terça-feira, 26 de abril de 2011

Politicamente correto

Ao rever o Tim Tim no Tibete (onde está um texto muito interessante sobre o 26 de abril), descobri esta imagem do "Almoço do trolha", um quadro que Júlio Pomar pintou, um ano antes de eu nascer, e onde está quase tudo o que o neo-realismo (eufemismo luso para realismo socialista) quereria significar. Recordo ter visto o quadro na exposição retrospetiva de Pomar, na presença do autor, na Pinacoteca de S. Paulo, em 2008.

A pintura de Júlio Pomar - ele que é, a meu ver, o maior pintor português vivo, e que agora "transita" entre Portugal e a França - segue hoje por outras vias. Imagino, porém, o que seria se ele decidisse dar, nos dias que correm, esse nome a um quadro. Com toda a certeza, logo surgiria um comunicado dizendo que chamar "trolha" a alguém representava uma inaceitável desqualificação profissional. Quando, na realidade, esse é talvez o maior elogio que a arte portuguesa fez àquela profissão.

Enfim, histórias do politicamente correto.

12 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Senhor Embaixador como seria possível isso acontecer, se Portugal, no momento, é um país de gente que só anda à trolha?!


PS Maior pintor português vivo, deixa de fora dois igualmente bons, como Skapinakis e Resende (julgo que continua vivo) ou Ilda David nos jovens. Mas gostos não se discutem e eu também gosto muito do Pomar!

patricio branco disse...

creio que embora significando praticamente o mesmo, mostrar através da arte (cinema, literatura, pintura, fotografia)a pobreza social, as expressões neorealismo e realismo socialista têm no entanto conotações e origens um pouco diferentes.
Neorealismo é o nome italiano para a corrente artistica lá nascida que mostrava uma realidade socio-politica e foi adoptado em portugal, tal como foi surrealismo. Realismo socialista é mais um sinónimo de arte comunista e provem da união sovietica e países de leste.
Vários bons pintores portugueses tiveram uma fase inicial neorealista, como o julio pomar mostrado, mas tambem lima de freitas, vespeira (breve, pintura, cartazes e capas de livros), dorindo de carvalho (que transportou a pintura de cenas norealista para angola, mostrando cenas dos trabalhos agrícolas do café, tem quadros seus na sede da organização internacional do café, em londres, grande desenhador tb de capas de livros), joão hogan (um dos grandes pintores, talvez um pouco esquecido), álvaro cunhal (socialrealista), ribeiro de pavia (pintura mas tambem fabulosas capas de livros de escritores neorealistas).
Quanto às palavras politicamente incorrectas, não são só os albuns de tintim aqui já falados (tt em africa), hoje há uma tentativa de corrigir (censurar) grandes obras literárias do passado, incluindo de dickens (um neorealista inglês avant la lettre)

Anónimo disse...

É pena que o Embaixador não lembre a obra notável de Ronaldo Azenha na área da pintura. O facto de Ronaldo Azenha apenas ter usado lápis de cores nas suas criações coloca-o do lado da "Arte Povera", tendência artística a que deveríamos dar cada vez mais atenção, et pour cause...

Pomar? Resende? Por amor de Deus... Vejam os desenhos de Ronaldo Azenha!

ARD disse...

Estou de acordo com o Anónimo que refere Azenha. Para que conste.

Francisco Seixas da Costa disse...

Tenho alguma suspeita sobre o nome do Anónimo das 20:07. Mas concordo com ele. Não será por acaso (e isto da internet tem muito que se lhe diga em matéria de censura) que desapareceram do Google images todas as pinturas de Ronaldo Azenha. Para utilizar as duas famosos obras da literatura lusitana: "Não há coincidências" mas "Sei lá!".

patricio branco disse...

Parece-me mesmo que enquanto o neorealismo mostra a pobreza social, a miséria, rural ou urbana,o realismo socialista mostra as conquistas do socialismo/comunismo sovietico, chinês,etc, na industria, agricultura,forças armadas, ciencia, e retratava os dirigentes que mandavam e desenvolveram o país.

patricio branco disse...

Continuando estas reflexões,o realismo socialista tem algo parecido em portugal na arte propagandística do estado novo, dos anos 30, 40 e 50, na pintura,escultura,arquitectura, cartazes, exposições do mundo português.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Patrício Branco
Gosto muito do Hogan. Muitíssimo mesmo. Como gravador então era surpreendente. Mas creio que já morreu e falávamos dos vivos.

Caro Anónimo não gosta de Pomar nem de Resende. Está no seu direito!

FernandoB disse...

Resende Francisco,Resende !

FernandoB disse...

E o Pomar, claro, e a Paula Rego e a Graça Morais !

Francisco Seixas da Costa disse...

Vamos a ver se nos entendemos: eu falei do "maior pintor português vivo", isto é, de homens, não de mulheres. Dei a minha opinião pessoal, sem qualquer qualificação especial. Reconheço que, dentre os vivos, Resende e Nikias são magníficos. Mas também Jorge Martins e outros mais.

Anónimo disse...

Olá Pai

Escutei o teu pssst
lá,
do nascer do sol,
o amieiro
agora vestido de verde
Homenagem a Ti
consegue abarcar o teu espírito
em qualquer das suas células
e
o meu olhar ávido de ti
capturou o teu sorriso em todas as versões...
Vejo-Te perfeitamente no oscilar
Daquela folhinha
E voltamos ao momento do renascer
Aquele
do recomeçar do nada
em tudo que somos tu e ou eu
já não vejo a diferença
era isso...
a comunhão, o futuro no passado
o presente Neles emaranhado...

sorriso
Isabel

Isabel Seixas