evitá-la.

margarida disse...

Os 'rumores' são algo terrível.
Criam vida própria e podem afectar seriamente a vida das pessoas.
Aquilo de 'não haver fumo sem fogo' condiciona o julgamento e a racionalidade, e prefere-se tantas vezes crer sem provas do que o contrário.
É mais apetitoso e divertido, independentemente da verdade e da felicidade dos atingidos.
É pena.

Helena Sacadura Cabral disse...

Tenho muita pena dos Embaixadores porque, saltitando de terra em terra, com pequenos "intermezzos" na pátria, têm que ser fiéis à força.
Com efeito, quando um recatado romance começa a ter pernas para andar, zás catrapaz, o protagonista é colocado noutro posto.
Não há direito. Os diplomatas raramente ultrapassam o charme discreto da fantasia.
E, atenção, tenho um Embaixador na família!
:))

Anónimo disse...

Têm que ser fiéis à força.

Soa bem...No masculino.

ainda soa melhor a credulidade tão rara hoje em dia...

A ditadura da monogamia, é bem cómoda e politicamente correta.
bem feita.
Isabel seixas