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terça-feira, maio 11, 2021

Do Sporting


Por que é que sou do Sporting? Sou do Sporting porque não sou do Benfica, poderia responder. 

Quando a opção clubística se me terá colocado, nos anos 50, o país dividia-se entre os dois clubes. O Porto tinha uma expressão acentuadamente regional e só a Académica, em especial para quem tinha passado por Coimbra, e o Belenenses, que funcionava como uma terceira, sofisticada e quase aristocrática terceira opção lisboeta, convocavam alguns adeptos e juntavam fiéis. 

Sporting e Benfica disputavam então, quase taco a taco, a liderança nacional, com o Porto ainda a uma imensa distância. Depois era quase o deserto. Nem o Braga nem o Boavista, que, décadas depois, viriam a dar um ocasional ar da sua graça, tinham uma existência relevante no panorama do futebol nacional.

Pela província, havia, claro, preferências locais, mas não havia nenhum adepto dessas agremiações que não tivesse um clube “grande” como referência da sua afetividade nacional. Eu “era” do Sport Clube de Vila Real, o meu pai era adepto do Vianense. O rival do meu clube local era o Desportivo de Chaves, o meu pai não gostava do Braga. Mas éramos ambos do Sporting.

Em Vila Real, onde vivíamos, os benfiquistas estavam em maioria, mas havia imensos adeptos do Sporting. Os portistas eram então muito poucos. Passei a ser “do” Sporting, imagino, porque aconteceu o meu pai ser, desde a juventude, adepto do Sporting. Estou em crer que, acaso ele fosse do Benfica, talvez eu tivesse ido por aí. 

Aqui chegados, o que significa continuar a ser, décadas depois, adepto (e associado, como é o meu caso) do Sporting? 

Da sua rivalidade a par do Benfica, nesses meus primeiros tempos de adepto, o Sporting veio a entrar num inegável declínio, a nível de títulos, deixando-se “atrasar”, a nível nacional, face ao Benfica, com este a somar ainda alguns êxitos externos muito significativos. 

O Porto, entretanto, começou a crescer e, com o passar dos anos, veio a afirmar-se como uma força, não apenas nacional, mas mesmo com êxitos internacionais hoje sem igual em Portugal. O Porto chegou, sem a menor dúvida, à liderança do futebol nacional e, na nossa história interna, ganhou uma evidente primazia face ao Benfica - mas não me quero meter na “guerra” entre os dois clubes, que não é a minha.

Como sportinguista, aproveito para dizer, nunca tive o Porto como um clube rival. A única rivalidade que verdadeiramente sempre senti foi com o Benfica. Talvez isto tenha a ver com a idade, com o “histórico” da minha pertença afetiva ao clube e ao seu adversário clássico. Mas, devo confessar, talvez por isso, as Antas ou o Dragão nunca fizeram parte do meu imaginário competitivo. Por isso, as vitórias ou derrotas do Porto, não me deixando indiferente, marcam-me muito pouco. 

Alguns amigos sportinguistas estarão a pensar, chegados a este ponto do texto, que subestimo aqui o incomparável ecletismo desportivo do Sporting, área em que o clube nunca perdeu a liderança nacional. Numa imensidão de modalidades, no passado como no presente, o Sporting tem um palmarés que é único e incontestável. Mas, deixemo-nos de “diversões”: para o que na verdade conta, na expressão relativa de força dos clubes nacionais, é do futebol sénior que falamos.

Os sportinguistas da minha geração, com os anos, desabituaram-se, a certa altura, de ganhar títulos com regularidade. Íamos sendo campeões a espaços, com um êxito aqui ou ali. A regra era não ganhar, a vitória passou a ser uma exceção. 

Se, para essa minha geração, ainda havia um passado forte em vitórias lá no fundo, para os mais novos, a realidade era e é bem menos brilhante. Devo dizer que, por isso mesmo, tenho uma profunda admiração pelas gerações mais novas de sportinguistas, que hoje se prendem afetivamente a um emblema que só episodicamente lhes dá as alegrias que outros têm com maior frequência. Acho tocante que preservem essa fé na ocorrência de uma vitória com sabor forte, que o tempo lhes provou ir sendo apenas a espaços.

Foi nesse cenário de vitórias episódicas que fui ganhando, sem qualquer “teatro” da minha parte, aquilo que é o meu orgulhoso sportinguismo. Ao longo destes muitos anos “de casa”, confesso que, embora não me agradando, consegui viver sempre, sem excessivo sofrimento, a saída desse tempo de vitórias regulares para o surgimento de um outro tempo em que, de quando em quando, surge um saboroso êxito. 

Cada um é adepto à sua maneira. Conheço sportinguistas que são muito diferentes de mim: na emoção, na competitividade, na garra. Eu sou como sou. Gosto imenso que o Sporting ganhe, fico muito contente por um título poder ser obtido no meio desta quase insuportável pandemia. Em especial, satisfaz-me ver hoje tantos miúdos vestidos de verde, cor da esperança que põem na hipótese do Sporting voltar à liderança desportiva no país. As vitórias do Sporting são-lhes dedicadas. Estou assim com eles nesta felicidade conjuntural, embora uma vida como sportinguista me tenha moldado as emoções a um “possibilismo” que, evitando arrastar-me para o sofrimento, convoca em mim uma alegria ainda maior e mais saborosa quando as vitórias acontecem. Vivo muito bem assim, não trocaria esta minha forma de afetividade pelo Sporting por nenhuma outra. 

Sporting sempre!

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