sábado, maio 22, 2021

E voam?


Com total sinceridade, tenho em alta consideração as capacidades intelectuais de Mariana Mortágua.

Mas o cenário, há pouco avançado pelo meu amigo Francisco Louçã, em como a veria futura ministra das Finanças, iria implicar ter Jeremy Corbin a liderar a Comissão Europeia, Jean-Luc Mélenchon como presidente francês e Pablo Iglesias no topo da República de Espanha. E, claro, Varoufakis a dirigir o Eurogrupo.

Não sei se gostaria.

Mediterrâneo

Na nossa periferia estratégica não há relação bilateral mais complexa do que a que existe entre a Espanha e Marrocos. Rabat tem uma obsessão com o Saara Ocidental, “sofre” Ceuta e Melilla e gere erraticamente a sua relação com Madrid, que hesita sempre no tom da sua resposta política, sem poder já usar o rei Juan Carlos como almofada intercortes.

Para a semana, falaremos disto em “A Arte da Guerra”, no Jornal Económico.

Presciência


Um dia, ao tempo em que exercia funções no governo, recebi no meu gabinete o embaixador de Israel em Portugal. Vinha despedir-se, no termo do seu mandato.

Poucos meses antes, em Jerusalém, ambos havíamos estado num almoço que o então primeiro-ministro israelita, Itzahk Rabin, ofereceu, em sua casa, ao presidente português, Mário Soares.

O primeiro-ministro israelita seria assassinado no dia seguinte àquele almoço. A partilha desse momento, que evocávamos com alguma emoção, criara entre nós uma relação especial.

Rabin e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Shimon Peres, eram a face de um projeto de paz que os americanos, ao tempo de Bill Clinton, se tinham esforçado por pô-los a negociar com a Autoridade Palestina, representada por Yasser Arafat. Porém, num daqueles terramotos políticos em que a vida israelita é pródiga, semanas antes, tinha havido eleições legislativas e os social-democratas, “orfãos” de Rabin, haviam sido derrotados pela direita.

Benjamim Netanyahu acabava de ser nomeado primeiro-ministro. O embaixador cessava as suas funções, creio que por ter atingido a idade da reforma.

Ser embaixador de Israel pelo mundo nunca é uma tarefa fácil. Ele fora-o, com brilho, em Lisboa, num tempo de forte esperança de que uma paz entre Israel e a Palestina estivesse ao alcance da boa vontade.

Contudo, com o desaparecimento de Rabin, os sinais que nos chegavam não eram muito animadores. Netanyahu tinha sido eleito com uma agenda política que confrontava alguns dos caminhos laboriosamente abertos pela coragem de Rabin.

O embaixador ofereceu-me um livro de Amos Oz, que tinha acabado de ser publicado em português. Trocámos algumas palavras, que iam para além da amabilidade protocolar, desejando-lhe todas as felicidades pessoais. Fui levá-lo até ao carro, no pátio do Palácio da Cova da Moura, onde se situava o meu gabinete.

Lá chegados, perguntei-lhe que mudanças a vitória do Likud podia vir a induzir no processo de paz que, pelo menos no papel, parecia ainda poder subsistir.

Otimista por dever de ofício, disse-lhe que não nos podíamos esquecer que o mais corajoso passo político que o mundo testemunhara, por parte de um governo israelita - o tratado de paz com o Egito - fora dado precisamente num governo Likud. Seria Netanyahu capaz de titular uma "paz dos bravos"?

Notei que embaixador me olhou de um modo estranho. Fez um ricto facial que não me pareceu dever-se ao sol que lhe banhava a cara. Foi então que notei algumas lágrimas a surgirem-lhe nos olhos.

Agarrou-me o braço com força e, com visível dificuldade, contendo uma emoção que se lhe sentia muito profunda, disse: "Meu querido amigo. Provavelmente, não deveria estar a dizer isto, mas vou dizer-lhe: com a eleição de Netanyahu, o meu país entrou no caminho da tragédia. Qualquer paz é impossível com ele. Ouça o que eu lhe digo! Não o conhecem!".

E, depois de me dar um abraço forte, entrou, já em silêncio, no carro. Nunca mais o voltei a ver. Nos últimos anos, tenho-me lembrado da sua presciência.

sexta-feira, maio 21, 2021

O Bloco e a esquerda

O Bloco de Esquerda parece não entender que, sem sentido de compromisso, pode vir a tornar-se irrelevante, até ao fim da legislatura. O PS tudo fará para dar relevo à “influência” do PCP nas medidas “de esquerda” que o governo vier apresentar para aprovar orçamentos, pescando ainda para isso, se necessário, alguns votos desgarrados, do PAN e outros. Ao Bloco resta tentar uma “cunha” dos seus “aliados” dentro do PS, mas isso pode acabar por se revelar “sapatos de defunto”.

Brasil

Lula solidifica-se cada vez mais como o principal opositor a Bolsonaro, em 2022. Alguns setores do MDB dão já sinais de aproximação, o PSDB surge com sinais contraditórios e Ciro Gomes revela o evidente desespero de quem tem um futuro apenas cheio de passado. Contudo, o “centrão” pode vir ainda a ajudar Bolsonaro, que, até ao fim, permanecerá sempre como o principal “inimigo” de si próprio. Vai ter graça seguir o Brasil

Nem sempre o que parece é


O equilíbrio político no Médio Oriente parece estar a mudar.

Não me refiro à recente eclosão de mais um tempo de incidentes de guerra entre Israel e a liderança militar que o Hamas tem na Faixa de Gaza - o que só uma visão ideologicamente distorcida ou ignorante pode confundir com a questão israelo-palestina em geral. Esse é um tema diferente daquilo que hoje aqui trago.

Foi a Guerra Fria que levou os Estados Unidos para o Médio Oriente, como forma de tentar evitar a influência da União Soviética, atento o crescente declínio regional dos dois aliados europeus - o Reino Unido e a França - naquele cenário estratégico, que teria a sua expressão evidente na humilhação de ambos no Suez.

Ao contrário do que décadas mais recentes podem fazer crer, na proteção internacional do Estado de Israel, a França começou por ser muito mais relevante do que os Estados Unidos. Não ouso datar o início do envolvimento mais intenso dos EUA na proteção de Israel, mas a “guerra dos seis dias” e, em especial, a “guerra do Yon Kippur” marcaram um tempo decisivo na fixação da influência do lóbi judaico junto das administrações em Washington, inicialmente mais no lado democrático, posteriormente abrangendo também as alas republicanas.

Há que notar que, por muito tempo, os americanos viveram, no Médio Oriente, uma evidente contradição. Por um lado, protegiam Israel, mas, por outro, davam cobertura às monarquias medievais do Golfo e a outros poderes autocráticos muçulmanos que, pelo politicamente correto da época, estavam juntos na defesa da causa palestina.

A Washington não convinha deixar cair poderes que, a desaparecerem, poderiam abrir caminho a regimes políticos que a União Soviética não deixaria de aproveitar. Com um delicado equilíbrio entre o fornecimento de armamento aos regimes árabes, que não fosse detrimental para a segurança de Israel, e o cultivo ativo das classes políticas dominantes em muitos desses Estados, os EUA foram conseguindo gerir, numa lógica de “realpolitik”, por bastantes anos, essa contradição. Países como a Síria ou a Líbia não entraram nesse jogo, mas o Egito revelou-se, por exemplo, uma aposta tática de sucesso.

A verdadeira peça estratégica dos americanos na região seria, porém, por muito tempo, o Irão. Os EUA não souberam entender que o nacionalismo de Mossadegh, que sairia derrotado, iria acabar por transmutar-se num poder teocrático com um ainda mais forte sinal anti-ocidental. Ao terem prolongado, insensatamente, o apoio ao regime imutável do Xá, sem terem percebido a tensão que ali estava a criar-se, os Estados Unidos acabaram por perder uma carta decisiva. Tiveram a sorte, contudo, de isso ter acontecido num tempo em que a URSS estava prestes a implodir, sem uma automática capacidade do regime que, parcialmente, seria o seu sucessor - a Rússia - surgir como direto beneficiário estratégico dessa crise.

A partir do momento em que a lógica da dependência do petróleo deixou de determinar, em termos definitivos, a sua política para a região, por surgimento de alternativas de combustíveis fósseis mais facilmente exploráveis em casa, os Estados Unidos começaram a poder gerir melhor o seu investimento militar na área. A aventura do Iraque, com as sequelas no combate subsequente ao Estado Islâmico, acabou por funcionar a contraciclo de um desinvestimento estratégico que o cansaço da opinião pública americana com o envio de tropas para a região iria obrigar, com o Afeganistão a entrar também nesta equação.

Aqui chegados, o tempo passou a uma tensão regional que tem por polos a Arábia Saudita e o Irão, já com uma guerra “por procuração” no Iemen. A administração Trump tinha alimentado esta confrontação e, procurando atenuar os dissídios históricos entre Israel e o mundo sunita, através da reconciliação pelos “acordos de Abraão”, como que estimulou uma frente comum contra o Irão.

Mas Biden parece agora ter outras ideias. E a Arábia Saudita, sentindo-se “orfã”, ensaia um diálogo com Teerão e até com o seu inimigo sunita tradicional, a Turquia. Será assim? Parece. No Médio Oriente nem sempre o que parece é.

A Finlândia do meu descontentamento


Há pouco, nos escassos minutos em que, nos dias de hoje, passo por uma emissão de televisão (é verdade!), dei de caras com a canção que representa a Finlândia, este ano, no festival da Eurovisão. 

E surgiu-me, logo ali, um exercício de rock quase selvagem, uma berraria insana, num vermelho (não, não era encarnado!) que, na minha inocência de observador à distância, dificilmente rima com a proverbial serenidade daquela terra. Saí confuso dessa curta experiência, devo confessar.

Na minha juventude jovem (não, não é engano) em Vila Real, através de uma secção a isso dedicada na revista de música francesa “Salut les Copains!”, estabeleci contacto com uma “pen pal” finlandesa.
  
Era um tipo de inocente correspondente que, ao que guardei na memória, comigo trocou umas enfadonhas cartas, com uma letra muito certinha (a dela, porque a minha era “impossível”), sem o menor romantismo, em que intercambiávamos notas sobre os nossos gostos e a nossa vida, imagino que da música às paisagens do ambiente diário de cada um, porque leituras ou filmes em comum eram então inimagináveis.

Embora o nosso primeiro contacto tivesse sido feito em francês, tenho a certeza de que o “follow-up” foi em inglês, o que logo me deixou pouco à vontade, porque a minha praia linguística não era então aquela.

Fiquei para sempre com a consciência pesada, como só hoje revelo ao mundo: fui eu quem lhe não respondeu a uma última carta! Não me lembro do nome dessa nórdica correspondente (e logo eu, que me lembro de tudo!), que imagino tenha hoje a minha idade. E que deve ser viva, porque, como é sabido, entre o ski, a sauna e a vodka, na Finlândia só se deve morrer de tédio!

Apenas recordo vagamente a sua imagem, numa fotografia que me mandou, que (e isso lembro, com vergonha retroativa) me levou a dizer aos meus amigos vilarreealenses, na esquina da Gomes, que ela era uma “loira gordaça” (eu sei que esta estigmatização do seu perfil calórico é hoje punida pelas regras sensatas do politicamente correto, mas o abusador verbal que eu era já se foi há muito e não deixou sucessores imputáveis). 

Palavra de honra que, há décadas, não me lembrava deste episódio. Mas ao ver aquele grupo desgrenhado, aos berros, com coreografia de fogo e raios, saltou-me à memória essa minha “pen pal” - o que, curiosamente, nunca me aconteceu nas (não tão poucas como isso) vezes que andei pela terra dela, pela Finlândia. 

E concluí, embora sem nostalgia, que a Finlândia que eu conheci estava muito distante de tudo aquilo. Mas logo, no momento seguinte, perguntei a mim mesmo: à minha “pen pal”, se acaso ainda sobreviver pelas planuras do Steinbroken (o diplomata finlandês de “Os Maias”), ao ouvir a nossa canção, com a lírica bem camoniana de “Love is on my side”, sob o cristalino nome português do grupo “The Black Mamba”, inspirado na cidade tão portuguesa que é Amesterdão, acaso terá ocorrido que, nos idos de 60, tinha tido um correspondente em Vila Real (“Royal City”, ter-lhe-ei explicado eu)? Espero bem que não, “for the sake of old times!”

Só posso concluir que isto já não é o que era, como o meu amigo Manuel Amorim de Carvalho não se cansa de dizer de restaurantes a que regressamos e que nos amargam a memória gustativa.

quinta-feira, maio 20, 2021

“A Arte da Guerra”


O reacender do conflito israelo-palestino, um olhar sobre as eleições no Chile e sobre o futuro político do Afeganistão, depois da saída das tropas ocidentais. 

Pode ver aqui.

quarta-feira, maio 19, 2021

Coimbra Martins


Nunca esquecerei as palavras que António Coimbra Martins me disse quando, semanas depois de eu ter chegado a Paris, em início de 2009, para ocupar o cargo de embaixador, o recebi à porta da nossa residência, num dia em que o convidei para almoçar, a dois: “Nunca tinha sido apresentado ao senhor embaixador mas, pelos muitos amigos comuns que temos e que me falam de si, é como se o conhecesse há muito”. 

Eu também conhecia o seu nome, e bem. António Coimbra Martins fora a personalidade escolhida pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, para ser o primeiro embaixador em França, após o 25 de Abril, do novo Portugal democrático, cargo que desempenhou por quase cinco anos. 

Com uma longa e prestigiosa carreira académica, tinha exercido a chefia da delegação da Fundação Calouste Gulbenkian na capital francesa, nos anos 60. Na política democrática, tendo feito parte da ASP (Ação Socialista Portuguesa), movimento que antecedeu a criação do PS, viria a ser ministro da Cultura, deputado à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu.

Durante o tempo em que ocupei a casa que já havia sido sua, foi sempre de uma extrema atenção para comigo. Eu brincava com o facto de ele ter sido, em tempos, deputado por Vila Real, pelo PS, num daqueles arranjos políticos em que os partidos são mestres, dizendo que isso lhe dava mais “direitos” do que o ter-me antecedido no cargo, porque essa função o tinha convertido em “transmontano honorário”. Ele gracejava, dizendo que, um dia, eu tinha de mostrar-lhe bem a minha terra, que ele representara politicamente.

Devo-lhe conselhos utilíssimos, para o cargo que exerci. Era um homem com uma expressão que, à partida, podia parecer algo grave e pomposa, o que era acentuado pelo seu tom de voz, mas que logo se desfazia num desconcertante humor, quando comentava as coisas da vida e da política. Vale a pena ler as suas memórias, “Esperanças de Abril”.

Soube, há minutos, que Coimbra Martins morreu hoje, em Paris, aos 94 anos. Foi no quadro de uma atividade da Fundação Calouste Gulbenkian que, há poucos anos, me levou a Paris, que tive o ensejo de estar com ele, pela última vez. Sinto muito a sua morte, digo com a maior sinceridade, porque era uma pessoa por quem tinha grande consideração e forte estima, que sabia retribuída. Envio os meus sentimentos à sua família.

terça-feira, maio 18, 2021

Israel e Portugal (1)

Israel nasce, como país, em 1948 e, no ano seguinte, ingressa nas Nações Unidas (contrariamente a Portugal que, por veto da URSS, apenas seria admitido na ONU em 1955). Ainda nesse ano, o governo israelita anuncia a Portugal, numa carta do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, o seu ingresso na comunidade internacional, com vista a promover o respetivo reconhecimento por Lisboa. O silêncio português foi a resposta.

Não resulta muito clara a razão deste posicionamento português, não parecendo decorrer, como alguns aventam, de uma atitude anti-semita do regime salarazista. Muito menos de um seguidismo com a atitude de Madrid. Tudo parece indicar que Portugal temia provocar uma reação de hostilidade por parte dos países árabes, num momento em que a Índia se tornava independente e começavam a aparecer nuvens de preocupação em torno do futuro das possessões portuguesas naquele espaço. Colocar todo o mundo árabe contra si, agravando o isolamento internacional do país, parecia, assim, estar na base da atitude reticente de Lisboa face a Tel-Aviv. O facto de Portugal ter então reforçado a sua presença diplomática em várias capitais árabes parece, em pleno, confirmar esta teoria.

Em 1953, perante uma insistência israelita, o MNE português opta, de novo, por não reconhecer Israel, argumentando que, se o fizesse, estaria a tomar posição num momento de forte tensão israelo-árabe. Num gesto timorato de dimensão limitada, Portugal faz entretanto chegar a Israel, em 1954, a indicação de que veria com bons olhos a abertura de uma representação consular em Lisboa e, embora não encarasse, por ora, o estabelecimento de uma sua representação similiar em Israel, pedia autorização para tal, no futuro. Com esta atitude, Portugal assumia que isso funcionaria como um reconhecimento implícito do Estado judaico. Por isso, a posição portuguesa, transmitida à Embaixada que procederá ao contacto, deixa claro que a autorização da abertura do consulado "far-se-á sem ser precedida ou seguida de qualquer forma de reconhecimento expresso, que nas circunstâncias actuais não seria conveniente". Era o mais longe que Lisboa estava então disposta a ir.

O mundo árabe, entretanto, mostrou evoluir para uma atitude favorável à autodeterminação dos povos coloniais, contrariando as "esperanças" que a ditadura portuguesa nele havia colocado, nomeadamente numa potencial contradição com os novos regimes da "África negra". Em 1959, no quadro de algumas relações económicas entretanto já existentes, Portugal e Israel subscrevem um "acordo comercial e de pagamentos". No ano anterior, havia sido dada, depois de muito tempo de espera, a acreditação para o primeiro cônsul israelita. O despacho justificativo de Salazar é exemplar de realpolitik: "Os países árabes não mudarão de posição quanto a nós seja qual fôr a decisão que tomarmos. Israel votará a favor". As "contas" na batalha das Nações Unidas, com sucessivas condenações de Portugal, estavam a ser, desde 1955, a grande preocupação portuguesa.

Israel tem, entretanto, uma surpreendente evolução de posição face à política colonial portuguesa, menos por um desagrado com as reticências persistentes de Lisboa e, muito mais, determinada por uma tentativa de "cavalgar" politicamente algumas independências africanas, ao que parece num acordo implícito com Washington. Com o início das guerras coloniais nas possessões africanas de Portugal, essa posição vai-se agravando. Em 1967, Lisboa protestou informalmente pela atribuição por Tel-Aviv de bolsas de estudos a líderes independentistas das colónias portuguesas e chamou a atenção para o facto de armas israelitas terem aparecido em posse da Frelimo. Nesse contacto, Portugal invocou mesmo a proteção dada a judeus durante a 2ª guerra mundial, como forma de melhor denunciar a "ingratidão" de Israel. Afinal, as ações de Aristides Sousa Mendes iriam acabar por ter alguma utilidade, para o tardio argumentário salazarista...

Esta atitude negativa de Israel face à política colonial portuguesa enfureceu Lisboa, que passou a abster-se, nas Nações Unidas, na votação de questões israelo-árabes, talvez na ingénua esperança de atenuar a hostilidade deste últimos. Com a utilização da base das Lages, pelos EUA, para abastecimento de Israel, durante a guerra do Yon Kypur, em 1973, Portugal acabou por suscitar a aberta indignação de todo o mundo árabe, que decretou um embargo petrolífero ao nosso país. Atitude, aliás, injusta. Portugal não fez isso para ajudar Israel: fora submetido a um humilhante diktat americano, a que não conseguira furtar-se.

O 25 de Abril chegou, entretanto. Em outro post falaremos de como as coisas evoluíram a partir de então.

Israel e Portugal (2)

Com a ocorrência do 25 de Abril, Israel aproveitou para informar as autoridades portuguesas que "reconhecia" a Junta de Salvação Nacional. Prudente, o nosso MNE registou então, numa nota interna, que Portugal nunca tinha expressamente reconhecido Israel, razão porque o respetivo governo não fora incluído na comunicação geral através da qual dera conta ao mundo do novo regime.

Porque os tempos corriam a favor de um posicionamento prioritário de abertura da diplomacia portuguesa face ao então chamado "Terceiro Mundo", em que os países árabes tinham um papel predominante, e de que decorria naturalmente uma atitude mais pró-palestiniana, o período pós-Revolução não parecia muito favorável a uma aproximação com Tel-Aviv. Melo Antunes, ministro dos Negócios Estrangeiros, assumiu então posições públicas desfavoráveis aos desígnios israelitas e abriu caminho a que, nas Nações Unidas, num voto que viria a ser considerado muito polémico, o nosso país se ligasse a uma resolução que equiparou o sionismo ao racismo (72 votos a favor, 35 contra e 32 abstenções), afastando-se, neste caso, da posição de vários países ocidentais.

Julgo que se pode considerar que, tendo sido este o gesto anti-israelita mais extremado assumido pela diplomacia portuguesa, ele acabou por criar, paradoxalmente, um ambiente propício a uma viragem na atitude futura de Portugal face a Israel.

Foi o Partido Socialista quem esteve no centro desta nova atitude portuguesa. Com efeito, estando o Partido Trabalhista no poder em Tel-Aviv, a lógica de apoios dentro da Internacional Socialista acabou por favorecê-lo e Mário Soares veio a mostrar-se crescentemente aberto a favorecer uma maior aceitação de Israel no quadro internacional, com a contribuição de Portugal. Ao mesmo tempo - e lembremo-nos que estávamos no tempo tenso de 1976 -, esta orientação socialista marcava também, no plano interno, o seu claro afastamento da linha "terceiro-mundista" que o PS considerava ter marcado o consulado diplomático de Melo Antunes. Aliás, o ministro militar teve o cuidado de desenvolver bem o seu ponto de vista no seu discurso de despedida do MNE, largamente citado pela minha colega Manuela Franco, num artigo em cuja factualidade me tenho vindo a apoiar neste e no anterior post e cuja consulta recomendo.

Assim, logo no programa do I Governo constitucional, em 1976, referem-se, embora sem sentido claro de decisão, "as questões do estabelecimento de relações diplomáticas com a China Popular e Israel". Esta clara inflexão fora precedida de visitas partidárias a Israel de Jaime Gama e de Salgado Zenha. Porém, como bem refere Manuela Franco, dentro do MNE essa nova predisposição socialista não apenas não provocou efeitos sensíveis como terá mesmo suscitado algumas surdas resistências. Basicamente, e para o que contava em termos de atitude prática, a política manteve-se a mesma, mesmo sendo já Medeiros Ferreira o novo ministro.

Embora não disponha, de momento, de datas exatas comigo, recordo que, algures em 1977, uma missão técnico-diplomática que eu integrava, destinada a finalizar um promissor processo de contratação de obras públicas, iniciado no ano anterior, foi sujeita a uma espécie de "quarentena" em Tripoli, na Líbia, durante quase uma semana. Isolados num hotel nos arredores da capital, sem comunicações com o exterior, com os passaportes e bilhetes nas mãos dos nossos anfitriões, verificávamos, com surpresa, uma diferença radical de atitude face à simpatia com que, menos de um ano antes, aí havíamos sido recebidos. Ao final de um período de perplexidade e mesmo de alguma angústia, viémos a ser informados que estávamos a ser "vítimas colaterais" do anúncio da decisão, por parte de Portugal, de que Lisboa e Tel-Aviv iriam estabelecer relações diplomáticas a nível de Embaixada. "For the record", assinale-se que tudo se compôs e os contratos com os líbios acabaram por ser assinados, tendo aberto caminho a uma ininterrupta presença da indústria portuguesa de construção e obras públicas naquele mercado.

A decisão de elevação das relações para o nível de Embaixada (Israel transformaria em Embaixada, logo em 1977, o Consulado-geral que mantinha em Lisboa; Portugal só em 1988 acreditaria o seu embaixador em Roma como não residente; um embaixador residente português em Tel-Aviv apenas se instalou em 1991) poderá ter sido um dos factores de conflito entre Medeiros Ferreira e Mário Soares, com a saída do primeiro de MNE, substituído interinamente pelo segundo. Com esta decisão favorável a Israel, a nossa diplomacia passou então por momentos de grande dificuldade com os países árabes, que chegou a ameaçar os nossos fornecimentos petrolíferos, tanto mais que estávamos em campanha na candidatura a um lugar de membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU.

No ano seguinte, por insistência do governo de Tel-Aviv, aquela que julgo ser a primeira missão oficial portuguesa visitou Israel. Fui nela integrado e, dessa forma, julgo ter sido o primeiro funcionário diplomático português a deslocar-se oficialmente a Israel (curiosamente, creio que havia sido também o primeiro a ir à Líbia, em 1976, enquanto representante do MNE).

Em Portugal, viviam-se os tempos do Governo PS-CDS, sendo Victor Sá Machado, deste último partido, ministro dos Negócios Estrangeiros. Antes da partida da missão, o jovem terceiro secretário de embaixada que eu era foi levado à presença do ministro, acompanhado do chefe de repartição, Queirós de Barros. Foi-me explicado que o ministro da Agricultura, o socialista Luis Saias, que eu acompanharia, tinha uma missão exclusivamente técnica e que estava, em absoluto, fora de causa assumirem-se quaisquer posições políticas, quer com impactos bilaterais, quer relativamente ao conflito do Médio Oriente. Assim se fez, com pormenores curiosos que só o tempo permitirá revelar, não obstante o contraparte do nosso governante, que nos acompanhou grande parte do tempo, o então ministro israelita da Agricultura, se chamar... Ariel Sharon!

Como atrás se disse, a nossa Embaixada em Tel-Aviv só viria ser aberta em 1991, a tempo de poder acompanhar a nossa segunda presença no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A partir daí, as relações entraram num registo de normalidade, com Portugal a assumir sempre uma posição de grande equilíbrio que, basicamente, tentava conciliar o direito à criação de um Estado palestiniano e a necessidade de preservação de um Estado de Israel com fronteiras reconhecidas.

Em fins de 1995, teve lugar a primeira visita de um chefe de Estado português a Israel. Então já no exercício de funções políticas, acompanhei Mário Soares nessa viagem, em substituição do ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama. Era um tempo de grandes esperanças para o processo de paz no Médio Oriente, posterior aos acordos de Oslo e Washington. Mário Soares era um interlocutor respeitado pelo primeiro-ministro Yitzhak Rabin e pelo MNE Shimon Peres. Nas várias conversas que ambos tivemos com estes responsáveis israelitas, fomos estimulados a ajudar, nomeadamente no âmbito europeu, aos esforços de reconstrução económica que a Autoridade Palestiniana tinha em curso na Cisjordânia e, em especial, em Gaza. Estávamos precisamente com Yasser Arafat, líder da Autoridade Palestiniana, depois de jantar, em Gaza, na noite de 5 de Novembro de 1995, quando nos chegou a notícia do assassinato de Rabin, em casa de quem tínhamos almoçado na véspera.

Nada seria igual, naquela parte do mundo, depois dessa data. O processo de paz ruiu, a unidade palestiniana rompeu-se, Israel evoluiu internamente por caminhos diversos. Como hoje se vê pelas imagens de tragédia que se juntam às notícias que nos chegam.

segunda-feira, maio 17, 2021

Edgar Rodrigues e a liberdade


Quando fui embaixador no Brasil levava na minha agenda de intenções fazer uma homenagem aos portugueses que a ditadura tinha obrigado, entre 1926 e 1974, a sair de Portugal e ir para lá viver como terra de exílio. Foram muitos, ao longo de muitos anos, de escolas políticas muito diversas, às vezes contraditórias entre si.

Um dia contarei, com as palavras certas, uma realidade a que nenhum embaixador português escapa no Brasil: o ter de equilibrar, na sua ação, o respeito histórico que é devido a essa memória de resistência ao período ditatorial com a permanência, bem ancorada ainda em algumas instituições da comunidade luso-brasileira, de um forte núcleo saudosista do tempo anterior ao 25 de abril. Estas últimas pessoas espelham uma certa comunidade histórica tradicional, a qual viria a ser reforçada nesse sentimento, depois de 1974, por quantos saíram apressadamente de Portugal, temerosos dos novos tempos revolucionários, e ainda por pessoas que abandonaram Angola e Moçambique, por ocasião da independência desses novos países.

O embaixador de Portugal, sendo naturalmente representante do Estado democrático que hoje existe em Lisboa, tem de ter em conta toda a gente: desde quantos comemoram alegremente o 25 de abril até quantos detestam, aberta ou veladamente, essa data e ainda mantêm, em vários espaços do seu movimento associativo, bustos ou retratos de Salazar, de Carmona ou mesmo Américo Tomás. 

É uma “arte” conseguir fazer essa “quadratura do círculo” e, podem imaginar, esse comportamento foi bastante difícil para um embaixador que tinha sido militar no 25 de abril e que nunca escondeu as suas convicções políticas. Mas, com falsa modéstia, julgo ter conseguido ter sempre o tom certo, perante essas memórias afetivas contraditórias.

Tudo isto serve para retomar o fio à meada, daquilo que escrevi no primeiro parágrafo deste texto. Tentei, embora um pouco tarde demais no meu tempo de funções, organizar em congresso académico sobre o exílio português no Brasil durante o período da ditadura de Salazar e Caetano. (O que tentei no Brasil acabei por conseguir fazer, anos mais tarde, em Paris). Reuni com a UFRJ e organizei um encontro com dois especialistas luso-brasileiros no assunto: Heloísa Paulo e Douglas Mansour da Silva. Mas não fui capaz de concitar os apoios que eram essenciais - e, claro, não podia contar, para o exercício, com as instituições representativas da comunidade luso-brasileira, pelo facto destas viverem no conflito que antes explicitei.

Ao tempo da minha ida para o Brasil, tinha uma particular curiosidade em poder vir a conhecer pessoalmente uma figura de quem tinha lido uma prolífica obra de historiografia sobre o movimento libertário português, Edgar Rodrigues. Fora alguém que se vira obrigado a exilar-se no Brasil e que continuava bastante ativo na escrita. Era então o mais antigo exilado político português no Brasil ainda vivo. Para meu grande espanto, a generalidade das pessoas com quem falei, do setor democrático e oposicionista da comunidade portuguesa, desconheciam a sua figura ou só muito vagamente tinham ouvido falar dele. 

Tive algum trabalho para obter mais dados sobre ele. Mas o que pude apurar, somado à importância das dezenas de obras que publicou, foi suficiente para me decidir propor que lhe fosse atribuída a distinção da Ordem da Liberdade, em Portugal. Essa minha ideia caiu, contudo, em saco roto, em Lisboa. Falei então com Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de abril, que se ofereceu para promover a oferta da Medalha daquela Associação a Edgar Rodrigues. Fiz-lhe entrega desse galardão - que foi o reconhecimento possível - num encontro que tive com ele no Consulado-Geral no Rio de Janeiro, antes da minha saída definitiva do Brasil, em 11 de novembro de 2008, de que deixo registo fotográfico.

Edgar Rodrigues veio a morrer meio ano mais tarde, em 15 de maio de 2009. No passado fim de semana, no âmbito do LEV - Literatura em Viagem, um festival literário em Matosinhos em que, por coincidência, fui dos participantes convidados, foi feita uma homenagem a Edgar Rodrigues que este ano, se fosse vivo, completaria 100 anos. Veremos se, finalmente, esta efeméride e esta evocação permitem fazer renascer a ideia de lhe ser atribuída a Ordem da Liberdade.

domingo, maio 16, 2021

“Entrevista de vida”


O LEV - Literatura em Viagem, um festival literário já consagrado, que anualmente se realiza em Matosinhos, convidou-me a nele participar. 

Durante uma hora, no cenário muito bem recuperado do Teatro Constantino Nery, dei ontem uma “entrevista de vida”, muito bem conduzida por Hélder Gomes.

Quem estiver interessado, pode ver e ouvir a entrevista clicando aqui.

Acusação

Há tempos, num supermercado, uma senhora, que, pelo tom de voz, imaginei sorridente por detrás da máscara, disse-me: “Devo-lhe uns quilos!” Não percebi. Ela esclareceu: “Visitei alguns dos restaurantes que aconselhou nas redes sociais. E, olhe!, engordei!”. Mas não levou a mal...

Decidam-se!

 


As restrições às viagens, por virtude da crise pandémica, arruinam a organização do trabalho das pessoas...

sábado, maio 15, 2021

O mundo é muito pequeno!


Não anotei o seu nome. O cidadão português que se aproximou de mim, numa pausa de um evento que teve lugar no palácio de S. Clemente, residência do cônsul-geral de Portugal no Rio, queria apenas dizer-me que tinha uma ligação à minha terra, a Vila Real. Estávamos em 2006, ao tempo em que eu era embaixador no Brasil.

“Cheguei a viver uns meses na sua terra, senhor embaixador. Fui com o meu avô para lá”. Achei curiosa a referência e atentei no relato que ele me fazia. 

Às vezes, para não desiludir os interlocutores, devo confessar que os embaixadores fingem interessar-se por histórias que os muitos cidadãos do seu país com quem se cruzam no estrangeiro lhes contam, nessas apressadas ocasiões públicas. Mas, neste caso, a minha atenção era muito genuína. E tinha a ver com as datas que ele me dizia. É que tínhamos coincidido na capital transmontana, teria eu então uns 14 ou 15 anos. A cidade era pequena, eu conhecia por ali toda a gente. Onde é que ele vivera?

Explicou-me que a estada da sua família, em Vila Real, fora relativamente curta, bem menor do que expectável. O seu avô, homem de muitas posses, transmontano residente no Brasil, tinha comprado uma casa muito interessante, no centro da cidade, e tinha tido o cuidado de mobilá-la com algum requinte. A isso fora ajudado por pessoas amigas, creio que do Porto. Decidira escolher para a casa excelentes móveis, objetos de decoração, tapetes. A ideia seria firmar uma posição na cidade e, para isso, possuindo ele os meios, procurou garantir um apetrechamento adequado da habitação.

A vida, contudo, é sempre feita de surpresas. Escassos meses tinham decorrido desde a instalação em Vila Real e, por uma razão que creio que me explicou mas que esqueci, o seu avô, e com ele a família, haviam tido necessidade de regressar rapidamente ao Brasil. Em poucos meses, todo o esforço de montagem daquela magnífica casa se gorou. Coisas que tinham acabado de ser adquiridas, acabaram por ser postas à venda, num prazo de tempo curto, a um preço, ao que se lembrava, abaixo do seu real valor. “Havia peças lindíssimas”, recordava-se o meu interlocutor, que, embora bem jovem à época, guardava uma memória impressiva da casa do seu avô.

Eu estava cada vez mais curioso com a história - e já perceberão porquê. “Diga-me uma coisa”, inquiri, “onde ficava a casa do seu avô?”. A explicação era pouco precisa, mas rapidamente entendi do que ele falava, quando me disse: “Era um primeiro andar, mesmo no centro da cidade, sobre uma loja comercial, junto a dois cafés”.

A certa altura, com a expressão da minha curiosidade a parecer já um pouco estranha ao meu interlocutor, perguntei-lhe: “Tem ideia de como eram os sofás da sala do seu avô?”. O homem olhou para mim com um ar um pouco espantado, mas adiantou: “Claro que recordo! Eram em tons de verde, com desenhos florais em veludo”. Forcei a sorte: “E tem ideia de haver na casa um espelho grande, clássico, dourado?”

Neste ponto da conversa, o homem já esbugalhava os olhos. “To make a long story short”, posso concluir que lhe disse: “Se um dia tiver saudades desse espelho, se quiser sentar-se nesses belos sofás e quiser ver como ainda está bem conservada uma grande carpete, em tons verdes, de Beiriz, que atapetava essa habitação do seu avô, eu convido-o a ir a minha casa, lá em Vila Real. Está lá tudo isso!”

O meu interlocutor estava entre o surpreendido e o comovido. Eu expliquei: o período em que o seu avô tinha decidido desfazer-se do excelente recheio da sua casa em Vila Real coincidira, precisamente, com aquele em que tínhamos ido viver para a nova residência do gerente da Caixa Geral de Depósitos, cargo que o meu pai ocupava. O inesperado surgimento, à venda na cidade, de um magnífico conjunto de peças de mobiliário e decoração, em estado praticamente novo, a um bom preço, caíra “como sopa no mel” nos planos dos meus pais, ajudando-os a rechear a imensa casa que então fomos ocupar. E eu era - e ainda sou, nos dias de hoje - o feliz herdeiro de todas essas peças. 

O mundo é muito pequeno, como se vê!

sexta-feira, maio 14, 2021

Na vizinhança



A bem dizer, o “Geographia” é o restaurante mais próximo de minha casa. E, injustamente, poucas vezes me lembro de lá ir. Fi-lo ontem, para jantar. E, como sempre - sempre, repito - aconteceu, saí imensamente satisfeito. 

O “Geographia” justifica que, por uma vez, eu use a irritante palavra “conceito”, aplicável a uma casa onde se vai para comer e beber. O “Geographia” é um “conceito” muito original no nosso país: apresenta pratos dos várias regiões e culturas que Portugal, na sua aventura imperial, cruzou pelo mundo, da Ásia à América e à África. Fá-lo com um extremo cuidado na apresentação, sem “sublinhar” em excesso certos sabores específicos, adequando o equilíbrio culinário ao gosto português médio, mas sempre de uma forma elegante e até sofisticada.

O “Geographia”, que fica na parte elevada de um largo junto ao Museu Nacional de Arte Antiga, tem um serviço de mesas jovem, bem disposto e muito atento. Com os devidos cuidados a que a “saison” sanitária obriga, ontem foi reconfortante ver por ali uma casa com razoável número de clientes. 

Porque acho que o património em matéria de diversidade gastronómica é uma riqueza nacional que nos compete preservar, devemos apoiar o esforço que os restaurantes fizeram neste tempo de pandemia e recompensá-los com a nossa frequência.

Ao leitor de Lisboa que não conhece o “Geographia”, recomendo francamente uma visita. E isto é muito sincero, pode crer! Aceito reclamações.

quinta-feira, maio 13, 2021

O silêncio dos Borges


Há pouco, li uma citação de Jorge Luís Borges: “No hables a menos que puedas mejorar el silencio”. E ao ver o nome Borges associado à palavra silêncio, vieram-me à memória duas figuras que faziam parte do meu cenário de infância e juventude, em Vila Real: os “Borginhos”.

Eram dois irmãos, gémeos, franzinos, de estatura pequena, de uma família relevante na cidade. Ambos eram engenheiros técnicos, ambos trabalhavam na Junta Autónoma de Estradas. 

Lembro-me deles sempre vestidos de escuro, muitas vezes pelos corredores do Club de Vila Real. Muito discretos e reservados, eram pessoas bastante consideradas. Eu, confesso, não distinguia um do outro. Como tinha uma parte da minha família na mesma área profissional dos “Borginhos”, falava-se bastante deles lá por casa. Sempre bem, diga-se.

Há tempos, dei-me conta de que um dos “Borginhos”, Filipe (o outro chamava-se José Manuel), tinha sido um excelente fotógrafo amador. Uma nota do Museu do Som e da Imagem da cidade dá-os a ambos envolvidos na “fundação do Sport Clube e do Circuito de Vila Real, dividiram o interesse pelo coleccionismo, pelas artes, pela arquitectura, pela heráldica, pelos desportos motorizados”.

Ao que se dizia, o pai desses dois irmãos, o senhor Borges, era uma pessoa muito parcimoniosa nas palavras ou, para utilizar linguagem comum, um homem de poucas falas. O silêncio seria cultivado entre ele e os filhos, sendo frequentemente vistos os três a passear pela cidade, sem falarem entre si. É talvez um mero mito, mas dele nasceu uma inocente historieta que sempre ouvi.

Um dia, na viragem entre os séculos XIX e XX, o senhor Borges e os seus dois filhos teriam ido passear para o Jardim da Carreira, então um muito frequentado local de lazer de Vila Real.

À entrada no portão, um dos “Borginhos” terá comentado: “Quer-me parecer que hoje vai chover!”. Sem que esta afirmação tivesse desencadeado qualquer conversa, o trio terá continuado, silencioso, a percorrer as duas centenas de metros que vão até à fonte no fundo do jardim. 

Lá chegados, o outro gémeo terá dito: “Não vai chover! Vai estar sol todo o dia.” A esta frase, que, no fundo, contestava a que o irmão tinha dito minutos antes, voltou a suceder-se um silêncio. Silêncio que se prolongou no regresso, até ao portão, que viriam a atravessar minutos mais tarde. 

Terá sido então nesse instante de chegada à rua que o pai Borges terá dito: “Os meninos já sabem que eu não quero ouvir discussões entre vocês!”. E, dado o raspanete, lá seguiram, até casa. Em silêncio. No silêncio dos Borges.

quarta-feira, maio 12, 2021

“A Arte da Guerra”


No programa “A Arte da Guerra”, falei hoje com António Freitas de Sousa sobre o saldo da Cimeira Social europeia no Porto, sobre as movimentações diplomáticas da Arábia Saudita junto de Estados com os quais mantinha contenciosos e, finalmente, sobre o estado da liderança de Boris Johnson no Reino Unido - refletindo sobre o saldo do Brexit e o que é expectável nas relações futuras de Londres com Bruxelas, Washington e Pequim.

Pode ver aqui.

Mito

A história de que o Sporting passa muito tempo sem ganhar títulos é um dos grandes mitos nacionais. Olhem! Ainda ontem ganhámos um!

terça-feira, maio 11, 2021

Do Sporting


Por que é que sou do Sporting? Sou do Sporting porque não sou do Benfica, poderia responder. 

Quando a opção clubística se me terá colocado, nos anos 50, o país dividia-se entre os dois clubes. O Porto tinha uma expressão acentuadamente regional e só a Académica, em especial para quem tinha passado por Coimbra, e o Belenenses, que funcionava como uma terceira, sofisticada e quase aristocrática terceira opção lisboeta, convocavam alguns adeptos e juntavam fiéis. 

Sporting e Benfica disputavam então, quase taco a taco, a liderança nacional, com o Porto ainda a uma imensa distância. Depois era quase o deserto. Nem o Braga nem o Boavista, que, décadas depois, viriam a dar um ocasional ar da sua graça, tinham uma existência relevante no panorama do futebol nacional.

Pela província, havia, claro, preferências locais, mas não havia nenhum adepto dessas agremiações que não tivesse um clube “grande” como referência da sua afetividade nacional. Eu “era” do Sport Clube de Vila Real, o meu pai era adepto do Vianense. O rival do meu clube local era o Desportivo de Chaves, o meu pai não gostava do Braga. Mas éramos ambos do Sporting.

Em Vila Real, onde vivíamos, os benfiquistas estavam em maioria, mas havia imensos adeptos do Sporting. Os portistas eram então muito poucos. Passei a ser “do” Sporting, imagino, porque aconteceu o meu pai ser, desde a juventude, adepto do Sporting. Estou em crer que, acaso ele fosse do Benfica, talvez eu tivesse ido por aí. 

Aqui chegados, o que significa continuar a ser, décadas depois, adepto (e associado, como é o meu caso) do Sporting? 

Da sua rivalidade a par do Benfica, nesses meus primeiros tempos de adepto, o Sporting veio a entrar num inegável declínio, a nível de títulos, deixando-se “atrasar”, a nível nacional, face ao Benfica, com este a somar ainda alguns êxitos externos muito significativos. 

O Porto, entretanto, começou a crescer e, com o passar dos anos, veio a afirmar-se como uma força, não apenas nacional, mas mesmo com êxitos internacionais hoje sem igual em Portugal. O Porto chegou, sem a menor dúvida, à liderança do futebol nacional e, na nossa história interna, ganhou uma evidente primazia face ao Benfica - mas não me quero meter na “guerra” entre os dois clubes, que não é a minha.

Como sportinguista, aproveito para dizer, nunca tive o Porto como um clube rival. A única rivalidade que verdadeiramente sempre senti foi com o Benfica. Talvez isto tenha a ver com a idade, com o “histórico” da minha pertença afetiva ao clube e ao seu adversário clássico. Mas, devo confessar, talvez por isso, as Antas ou o Dragão nunca fizeram parte do meu imaginário competitivo. Por isso, as vitórias ou derrotas do Porto, não me deixando indiferente, marcam-me muito pouco. 

Alguns amigos sportinguistas estarão a pensar, chegados a este ponto do texto, que subestimo aqui o incomparável ecletismo desportivo do Sporting, área em que o clube nunca perdeu a liderança nacional. Numa imensidão de modalidades, no passado como no presente, o Sporting tem um palmarés que é único e incontestável. Mas, deixemo-nos de “diversões”: para o que na verdade conta, na expressão relativa de força dos clubes nacionais, é do futebol sénior que falamos.

Os sportinguistas da minha geração, com os anos, desabituaram-se, a certa altura, de ganhar títulos com regularidade. Íamos sendo campeões a espaços, com um êxito aqui ou ali. A regra era não ganhar, a vitória passou a ser uma exceção. 

Se, para essa minha geração, ainda havia um passado forte em vitórias lá no fundo, para os mais novos, a realidade era e é bem menos brilhante. Devo dizer que, por isso mesmo, tenho uma profunda admiração pelas gerações mais novas de sportinguistas, que hoje se prendem afetivamente a um emblema que só episodicamente lhes dá as alegrias que outros têm com maior frequência. Acho tocante que preservem essa fé na ocorrência de uma vitória com sabor forte, que o tempo lhes provou ir sendo apenas a espaços.

Foi nesse cenário de vitórias episódicas que fui ganhando, sem qualquer “teatro” da minha parte, aquilo que é o meu orgulhoso sportinguismo. Ao longo destes muitos anos “de casa”, confesso que, embora não me agradando, consegui viver sempre, sem excessivo sofrimento, a saída desse tempo de vitórias regulares para o surgimento de um outro tempo em que, de quando em quando, surge um saboroso êxito. 

Cada um é adepto à sua maneira. Conheço sportinguistas que são muito diferentes de mim: na emoção, na competitividade, na garra. Eu sou como sou. Gosto imenso que o Sporting ganhe, fico muito contente por um título poder ser obtido no meio desta quase insuportável pandemia. Em especial, satisfaz-me ver hoje tantos miúdos vestidos de verde, cor da esperança que põem na hipótese do Sporting voltar à liderança desportiva no país. As vitórias do Sporting são-lhes dedicadas. Estou assim com eles nesta felicidade conjuntural, embora uma vida como sportinguista me tenha moldado as emoções a um “possibilismo” que, evitando arrastar-me para o sofrimento, convoca em mim uma alegria ainda maior e mais saborosa quando as vitórias acontecem. Vivo muito bem assim, não trocaria esta minha forma de afetividade pelo Sporting por nenhuma outra. 

Sporting sempre!

segunda-feira, maio 10, 2021

Mitterrand e a moda


Caramba! Passaram já 40 anos! Lembro bem a noite de 10 de maio de 1981, dia da vitória de François Mitterrand nas eleições presidenciais francesas.

Vivia então na Noruega e organizámos um jantar em casa para acompanhar as notícias, que nos iam chegar pela rádio de ondas curtas e pelas televisões norueguesa e sueca, as únicas que nos eram acessíveis. Convidei amigos que nos podiam ajudar a "decifrar" os noticiários naquelas línguas, além de outros que o acaso juntou nessa noite nórdica.

A esmagadora maioria dos nossos convivas, onde se contavam alguns diplomatas estrangeiros, muitos temerosos da anunciada chegada dos comunistas ao poder, acabava por alinhar num "giscardianismo" de oportunidade. Tudo menos Mitterrand! 

Nada de estranho, se pensarmos que a Guerra Fria estava ainda muito presente na vida internacional e que a experiência francesa assustava então muita gente. Estas coisas hoje parecem ridículas, mas, à época, havia quem falasse, sem rir, na possibilidade de tanques russos não tardarem na place de la Concorde.

Quando as notícias da vitória de François Mitterrand se confirmaram, esse núcleo de amigos conservadores entrou numa aberta depressão. As teses sobre o que iria suceder em França eram catastróficas: de desordens públicas a um conjunto de malfeitorias que a nova maioria, que forçosamente sairia das eleições legislativas subsequentes, seguramente iria desencadear, tudo era de esperar da "révanche" da chegada da esquerda ao poder.

Num certo casal estrangeiro, em que ela era bastante mais nova, notei que o marido, que trabalhava num banco, estava a ser carinhosamente consolado pela mulher, solidária na conjuntural desventura política do cônjuge. Mas era por demais evidente que ela tinha muito pouca consciência da complexidade do que estava a ocorrer. O marido, com a gravidade expressa no rosto fechado, disse, a certa altura: "Isto vai provocar uma desvalorização fortíssima do franco, vai ser gravíssimo!".

Eu não me continha e lançava umas piadas, em jeito de provocação. A certa altura, saiu-me esta: "Bom, há que perceber as vantagens de uma desvalorização do franco. Por exemplo, a roupa que se vende em França vai ficar muito mais acessível, a moda francesa vai embaratecer, agora é que vai valer a pena ir a Paris, às compras".

O que eu fui dizer! Mal eu tinha acabado de falar, vejo os olhos da jovem brilharem, a cara abrir-se-lhe num esgar de felicidade, como que por uma súbita descoberta das virtualidades da vitória da esquerda. Voltou-se então para o marido e, numa voz bastante audível, tanto mais que ele era meio surdo, disse-lhe: "Ouviste? É verdade que os vestidos vão ficar mais baratos? Não podíamos ir agora a França?".

Parte da sala sorriu. O meu amigo ignorou-a, olimpicamente, e fuzilou-me com o olhar. 

Eu ria, abertamente, feliz da vida com o resultado, olhando na televisão a place de la Bastille apinhada de gente. Com imensa pena de lá não estar!

O ar do tempo

Há um país que se sente mal neste país. Há um país que acha que o país o não segue ou, quando acaso episodicamente o faz, nunca consegue pôr o país a seu jeito. Há um país com uma infindável raiva, que acha que o país o não compreende, que vive num mal-estar endémico, em “blues” eternos. Há um país que acha que tem uma ideia salvífica para o país, a mezinha mágica para pôr isto direito, mas que o país, pateta, não consegue nunca entender. Há um país sobranceiro, arrogante, feito de gente que, afinal, apenas gostava que o país fosse aquilo que eles acham que o país devia ser. E que, talvez não por acaso, não é.

Esse país, que agora por aí anda com a bílis à solta, não gosta do país que tem, não gosta afinal do país que lhe deu a liberdade de não gostar do país. É o país tremendista do “nós” e do “eles”, em que estes últimos são o sujeito de todos os males, que só não são curados porque a “nós” não é dada a possibilidade de os corrigir. Esse país que agora anda muito vocal, mas que nunca fez nada pelo país, é filho incógnito daqueles a quem, em todas as épocas da nossa História, sempre desagradou o país que tinham. Para esses melancólicos iluminados pelas luzes da outra verdade, isto sempre foi uma “choldra”, uma “seca” feita país, a que urge abrir as portas e as janelas, deixando entrar o ar do tempo. O deles.

No passado, esse país indisposto com o país, era então o estrangeirado. Lá fora estavam todas as soluções, só era necessário importá-las para que a modernidade das ideias, afinal tão óbvia, pudesse aqui frutificar e dar-lhes, finalmente, a glória dos profetas. Com Abril, desembarcaram em Santa Apolónia, com livros e ambições de reconhecimento. O país, que tem da generosidade o sentido da medida, deu-lhes o que era devido. Não mais.

Mas a semente, qual OGM, mudou de qualidade, transmutou-se. O país do despeito transitou entretanto de geração, ilustrou-se nas Américas, leu Popper e, enterrando o latino, anglo-saxonizou o seu projeto. Andou os últimos anos a fazer livrinhos, acolhido em universidades de receita segura, colunizando-se pelas plataformas da moda. Nos partidos, onde se muda a política com a legitimidade das vontades expressas, entram e saem, nervosos, à medida das ambições, falhos de votos e reconhecimento. Cavalgando as inseguranças de muitos, as dúvidas de uns tantos, os temores de alguns, ei-los agora a adubar de populismo os seus discursos, tentando que os dias do país se confundam com os da sua raça.

Quem os topava bem era o O’Neill, que os citava, definitivos e, no entanto, tão tristemente provisórios: “Não, não é para mim este país!”. E era também um poeta, imaginem!, de Portalegre, Régio de seu nome mas republicano de gema, quem lhes respondia, quem lhes responde, em nome do país: “Não vou por aí!”

(Publiquei este texto aqui, vai para dois anos. Depois de ler uma entrevista a um semanário, no passado fim de semana, lembrei-me dele)

domingo, maio 09, 2021

Realmente

Acho que a Meghan e Harry, para completarem o ciclo habitual das vedetas do “star system” anglo-saxónico, em que tão esforçadamente se envolveram, já quase só falta uma estrondosa separação. Até lá, vão faturando.

As têvês

Houve um tempo em que tínhamos menos de meia dúzia de canais televisivos, pela qual pagávamos uma coisa simbólica, a qual, custeando também uma rádio pública sem publicidade e assegurando coisas como as RTP/RDP Internacional e África, era das mais baixas da Europa. Tudo bem!

Fomos então convencidos a passar para o cabo, que já não era tão barato quanto isso. Mas os “pacotes” vinham embrulhado com a net, os telefones, numa geometria variável de opções que, como é da regra destas coisas, induz um deliberado embaraço na escolha.

Mas, com os diabos!, passámos a ter “centenas” de canais disponíveis! Que bom! Só que depois, vendo bem, além de pagarmos o cabo e o tal preço simbólico dos canais tradicionais, cada vez é preciso desembolsar mais para abrir muitas dessas tais “centenas” de canais “disponíveis”, os Netflix, a SportTV e imensas coisas assim.

E os canais televisivos tradicionais, concessionários de licença pública, que originalmente víamos pagando a “taxa”, que já têm o dobro da publicidade da televisão pública, criam, eles próprios, como agora se (não) vê com a Opto, sistemas de acesso fechados. E para ver o melhor desses canais, temos de pagar mais...

After Eight


Creio que foi já nos anos 70 que o “After Eight” entrou em Portugal. A certa altura, não havia jantar social em que, com o café, não fossem servidos aqueles retângulos de chocolate com uma pasta de mentol dentro.

As donas de casa, ou os empregados, quando existiam, traziam aquilo aos convidados, numas caixas verdes de papel que, até lá, se colocavam nas prateleiras do frigorífico. 

Com os anos e os calores de época, todos tivemos a experiência de ser servidos de “After Eight” moles e pegajosos, difíceis de tirar do “saco” de papel, visivelmente reciclados da sua frescura antiga, que dava uma imensa e atrapalhada trabalheira deitar fora, quando estávamos em casa alheia. Graças a mim, várias plantas em vasos floresceram a cheirar a mentol.

Há um belo restaurante lisboeta que manteve, desde sempre, a tradição de servir um “After Eight” com o café. A quem acertar no nome da casa estou em condições de prometer que, quando lá forem, irão ter direito a um “After Eight”. E podem dizer que vão da minha parte.

Notícias do foguetão

A prova provada de que o meu sentido cívico está em franco declínio é o facto de me não conseguir interessar minimamente pela magna questão do foguetão chinês que vai cair por aí. Vou mesmo dormir sem pensar no assunto, o que me coloca numa posição político-social insustentável.

sábado, maio 08, 2021

Uma tasca histórica


Na fotografia estão pai, mãe e filho, a “troika do bem” que rege a “Imperial de Campo de Ourique”, uma das minhas mesas de estimação.

(Tenho ido pouco por lá - tenho ido pouco a toda a parte! Assumo que faço parte do grupo dos “cobardes” da pandemia: até tomar a segunda dose da vacina, não almoço ou janto em grupo, nem mesmo em família. Os meus amigos queixam-se imenso e sou brindado com epítetos qualificativos que nem me atrevo a revelar. Tenho para mim, contudo, que só se vive uma vez e, ao que me consta, esta é a última. Por isso, acho que todo o cuidado é pouco, faltando escassos dias para que possamos usufruir de maior liberdade. Mas percebo que este meu entendimento não seja o de outros.)

Hoje, fui almoçar à “tasca do João”, como também é conhecida a “Imperial de Campo de Ourique” (no 67 da rua Correia Teles. Mas só abre para almoços!). Tenho por hábito ir lá, aos sábados, para o bacalhau à minhota que a dona Adelaide prepara e que o Nuno me traz, sabendo bem de que tipo de posta eu gosto mais. Mas hoje havia também um cabrito. Abriu-se a refeição com um queijo amanteigado, simpático, cuja origem não cuidei em saber. O novo vinho da casa deu um imenso salto positivo, evitando mesmo o recurso ao “Rafeiro”, um alentejano razoável (no palato e no preço) que, por lá, nos últimos tempos, se bebe muito. Belas laranjas da Chamusca fecharam o menu, resistindo ao arroz doce, marca da casa.

No final tomei um café. Normalmente tomo dois. O João traz logo duas chávenas, ao mesmo tempo. Há uns meses, a curiosidade da minha parceira de mesa foi ao ponto de espreitar para dentro das chávenas, dando-se então conta que a cor do “café”, na segunda, era ligeiramente diversa da outra. Foi ver: era “Jameson”. E assim ficou prejudicado um truque que, por meses, eu e o João tínhamos montado, com sucesso...

O João quer agora que a sua casa passe a “Loja com História”. Eu acho que sim. Se também é frequentador e acha o mesmo, escreva a dizer isso para distincao.lojashistoria@cm-lisboa.pt .

Brasil

Desejo o melhor para o Brasil, mas, no auge de uma pandemia onde a morte é levada, por flagrantes erros oficiais, a dar “prioridade” aos mais pobres, uma ação repressiva “cega” como a que está a ocorrer no Rio pode ajudar criar uma “bomba relógio”, naquele país de desigualdades.

PPUE 2021




Lá para as dez e tal da noite de um dia do primeiro semestre de 2000, durante a segunda presidência portuguesa da União Europeia, em que tínhamos passado o dia dentro do edifício Justus Lipsius, em Bruxelas, desde as oito e tal da manhã, em sucessivas reuniões de trabalho, de janelas fechadas, respirando ar “artificial”, imensamente cansado, voltei-me para Jaime Gama, no carro de regresso ao hotel, e comentei: “O dia hoje correu muito bem!“. 

Gama respondeu-me com uma pergunta e uma resposta: ”Sabe por que correu bem? Porque já andamos por aqui há muito tempo! Olhe à volta daquela mesa: com as sucessivas mudanças de governos, nós somos dos mais antigos. Conhecemo-los a todos, desde o pessoal do secretariado do Conselho até à gente da Comissão, sabem bem quem somos e como somos. Torna tudo mais fácil!”.

Era bem verdade! Pensei nisto, há pouco, ao olhar a ”coreografia” da presidência portuguesa da União Europeia, no Palácio de Cristal, no Porto. 

A nossa equipa “política” está mais do que rodada: António Costa, que já foi vice-presidente do Parlamento Europeu, é dos mais “seniores” de entre os primeiros-ministros, o que é muito importante para quem vem de um país da nossa dimensão.

O MNE Santos Silva leva mais de um mandato no cargo, depois de ter sido ministro, creio, de quatro outras pastas. 

A secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Ana Paula Zacarias, acumula a sua experiência política nacional com o cargo anterior de embaixadora da União Europeia em vários países.

Na frente diplomática, dispomos de uma equipa rodada e verdadeiramente “de luxo”. Em Bruxelas, os embaixadores Nuno Brito e Pedro Lourtie. Em Lisboa, os seus colegas Rui Vinhas e Madalena Fischer. Tudo gente do melhor que o MNE tem “produzido“. Todos com anos de experiência, o que lhes confere uma grande autoridade como interlocutores negociais.

A presidência portuguesa de 2021 está a correr bastante melhor do que eu tinha julgado poder ser possível, atendendo ao constrangente circunstancialismo criado pela pandemia. Com a qualidade da equipa que colocou no terreno, em condições normais de trabalho, estou em crer que os resultados seriam ainda mais relevantes do que têm sido.

Portugal confirmou, uma vez mais, aquilo que a Europa há muito já sabe: sob a liderança portuguesa, as presidências semestrais são conduzidas com forte sentido de responsabilidade e são sempre muito bem sucedidas. 

Em todos os quatro momentos em que, nos últimos 35 anos, isso sucedeu, em ciclos políticos nem sempre idênticos, constatou-se igualmente que o facto de Portugal dispor de equipas políticas e diplomáticas rodadas para o exercício dos cargos acabou por ser um fator determinante para esses sucessos.

Barreto

A entrevista que de António Barreto hoje dá a um semanário é um auto-retrato demasiado cruel que acaba por fazer de si mesmo. Tenho pena que Barreto se furte a ponderar, ao dizer algumas das coisas que diz, entre algumas outras sensatas, na ajuda que assim presta a notórios setores anti-democráticos.

Moedas

Carlos Moedas, um homem sério, cordato e competente, que honrou Portugal num cargo de comissário europeu, que ele próprio teve o mérito de “construir” e onde se (e nos) prestigiou, deve perceber que um discurso “caceteiro” pode atenuar-lhe a derrota mas afetar-lhe a (boa) imagem.

AO


No “Expresso”, Henrique Monteiro disse tudo o que é preciso dizer, sempre com uma gargalhada à mão.

sexta-feira, maio 07, 2021

“Observare”


Este sábado, o “Observare” será naturalmente dedicado à Europa, em especial à reunião magna do Porto.

Sob a coordenação de Filipe Caetano, Carlos Gaspar, Luís Tomé e eu, estaremos em direto, a partir das 15:00 horas, na TVI 24.

Em terras de Sá Carneiro

O candidato do PSD à Câmara do Porto, que é Feliz de nome, tal como o são as coincidências, disse que fará “das tripas coração”. Se o disse por graça, “chapeau” para a “trouvaille”. Se foi por acaso, merece o resultado que vai ter.

Depois, digam que não avisámos!


 

Embrulhem!


Há ainda por aí quem se não sinta orgulhoso, como português, ao ler isto, no editorial da “Sábado”, sobre a atitude da nossa população e dos trabalhadores imigrantes, que operam nas estufas alentejanas?

À dúzia!


O Estrela da Amadora ganhou 2-1 ao União de Leiria. Durante alguns segundos (leram bem!), ao minuto 83, o Estrela, por uma confusão aquando de uma substituição, teve momentaneamente 12 jogadores em campo. O árbitro deu rapidamente conta do sucedido, a situação foi corrigida e o jogo prosseguiu. No final, o Leiria anunciou ir protestar o jogo. (Claro! Só faltou aos seus dirigentes dizerem: “Se tivéssemos ganhado, protestávamos na mesma...”. Nós sabemos!)

Há uns bons anos, vai para quase meio século, uma seleção portuguesa foi a Goiânia, no Brasil, para um jogo com o “escrete canarinho”, para inauguração de um estádio. Era selecionador nacional José Maria Pedroto. 

Num certo momento do jogo, também por uma confusão, aquando de uma lesão de um jogador (que foi logo substituído, mas que, não tendo notado isso, regressou ao campo), Portugal passou a jogar, por alguns minutos, com 12 jogadores. 

Das bancadas começaram a ouvir-se fortes protestos. No banco português, que não tinha dado conta do lapso, estranhando o que entendeu ser um deselegante bruá anti-luso, tanto mais tratando-se de um jogo “amistoso” (entre nós, “amigável”), o selecionador enfureceu-se e ameaçou que a equipa nacional interromperia o jogo e recolheria ao balneário. 

Ao que parece, teve de vir da tribuna até ao banco o chefe da delegação portuguesa, para convencer Pedroto, sob o olhar preocupado do embaixador português, Vasco Futscher Pereira. 

Foi graças à intervenção desse vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol que o assunto se resolveu. Deixo aqui o nome desse dirigente futebolístico, que ali ganhou o seu lugar no memorial nacional, para que conste: Marcelo Rebelo de Sousa.

Eduardo Cabrita



Escrevi, há tempos, um texto em que dizia isto sobre Eduardo Cabrita. Em tempos de “assédio” ao ministro, por parte da oposição, aqui repito:

“Há muito que se notou que Cabrita é um mal-amado da comunicação social, que nunca pareceu simpatizar com o estilo do ministro, que admito possa ser lido como algo pomposo, quiçá arrogante. Cabrita não promove a captura charmosa dos média, mostrando-se sempre muito afirmativo e distante, projetando a ideia de que tem poucas dúvidas nos caminhos que segue. Acresce que as ironias políticas, que às vezes ensaia publicamente, não parece fazerem parte sua especialidade, embora se diga que, em privado, é um homem com sentido de humor.

Porque governa em minoria, mas também por estilo próprio, António Costa rodeia-se de pessoas sobre as quais possa exercer forte autoridade política e, em muitos casos, em quem tem grande confiança pessoal. É sabido que Cabrita faz parte, há muito, do círculo próximo do primeiro-ministro. No plano operativo, é o que os anglo-saxónicos chamam um "trouble shooter", em português corrente, um "carregador de pianos", disponível para tarefas difíceis. Quem o conhece sabe que é um político com elevado sentido de serviço público, de uma integridade à prova de bala.”

Deixo aqui um abraço solidário ao Eduardo Cabrita.

Precedências


Quem fica à frente de quem numa cerimónia pode parecer uma questão bizantina para um observador comum, mas não o é para quem conhece as questões institucionais. 

A ordem de precedências repercute a hierarquia de poderes. Por alguma razão, por muitos anos, depois do 25 de abril, a lista de precedências das autoridades do Estado esteve “congelada”: a ausência de consenso em matérias que metiam presidência de tribunais superiores, chefias militares e um certo tipo de governantes, por exemplo, criou muitas dificuldades. 

Pelo caminho, ficavam outras questões polémicas, como o lugar das autoridades religiosas ou o gesto, que alguns consideram dever ser feito, ao familiar em linha direta da última família que titulou a monarquia. Mas lá se chegou a um consenso relativo, com alguns restos de ambiguidade pelo meio.

Se, ao nível nacional, as coisas têm esta delicadeza, no plano externo o tema assume uma imensa complexidade, porque pode significar desigualizar os países. Mas é também uma questão sensível no âmbito das organizações internacionais.

Há semanas, assistimos à cena da presidente da Comissão Europeia, na Turquia, ter sido privada de um lugar equivalente, em precedência, ao do seu colega presidente do Conselho Europeu, com este último a assumir o “faux pas” de deixar que a cena se passasse como se passou. O famigerado Tratado de Lisboa é um dos culpados de isto acontecer, para além de outras coisas más, entre as poucas boas, que trouxe à vida europeia.

Passaram mais de duas décadas anos, pelo que acho que já posso contar uma história ocorrida no Conselho Europeu de Lisboa, em março de 2000, bem antes daquele tratado.

Depois de um almoço do Conselho Europeu, com os primeiros-ministros, iam reunir os ministros dos Negócios Estrangeiros dos então “quinze”. 

A certa altura, no caminho para a reunião, naquele espaço junto à Junqueira, senti que alguém me metia o braço: era Javier Solana, desde há meses Secretário-Geral do Conselho e Alto-Representante para a Política Externa e de Segurança Comum. 

Eu sabia que ele não andava muito bem disposto. Na noite anterior, tinha tido um dissídio com o nosso Diretor-Geral de Política Externa, o embaixador João Salgueiro, que me tinha obrigado a sair de casa, cerca da uma da manhã, para ajudar superar o problema - uma questão que, a esta distância, já esqueci qual era.

Javier também vinha desagradado com o lugar que lhe tinha sido dado à mesa do almoço. Reagi, bem humorado: “Hombre! Te quedaste a mi lado!” O problema dele era o facto de estar “menos bem” colocado do que Chris Patten, o comissário que tinha a seu cargo as Relações Externas: o eterno problema Conselho vs Comissão. E perguntou: “Agora, na reunião, fico à direita ou à esquerda do Jaime (Gama)?”. Disse-lhe, francamente, que não sabia. 

Chegámos à sala, fui para o lugar de Portugal (era Jaime Gama quem presidia à reunião, pelo que eu chefiava a nossa delegação). Vi o “sitting arrangement” da cabeceira do Conselho e constatei que Patten se sentava à direita de Gama. Olhei para o outro lado e lá estava Solana. Cruzou o olhar comigo, à distância, e levantou os braços ao céu, como que a exclamar: “Estás a ver isto?!”. Eu fiz um gesto com as mãos, de que nada podia fazer. E lá se fez a reunião dos chefes da diplomacia europeia. 

Acabou tudo em bem, creio eu!

O outro 25

Se a manifestação dos 50 anos do 25 de Abril foi o que foi, nem quero pensar o que vai ser a enchente na Avenida da Liberdade no 25 de novem...