Nunca esquecerei as palavras que António Coimbra Martins me disse quando, semanas depois de eu ter chegado a Paris, em início de 2009, para ocupar o cargo de embaixador, o recebi à porta da nossa residência, num dia em que o convidei para almoçar, a dois: “Nunca tinha sido apresentado ao senhor embaixador mas, pelos muitos amigos comuns que temos e que me falam de si, é como se o conhecesse há muito”.
Eu também conhecia o seu nome, e bem. António Coimbra Martins fora a personalidade escolhida pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, para ser o primeiro embaixador em França, após o 25 de Abril, do novo Portugal democrático, cargo que desempenhou por quase cinco anos.
Com uma longa e prestigiosa carreira académica, tinha exercido a chefia da delegação da Fundação Calouste Gulbenkian na capital francesa, nos anos 60. Na política democrática, tendo feito parte da ASP (Ação Socialista Portuguesa), movimento que antecedeu a criação do PS, viria a ser ministro da Cultura, deputado à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu.
Durante o tempo em que ocupei a casa que já havia sido sua, foi sempre de uma extrema atenção para comigo. Eu brincava com o facto de ele ter sido, em tempos, deputado por Vila Real, pelo PS, num daqueles arranjos políticos em que os partidos são mestres, dizendo que isso lhe dava mais “direitos” do que o ter-me antecedido no cargo, porque essa função o tinha convertido em “transmontano honorário”. Ele gracejava, dizendo que, um dia, eu tinha de mostrar-lhe bem a minha terra, que ele representara politicamente.
Devo-lhe conselhos utilíssimos, para o cargo que exerci. Era um homem com uma expressão que, à partida, podia parecer algo grave e pomposa, o que era acentuado pelo seu tom de voz, mas que logo se desfazia num desconcertante humor, quando comentava as coisas da vida e da política. Vale a pena ler as suas memórias, “Esperanças de Abril”.
Soube, há minutos, que Coimbra Martins morreu hoje, em Paris, aos 94 anos. Foi no quadro de uma atividade da Fundação Calouste Gulbenkian que, há poucos anos, me levou a Paris, que tive o ensejo de estar com ele, pela última vez. Sinto muito a sua morte, digo com a maior sinceridade, porque era uma pessoa por quem tinha grande consideração e forte estima, que sabia retribuída. Envio os meus sentimentos à sua família.
