terça-feira, 19 de abril de 2011

Paixão castrense

(Este post é dedicado a dois queridos amigos que, há dias, testemunharam o relato ao vivo desta história e que, a partir de hoje, infelizmente, vão deixar Paris)

Era nos tempos, não muito longínquos, em que as grandes embaixadas tinham três adidos militares - do Exército, Marinha e Força Aérea.

Um dia, numa dessas missões, algures no mundo, o adido da Marinha pediu para ser recebido pelo embaixador. Apresentou-se fardado, formalizado, o que prenunciava coisa séria. E era. O militar informou o chefe da missão que "estava apaixonado". Embora perplexo pela razão da partilha da intimidade, o embaixador teve uma reação do género: "pois seja muito feliz!".

A questão, porém, tinha outros contornos. É que a eleita do coração castrense, segundo o próprio logo esclareceu, era, nem mais nem menos, do que a secretária do conjunto dos adidos militares, a portuguesa Belinha, o que, de certa forma, tornava o cenário um tanto confuso. Confusão essa que também se acentuava pelo facto do militar ser casado e da sua legítima esposa permanecer na cidade e figurar na lista diplomática, como lhe competia.

A Belinha era uma morena, já passada dos quarenta anos, generosa nas formas e livre de compromissos. Entre a dactilografia de dois relatórios, o nosso militar terá baixado as suas defesas, sendo assim mobilizado a pôr o casamento em causa.   

Mas a razão principal da audiência chegou depois. O militar pretendia solicitar ao embaixador que a Belinha o pudesse acompanhar na receção do Dia Nacional do país em causa, que, a breve prazo, teria lugar na residência da embaixada. Apanhado de surpresa, o embaixador, homem liberal por natureza, logo retorquiu: "O convite é para si e para quem o meu amigo quiser trazer. Nada tenho a ver com a sua vida privada". Foi o que o homem quis ouvir. Adquirida que estava a ida da Belinha ao cocktail, o militar descansou, agradeceu e saiu, encantado.

Os problemas maiores estavam, contudo, para vir. Logo no dia seguinte, os adidos do Exército e da Força Aérea pediram uma audiência ao embaixador. Entraram graves e comunicaram-lhe que a situação era "escandalosa", que o ambiente no respetivo serviço se tornara impossível e que, se acaso o seu colega da Marinha teimasse em levar a Belinha ao Dia Nacional, eles e as suas mulheres não estariam presentes. E informaram que iriam dar conhecimento do insólito estado de coisas às respetivas hierarquias.

E assim aconteceu, tendo como consequência, a curto prazo, que o adido da Marinha embarcou de volta para o país de origem. Levou consigo a Belinha, pois claro. Rezam as crónicas que a sua carreira terá ficado prejudicada, mas o amor vale bem uma promoção. E, também ao que consta, viveram felizes, desde então. 

12 comentários:

Anónimo disse...

Ah! A Bèlinha...

Ela tinha acento, bem grave, Senhor Embaixador.

Anónimo disse...

Bonito...

Agora fico sempre com alguma curiosidade, sobre o desfecho da resposta humana da Esposa do ponto de vista emocional claro, porque do ponto de vista formal o valor/dever utilitário do amor contratualizado vigora e a "suposta" vitima sai a ganhar em poder económico e em apoio/solidariedade social...

Já os "devaneios"/sinceridades de um amor mesmo amor só de interesses e entusiasmos de seres humanos confrontados inevitavel e impiedosamente entre desejos intensos de estar juntos...Assim... Missionário de ternuras espontâneo entre seres que contra preconceitos erigem relações ... Convenhamos...

Pensando bem... Acho que até a esposa se rendeu... e fez/aderiu a uma distribuição equitativa dos bens adquiridos...

mas também quem é bafejado por algo vital como uma paixão está-se marimbando para valores exiguos de espiritualidade como casa carros iates, viagens...Irrelevante

Isabel Seixas

Inspiradores os sapatinhos Há-os nos chineses...Dez €uros

Helena Oneto disse...

O amor vale muito mais que uma promoção!

Anónimo disse...

Sem dúvida que a parte mais cómica é esta: "Era nos tempos, não muito longínquos, em que as grandes embaixadas tinham três adidos militares - do Exército, Marinha e Força Aérea" . Tristemente cómica, diria. Tempos passados, felizmente, mas dos quais hoje sentimos bem as consequências....

Anónimo disse...

"já passada dos quarenta anos,"in FSC

Bem a prova provada que sabia o que queria...

Mais do que estar passada dos/com os quarenta/enta... Aliás as idades do ouro...Maioritárias no espaço tempo,na dissociação dos essencial..." Do...Invisivel aos olhos do Exupéry"


Isabel Seixas

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo: nada na história indicia que ela se tenha passado numa embaixada portuguesa. Só garanto a nacionalidade da Belinha.

patricio branco disse...

as boas historias valem por si. Quem foi, quando e onde foi é irrelevante e entra já no dominio da curiosidade ou bisbilhotice.

Anónimo disse...

Evidentemente que isto não se passou numa Embaixada portuguesa, claro que não. Claro que Portugal não está em recessão, claro que não precisávamos do FMI, (...), claro que não vivemos acima das possibilidades, claro..porreiro pá.

Renato Prado Guimarães disse...

Renato Prado Guimarães

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Senhor Embaixador o que ri com a "estória" da Bélinha.
Mais complicado seria hoje, numa "embaixada portuguesa", se o ainda casado quisesse levar o futuro marido...
Um dia, neste país, isso vai acontecer. Numa instituição em que trabalhei e onde os temas fracturantes eram mesmo fracturantes, um subordinado meu recusava-se a trabalhar com um colega cujas opções não eram as suas. E eu passei as "estopinhas" para resolver o dito problema.
Ai que duros tempos esses, em que apesar de tudo, sempre foram mais tolerantes para os amores dos homens do que para os das mulheres!

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador, esqueci-me de lhe dizer que a sua expressão "uma morena já passada dos quarenta, generosa nas formas e livre de compromissos" me fez chorar a rir.
Nem o Eça descreveria melhor essa Bélinha, arrazadora de matrimónios esfriados, mas mantidos pela dureza da carreira!
Venceu a Bélinha, foi-se a promoção, mas como diz a Helena O. tudo isso vale bem um amor.

Margarida disse...

"uma morena já passada dos quarenta, generosa nas formas e livre de compromissos"
Oops...