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quarta-feira, abril 10, 2024

Lembrei-me da tia Zé


Cheguei esta tarde a Praga. Numa conversa telefónica com um amigo, há minutos, quando lhe disse onde estava, ele retorquiu-me: "O que é que estás a fazer em Braga?". Tinha ouvido mal. Com a idade, a começar nele e a acabar em mim, todos ouvimos pior.

A minha tia Zé, uma das irmãs mais velhas do meu pai, ouvia bastante mal. 

Estávamos em torno da televisão, em agosto de 1968, em Viana do Castelo. 

As imagens eram da entrada das tropas soviéticas em Praga, com a subida dos tanques pela praça Venceslau, um arremedo da Avenida dos Aliados, sob protestos populares.

A tia Zé vivia, desde sempre, num mundo diferente, um pouco alheado, distante daquele que nos mobilizava em frente ao televisor. Não era dada a seguir eventos noticiosos, nem sentia estímulo para participar em quaisquer conversas que excedessem o quadro familiar ou das amizades.

Por uma vez, porém, os nossos comentários e exclamações, bem como a notória brutalidade do que observava, tê-la-ão feito compreender que alguma coisa não ia bem, lá pelo mundo exterior.

A certo ponto, numa pausa do noticiário, ao entrar na sala com o tradicional café de saco, de cuja feitura não prescindia, a velha senhora deixou escapar: "As coisas estão mal lá por Braga, não estão?"

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