sexta-feira, 21 de maio de 2021

O Bloco e a esquerda

O Bloco de Esquerda parece não entender que, sem sentido de compromisso, pode vir a tornar-se irrelevante, até ao fim da legislatura. O PS tudo fará para dar relevo à “influência” do PCP nas medidas “de esquerda” que o governo vier apresentar para aprovar orçamentos, pescando ainda para isso, se necessário, alguns votos desgarrados, do PAN e outros. Ao Bloco resta tentar uma “cunha” dos seus “aliados” dentro do PS, mas isso pode acabar por se revelar “sapatos de defunto”.

5 comentários:

Jaime Santos disse...

O problema dos Partidos de Esquerda, pelo menos ao nível retórico, é continuarem a não perceber que o PS é como é também porque os seus eleitores, entre os quais eu me incluo, gostam dele assim.

Se eu quisesse um Partido que governasse com uma política socialista, votaria no Bloco ou no PCP-PEV. E julgo que a vasta maioria dos votantes do PS pensa exactamente como eu, mau grado sabermos que o PS, mesmo sendo um Partido de gente razoavelmente decente, com princípios decentes e que governa de maneira decente, é pródigo em argoladas quando está no Poder...

Por isso, não deixei de sorrir quando Catarina Martins disse aqui atrasado que a missão do Bloco era obrigar o PS a virar à Esquerda. Doutora, no dia em que o PS alinhar em frentismos, a Esquerda nunca mais é Poder em Portugal. E nesse dia, o Partido que dirige passa a ter poder negocial nulo...

Assim sendo, nesta negociação, contam os princípios de cada Partido, por muito que isso desagrade ao Bloco, mais a força eleitoral de cada um (o PCP, cuja missão se resume a resistir, percebe isto bem melhor). E isso quer dizer que quem tem menos força deve ceder mais. Não precisa de capitular, mas uma negociação com linhas vermelhas por parte do Bloco não é uma negociação, é uma chantagem.

E se o Governo cair, os eleitores de Esquerda não deixarão de tirar as conclusões que daí seguem relativamente às responsabilidades de cada um na sua queda. Das três uma, ou o PS ganha as eleições antecipadas que se seguirão com maioria absoluta, ou a situação se mantém como está, mais coisa ou menos coisa, ou a Direita (em que se incluirá o Chega) governará com uma Gerigonça à açoriana.

Não me parece que o Bloco tenha algo a ganhar com qualquer destes cenários, e perde definitivamente em dois deles...

Luís Lavoura disse...

pode vir a tornar-se irrelevante, até ao fim da legislatura

Tanto o Bloco de Esquerda como todos os outros partidos da oposição têm que se preocupar em ganhar votos nas próximas eleições. Se o preço para isso é serem irrelevantes até ao fim da legislatura, seja.

O PS tudo fará para dar relevo à “influência” do PCP nas medidas “de esquerda” que o governo apresentar

Pois, mas isso não evitará, pelo contrário, possivelmente fará com que o PCP perca nas próximas eleições ainda mais votos do que aqueles que já perdeu até agora.

Titus Adrianus disse...

A malta simpatizante do PS sempre foi anti-BE. É sabido, conhecido. Tal como o autor deste Blogue. Costa e quejandos (Centeno, etc) gostam de hostilizar o BE. Porque sabem que o BE poderá absorver algumas franjas (significativas) do PS. Quanto aos supostos “esquerdistas” do PS e seus potenciais arranjos com o BE, são daquelas teorias que não interessam nem às moscas.
Há uma coisa que importa nestes cenários: é que só com Governos PS, PSD, CDS e já agora, no futuro, IL e Chega, os trastes da Banca (corrupta, incompetente e vigarista) – numa atitude Neoliberal (de que o PS não se livra de o ser), se salvam Bancos. Ou seja, os Banqueiros podem ficar sossegados e eles sabem bem disso, que com Governos “fofos "de Direita - PS/PSD/CDS/IL/Chega – os cofres do Estado lá irão transferindo milhões atrás de milhões, ou melhor, de mil milhões (a conta – calada – já vai a em mais de 22 mil milhões de EUR!!!) para os salvar. E mesmo com incompetências de gestão, com resultados negativos de milhares de milhões, se auto-premeiam com vários milhões, isto tudo com a aquiescência do Governo (no caso do PS/Neoliberal, mas podia ser outro, Passos, Rio, Chicão, Cotrim Figueiredo, Ventura, etc).
Já o BE e o PCP e até o PAN, jamais pactuariam com semelhante estrumeira, pois é disso que se trata. E não me venham - como esse arauto do “Neoliberalismo-social”, o Sr. Centeno e seu “primo” António Costa – com conversas da treta de que se assim não fosse, a situação bancária seria sistémica. É discurso de imbecil para enganar tolos e justificar a patifaria de se ter enterrado 22 mil milhões de EUR na Banca, sendo que cerca de 9 mil milhões foram directamente para o BES e a sua nova versão, o Banco Novo.
Como dizia atrás, ao menos nem o BE, nem o PCP pactuariam com semelhante ultraje aos contribuintes. Nacionalizar esses Bancos e assumir os prejuízos de alguns, só alguns, depositantes, não os que são credores de milhões que deram azo a essa obscenidade das dívidas, sairia sempre, mas sempre, mais barato aos contribuintes do que já se gastou, directa e indirectamente (através do Fundo de Resolução) a essa cáfila.
Enfim, o PS no seu pior.
Tito Adriano

Francisco Seixas da Costa disse...

Titus Adrianus. A “malta simpatizante do PS” é, como diz, “simpatizante do PS”. Por algum razão o não é do Bloco ou do PCP. A seriedade que a sua fórmula “PS/PSD/CDS/IL/Chega” encerra diz tudo. Quanto ao resto das efabulações do seu texto, levo-as à conta do desespero.

Jaime Santos disse...

Sr. Tito Adriano, por quem é?

Tem toda a razão, eu quis que o BES fosse salvo porque por acaso estava lá depositado o meu dinheiro. Não o de um grande depositante, mas o de uma pessoa que vive do seu salário. E como eu estão imensas pessoas de classe média que pagam impostos e sustentam o sistema em que vivemos e que graças às transferências sociais, permite reduzir a taxa de pobreza de 40 e tal para 18 por cento.

É isto o PS (o criador do SNS e do RMG) no seu pior.

O Estado existe, para a classe média que paga impostos, também para lhe proteger as poupanças, inclusive de desvarios inflacionistas da Esquerda radical.

Da última vez (e única) que o PCP e os seus compagnons de route geriram a Economia, o Dr. Mário Soares a seguir teve que ir chamar o FMI (e o Doutor António Barreto para liquidar a Reforma Agrária com o zelo de um converso, que foi a única coisa útil para que tal personagem, ex-militante comunista, alguma vez serviu).

Que se saiba, nos lugares em que a receita socialista preconizada por PCP e BE foi aplicada (onde se inclui a França de Mitterrand nos idos de 1981) as coisas não correram lá muito bem.

Muito pior do que em qualquer das crises geradas pelo capitalismo incompetente e rentista característico deste nosso rectângulo.

Eu creio que o Sr. Embaixador, que defendeu em tempos, se bem percebo das suas crónicas, uma tal política dita de desenvolvimento nacional o poderá elucidar melhor do que eu sobre o falhanço dessas soluções que ainda andam na boca dos nossos Partidos de Esquerda.

E a nossa gestão pública também não tem sido famosa (vide o que se passou na CGD) e não me venha dizer que os gestores nomeados pelo BE e pelo PCP-PEV fariam melhor trabalho que Armando Vara e quejandos, porque eu rio-me na sua cara, quem quer que seja.

E não, não o estou a mandar para a Venezuela. A sua crítica de um projecto político é acompanhada da defesa de um outro bastante pior... Catarina Martins e Francisco Louçã nem sequer são capazes de dizer de onde virá o dinheiro necessário às nacionalizações que preconizam (aliás, nem sequer são capazes de nomear os custos de tal coisa). Acaso não tenha reparado, o confisco é proibido pela CRP, com que BE e PCP-PEV tanto gostam de encher a boca... Justamente, já não vivemos em 1975...

A política faz-se de mais do que de exibições de escândalo moral, como aquelas com que a Doutora Mortágua nos gosta de presentear na AR... Faz-se de projectos políticos concretos em que se elencam medidas com os seus benefícios e os seus custos e riscos.

O resto é demagogia e leninismo da pior espécie.

Mas tem bom remédio. Convença os eleitores de Esquerda a votarem no seu projecto e talvez o possa implementar. É que, para citar um cartaz do pós 25 de Abril, 15% não é nenhuma maioria...

Por agora, olhando para as sondagens, vejo duas alternativas à situação vigente em que a Dra Catarina Martins e o Jerónimo de Sousa podem, apesar de tudo, ter alguma influência na Governação.

A primeira é uma maioria absoluta do PS, coisa que depois da experiência socrática é pouco provável e quiçá pouco recomendável. A segunda é uma maioria de Direita em que o Chega participará e que, ou muito me engano, fará o Governo de Passos-Portas parecer um piquenique.

Por isso, como dizem os franceses, a vous de choisir...

Acha injusto? Porventura, mas é a vida...