terça-feira, 12 de abril de 2011

Abrilada

Há um segredo bem guardado nos governos portugueses: o mais bonito gabinete (aceito apostas!) de todos os membros do governo, de ministros a secretários de Estado, é aquele que o secretário de Estado dos Assuntos Europeus ocupa no palácio da Cova da Moura. Sei do que falo, porque trabalhei nele por mais de cinco anos!

No 25 de abril, quando por lá andei como adjunto da Junta de Salvação Nacional, era o gabinete do general Spínola e, depois, do general Costa Gomes. Antes disso, era aí que se situava o Secretariado-Geral da Defesa Nacional e foi nesse gabinete que teve lugar uma cena importante da história portuguesa, faz hoje, precisamente, 50 anos.

Não vou fazer aqui a história da chamada "abrilada" de 1961, uma tentativa de pronunciamento militar comandada pelo ministro da Defesa Nacional, general Botelho Moniz. A guerra em Angola havia começado semanas antes, a condução da política colonial era contestada em certos setores do regime, a preservação de Salazar à frente do governo era vista por alguns como um fator paralisante de uma evolução desejável do país, que caminhava para um impasse histórico. 

Provavelmente sob algum impulso americano, um grupo de oficiais generais decidiu colocar ao presidente da República, o contra-almirante Américo Tomás, a reivindicação "das Forças Armadas" de que deveria demitir Salazar. O chefe do Estado ouviu os conspiradores, não lhes deu qualquer resposta nem o sentido do que pensava e terá informado Oliveira Salazar. 

Na tarde do dia 13 de abril de 1961, nesse belo gabinete do palácio da Cova da Moura, os militares sediciosos, a que se juntou o marechal Craveiro Lopes (que, diz-se transportava a sua farda numa mala, para assumir a chefia do Estado), que se preparavam para concretizar o seu projeto, são surpreendidos pelo anúncio, feito pela comunicação social, de que Salazar... os havia demitido dos cargos que ocupavam. Numa imperdoável "naïveté", essas figuras cimeiras da estrutura militar, em lugar de terem previamente assegurado o controlo das unidades operacionais, partiram do princípio de que lhes bastava anunciar a sua determinação para fazerem cair o poder vigente. Enganaram-se redondamente: Salazar ficaria por mais sete anos no poder e o regime duraria ainda mais seis anos, depois dele. 

Sobre este interessante acontecimento histórico, leia-se aqui e consulte-se o livro com que abre este post, a "A Abrilada de 1961", Lisboa, 1978, do coronel Fernando Ferreira Valença, e "Duas Crises: 1961 e 1974", Lisboa, 1977, do coronel Viana de Lemos, figura que faleceu no passado dia 11 de Fevereiro.

3 comentários:

Anónimo disse...

Nessa altura vivia in útero, feliz decerto, por vir a encontrar um mundo tão dinâmico, em que uns os Senhores jogavam a playstation eventualmente A.P.S.O(Antes da play station zero)e outros a versão escrava sachavam a solidão da côdea...

Tão diferente e igualzinho ao período antes durante e após Cristo

Maria Ruivo Martins

Alturense disse...

Nessa altura andava eu a matutar que, provavelmente, ia malhar com os ossos em Angola (e fui, quatro anos mais tarde), enquanto um dos meus professores me dizia: " Fique descansado! Mais seis meses e o problema angolano está resolvido!"

Viu-se...

Carlos Fonseca

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Embaixador Francisco Seixas da Costa,

Reitero aquilo que venho dizendo: pela qualidade dos seus textos e os múltiplos testemunhos históricos, de grande interesse para leigos e estudiosos, que nos vem dando neste blogue merecia serem compilados num volume de Memórias que tanta falta fazem à Historiografia Nacional.

É realmente incrível que esse possa ser o gabinete mais elegante do Governo Português!

Nesse acontecimento interessante da História Portuguesa a ingenuidade do general Botelho Moniz talvez tenha decorrido da imagem titubeante que o contra-almirante Américo Tomás tinha nos meios militares e da imagética mítica da frase do General Humberto Delgado proferida no Café Chave d' Ouro, em 1958: "Obviamente demito-o". Só que a fraqueza do Presidente da República funcionou de forma contrária ao que os conspiradores tinham previsto e foram apanhados na cilada da "raposa velha"...

Saudações, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt