sábado, 22 de maio de 2021

Presciência


Um dia, ao tempo em que exercia funções no governo, recebi no meu gabinete o embaixador de Israel em Portugal. Vinha despedir-se, no termo do seu mandato.

Poucos meses antes, em Jerusalém, ambos havíamos estado num almoço que o então primeiro-ministro israelita, Itzahk Rabin, ofereceu, em sua casa, ao presidente português, Mário Soares.

O primeiro-ministro israelita seria assassinado no dia seguinte àquele almoço. A partilha desse momento, que evocávamos com alguma emoção, criara entre nós uma relação especial.

Rabin e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Shimon Peres, eram a face de um projeto de paz que os americanos, ao tempo de Bill Clinton, se tinham esforçado por pô-los a negociar com a Autoridade Palestina, representada por Yasser Arafat. Porém, num daqueles terramotos políticos em que a vida israelita é pródiga, semanas antes, tinha havido eleições legislativas e os social-democratas, “orfãos” de Rabin, haviam sido derrotados pela direita.

Benjamim Netanyahu acabava de ser nomeado primeiro-ministro. O embaixador cessava as suas funções, creio que por ter atingido a idade da reforma.

Ser embaixador de Israel pelo mundo nunca é uma tarefa fácil. Ele fora-o, com brilho, em Lisboa, num tempo de forte esperança de que uma paz entre Israel e a Palestina estivesse ao alcance da boa vontade.

Contudo, com o desaparecimento de Rabin, os sinais que nos chegavam não eram muito animadores. Netanyahu tinha sido eleito com uma agenda política que confrontava alguns dos caminhos laboriosamente abertos pela coragem de Rabin.

O embaixador ofereceu-me um livro de Amos Oz, que tinha acabado de ser publicado em português. Trocámos algumas palavras, que iam para além da amabilidade protocolar, desejando-lhe todas as felicidades pessoais. Fui levá-lo até ao carro, no pátio do Palácio da Cova da Moura, onde se situava o meu gabinete.

Lá chegados, perguntei-lhe que mudanças a vitória do Likud podia vir a induzir no processo de paz que, pelo menos no papel, parecia ainda poder subsistir.

Otimista por dever de ofício, disse-lhe que não nos podíamos esquecer que o mais corajoso passo político que o mundo testemunhara, por parte de um governo israelita - o tratado de paz com o Egito - fora dado precisamente num governo Likud. Seria Netanyahu capaz de titular uma "paz dos bravos"?

Notei que embaixador me olhou de um modo estranho. Fez um ricto facial que não me pareceu dever-se ao sol que lhe banhava a cara. Foi então que notei algumas lágrimas a surgirem-lhe nos olhos.

Agarrou-me o braço com força e, com visível dificuldade, contendo uma emoção que se lhe sentia muito profunda, disse: "Meu querido amigo. Provavelmente, não deveria estar a dizer isto, mas vou dizer-lhe: com a eleição de Netanyahu, o meu país entrou no caminho da tragédia. Qualquer paz é impossível com ele. Ouça o que eu lhe digo! Não o conhecem!".

E, depois de me dar um abraço forte, entrou, já em silêncio, no carro. Nunca mais o voltei a ver. Nos últimos anos, tenho-me lembrado da sua presciência.

1 comentário:

AV disse...

História interessante. Talvez não tenha sido só presciência.
O excelente review de Adam Shatz (*) sobre a biografia de Netanyahu escrita por Pfeffer expõe como a personagem de Netanyahu reflecte os paradoxos que estão na base de Israel.
Não quebrou o molde que o contexto e tragédia familiares criaram; pelo contrário, ampliou-o.

(*) London Review of Books: https://www.lrb.co.uk/the-paper/v40/n16/adam-shatz/the-sea-is-the-same-sea