"Guardo (...) um almoço magnífico com o Carlos Antunes, organizado pelo António Dias, também com o José Manuel Correia Pinto, no restaurante do Teatro Aberto, numa data do início do século que não consigo precisar. Foram quase três horas memoráveis (o restaurante queria fechar e nós continuávamos vidrados na conversa), com o Carlos, naquele seu jeito suave e envolvente, a contar-nos os seus tempos da clandestinidade, de Bucareste a Paris, de Argel a Moscovo, com histórias passadas em reuniões com Álvaro Cunhal, em países do Leste europeu, quando ainda andava nas águas do PCP. Fiquei com pena de não ter ali um gravador, porque só aquilo tinha dado um livro muito interessante. Depois disso, várias vezes o estimulei a um exercício desse género, com o qual a história da oposição à ditadura e das dissidência do PCP muito ganhariam. Não sei se o fez."
Constato agora, com agrado: fez. Acaba de sair o livro "Carlos Antunes - Memórias de um revolucionário", fruto de uma conversa gravada com Isabel Lindim.
O meu amigo Carlos Antunes morreu, com o vírus, em janeiro de 2021. Sinto falta da sua voz, nas noites e nos jantares do Procópio. A nossa última conversa foi ao telefone. Na sequência de uma ida minha a Argel, escrevi por aqui algumas notas sobre esse local de exílio dos anti-fascistas. O Carlos, com amizade, veio corrigir-me algumas imprecisões. E acrescentou: "Temos de almoçar!" Nunca mais almoçámos.
