domingo, 10 de abril de 2011

La Lys e a Legião Portuguesa

No próximo fim de semana, vamos de Paris a La Lys, perto de Lille, rememorar, como anualmente fazemos, a batalha trágica em que morreram muitos militares portugueses, no termo da primeira Grande Guerra.

A batalha teve lugar em 9 de abril de 1918. Na minha infância, em Vila Real, a data era comemorada com uma romagem ao monumento a Carvalho Araújo, na avenida com o mesmo nome. Nas comemorações, tinha um papel mobilizador a Legião Portuguesa que, nas vésperas, vendia pela cidade miniaturas de capacetes militares, para pôr ao peito, financiando a Liga dos Antigos Combatentes.

As novas gerações desconhecem essa organização, criada num tempo em que o Estado Novo tinha uma vocação protofascista. A Legião era uma espécie de milícia armada, comandada por figuras políticas do regime ou por militares na reserva, que frequentemente era encarregada de levar a cabo algum "dirty work", muitas vezes em íntima ligação com a polícia política.

Nos anos 50, o regime pressionava fortemente os funcionários públicos a fazerem parte da Legião. Muitos aceitavam, as mais das vezes por temor a represálias do que por uma sincera adesão ideológica, outros recusavam, com dignidade e coragem. Após o desencadear da guerra colonial, a Legião desenvolveu, no seu seio, a Defesa Civil do Território, que tentou, sem grande sucesso, mobilizar esses setores oficiais do país para um cenário improvável de guerra no território europeu.

Com o tempo, com a desaparição do entusiasmo dentro do próprio regime pela "Revolução Nacional", a Legião foi-se "apagando" na província, embora subsistindo com algum vigor em Lisboa. A organização destacou-se em ações provocatórias perante a episódica emergência de movimentações democráticas, nos chamados "períodos eleitorais". Foi também responsável por algumas ações de vandalismo, como o ataque à Sociedade Portuguesa de Escritores (em 1965) ou à Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Lisboa (em 1969). A Legião, em especial através da sua FAC (Força Automóvel de Choque), levou ainda a cabo diversos atos de natureza repressiva e persecutória, alguns já no período do marcelismo.

Nessa fase terminal da "situação" (delicioso nome dado popularmente à ditadura, por contraste com a "oposição"), a Legião já se não sentia muito à vontade, tendo ainda como principais dirigentes figuras ligadas a setores de saudosismo salazarista, que contestavam a "primavera marcelista". Recordo, porém, em 1971, já na chamada "abertura" marcelista, o cerco feito por elementos da FAC a uma reunião do associativismo universitário, no Instituto Superior Técnico, que obrigou os integrantes da mesma a terem de saltar muros e a algumas corridas pela madrugada lisboeta.

Nesses últimos anos do regime, a Legião havia sido reforçada por algum "lumpen", por elementos da antiga OPVDCA (uma organização paramilitar criada em Angola, em 1961) e por militares desmobilizados. Ao que julgo saber, a ação da Legião Portuguesa concentrava-se então em ações de segurança de instalações petrolíferas na zona oriental de Lisboa. No 25 de abril, alguns dos revoltosos temiam, por mero desconhecimento, a força da Legião Portuguesa e a sua capacidade de resistência. Afinal, a organização viria a revelar-se um mero "tigre de papel", para usar uma expressão à época muito em voga.

Vale a pena reconhecer, em abono da verdade, que, ao menos no que respeitava às comemorações da batalha de La Lys, a Legião acabou por desempenhar um papel meritório. Era patrioticamente pedagógico, para as crianças das escolas, ver de perto o valoroso soldado Milhões, bem como os seus colegas veteranos da primeira Grande Guerra, orgulhosos com as suas condecorações ao peito, perfilados em frente ao monumento a Carvalho Araújo, ouvindo hinos e honras militares. 

Hoje, já não há velhos militares vivos dessa guerra e nem sei se alguém honra, em Vila Real, os mortos de La Lys. Aqui em França, e desde há muito, os embaixadores de Portugal e as Forças Armadas portuguesas cumprem, com empenhamento, esse ritual de respeito. No meu caso, regresso, com gosto, ao passado. Agora sem a Legião Portuguesa, claro.

9 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Carissimo amigo e Senhor Embaixador,
Sugiro-lhe, se me permite!, a leitura de um texto fabuloso, do ponto de vista histórico, etnográfico e literário, da autoria do Dr. Estanco Louro, filólogo, autor de obras significativas na área da etnografia e da filologia, e militar que esteve na frente de batalha de La Lys. O texto é um relato-memória de uma vivacidade humanista imperdível, cuja versão inicial foi apresentada em conferência pelo autor no Liceu Fialho de Almeida em Beja e depois no Liceu Pedro Nunes em Lisboa à data de 9 de Abril de 1924, ano em que foi publicado pela editora Lusitânia. Da sua vasta obra publicada, destaco, entre outros, "O Livro de Alportel..." (monografia digna de um Leite de Vasconcelos) e "Raízes da Alma Latina..." ambos de 1929. Quanto ao texto de Estanco Louco escrito durante a sua incorporação militar na frente da batalha de La Lys, foi republicado em 2002, no nº 42 da Revista "Ler História", a título de "Documentos me Estudo" com um enquadramento da sua própria filha, Maria Lucília Estanco Louro (licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Letras de Lisboa e docente do Liceu Pedro Nunes até à idade de reforma) que, por razões de saúde, contou com o apoio de Ana Luísa Paz, licenciada em História. O artigo está, como disse!, disponível no nº42 da "Ler História (2002), publicado sob o título: "Uma Memória Esquecida sobre a Guerra de 1914-1918: A Batalha de La Lys".
Grata e com a admiração de sempre, receba o meu abraço fraterno.

José disse...

A Legião era mesmo o grande apoio da polícia política nos anos 60.

É com algum desgosto, que registo um certo branquear de imagem da dita sinistra organização.

Numa célebre manifestação em 68, na Av.Duque de Loulé, contra as guerras do Vietnam e Ultramar, concumitante com outra na Conde de Óbidos, no regresso do marido da D. Gertrudes Tomás, de Angola, foi a organização da "Penha de França" quem fez o trabalho sujo.

Vi alguns amigos serem muito mal tratados, depois de sermos encarcerados nas carrinhas desses rapazes.

"La Lys" é outra questão.

Enfim, memórias...

Anónimo disse...

Meu Deus que aulas autênticas sessões letivas sem a obrigatoriedade de memorizar pro teste...

Gostei tanto do seu post e vou a sério procurar a revista nº 42 da "Ler história"

foi no entanto com alguma apreensão que revi o conceito de protofascismo

"O "proto" refere-se aos sinais de um início ou os sintomas de ressurgimento do fascismo na nossa época."Para além das idéias de Umberto Eco, observamos que o protofascista é movido pelo esquizo-paranoidismo. "

http://br.monografias.com/trabalhos904/tolerancia-zero-protofascismo/tolerancia-zero-protofascismo2.shtml

De qualquer forma estimula-me mais o Sr. a fazer pesquisa ...
Parece o meu saudoso Professor orientador/desorientador o Grande João Barreto.

Mas gostei a sério
Isabel Seixas

Anónimo disse...

« Os nossos soldados tinham-se definitivamente convencido que se de Portugal não vinham reforços era somente porque os responsáveis do poder o não desejavam. E a estes se impôs a responsabilidade no crime [ de abandono ] dos condenados, os exilados da Flandres (...). Por cada canto, em cada abrigo, nas linhas e aldeias do front corriam expressões que eram como pelourinhos inexoráveis: ' Portugal, rapazes, declarou a guerra à Alemanha mais ao C. E.P! ' (...). Não é a guerra, o sofrimento, a ameaça inglória da morte que lhes dói na alma...Sobre as saudades da terra donde são exilados, fere-os o abandono a que os votaram os outros...(...) não enxergam a presença amorável da sua Pátria.
Sobre os plainos da Flandres erguem-se calvários. Crucificadas, exangues, agonizam almas luzíadas.
-Pátria, Pátria, porque nos abandonaste?... »


Era a República que não olhava a meios para se afirmar aos olhos do mundo.

in Estado Sentido

Anónimo disse...

Vale talvez a pena notar que o Dia do Regimento de Infantaria 13, de Vila Real, continua a ser o 9 de Abril.

Anónimo disse...

A reflexão proposta pelo anónimo das
23:13,11 de abril de 2011
in Estado Sentido

É bem pertinente...

Não tenho conhecimentos sustentados para poder ajuizar, embora gostasse, mas à parte a minha relutância com quem assume identidades anónimas, acho-os Medricas, gostei abriu-me uma nova perspetiva...

Quase lhe agradeço(O quase é porque o anonimato preocupa-me como profissional!...)

Sr. Embaixador , no melhor do seu respeito pela liberdade aqui a dimensão expressão(Seja ela qual for...)
Obrigada
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Hum...Bem me parecia que conhecia a imagem...

Reconheço que é linda...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Quem vendia os capacetes não era a Legião Portuguesa, mas sim a Liga dos Antigos Antigos Combatentes... Nada a ver com a Legião, prestimosa ajudante da PIDE-
Zé Barreto

Anónimo disse...

Exmo. Senhor,
Através do Jornal O Sol de 15 de Abril tomei conhecimento que vai publicar um livro sobre Os Portugueses na Flandres, 1914-1918.
Sou sobrinha de um antigo combatente em La Lys e, que por acaso tenho em meu poder algumas notas, fotografias e escritos sobre a sua estadia em Franca e na Bélgica. Ele foi um homem com uma vida cheia, tendo sido Presidente da Camara de Oenela, Governador (?) na Ilha do Principe, e companheiro de luta de Paiva Couceiro participando nas Incursões Monárquicas. Publicou vários livros, mas infelizmente foi esquecido. Tomo a liberdade de lhe escrever e perguntar se alguns dos seus escritos o "ajudarão" a completar o seu livro?
Escrevo-lhe através do seu blog porque não sei como o contactar.
Meu endereco de mail: elopez@iol.pt
Com os meus cumprimentos
Elisa Rubio Lopez