quinta-feira, 13 de maio de 2021

O silêncio dos Borges


Há pouco, li uma citação de Jorge Luís Borges: “No hables a menos que puedas mejorar el silencio”. E ao ver o nome Borges associado à palavra silêncio, vieram-me à memória duas figuras que faziam parte do meu cenário de infância e juventude, em Vila Real: os “Borginhos”.

Eram dois irmãos, gémeos, franzinos, de estatura pequena, de uma família relevante na cidade. Ambos eram engenheiros técnicos, ambos trabalhavam na Junta Autónoma de Estradas. 

Lembro-me deles sempre vestidos de escuro, muitas vezes pelos corredores do Club de Vila Real. Muito discretos e reservados, eram pessoas bastante consideradas. Eu, confesso, não distinguia um do outro. Como tinha uma parte da minha família na mesma área profissional dos “Borginhos”, falava-se bastante deles lá por casa. Sempre bem, diga-se.

Há tempos, dei-me conta de que um dos “Borginhos”, Filipe (o outro chamava-se José Manuel), tinha sido um excelente fotógrafo amador. Uma nota do Museu do Som e da Imagem da cidade dá-os a ambos envolvidos na “fundação do Sport Clube e do Circuito de Vila Real, dividiram o interesse pelo coleccionismo, pelas artes, pela arquitectura, pela heráldica, pelos desportos motorizados”.

Ao que se dizia, o pai desses dois irmãos, o senhor Borges, era uma pessoa muito parcimoniosa nas palavras ou, para utilizar linguagem comum, um homem de poucas falas. O silêncio seria cultivado entre ele e os filhos, sendo frequentemente vistos os três a passear pela cidade, sem falarem entre si. É talvez um mero mito, mas dele nasceu uma inocente historieta que sempre ouvi.

Um dia, na viragem entre os séculos XIX e XX, o senhor Borges e os seus dois filhos teriam ido passear para o Jardim da Carreira, então um muito frequentado local de lazer de Vila Real.

À entrada no portão, um dos “Borginhos” terá comentado: “Quer-me parecer que hoje vai chover!”. Sem que esta afirmação tivesse desencadeado qualquer conversa, o trio terá continuado, silencioso, a percorrer as duas centenas de metros que vão até à fonte no fundo do jardim. 

Lá chegados, o outro gémeo terá dito: “Não vai chover! Vai estar sol todo o dia.” A esta frase, que, no fundo, contestava a que o irmão tinha dito minutos antes, voltou a suceder-se um silêncio. Silêncio que se prolongou no regresso, até ao portão, que viriam a atravessar minutos mais tarde. 

Terá sido então nesse instante de chegada à rua que o pai Borges terá dito: “Os meninos já sabem que eu não quero ouvir discussões entre vocês!”. E, dado o raspanete, lá seguiram, até casa. Em silêncio. No silêncio dos Borges.

5 comentários:

Flor disse...

Eu estava á espera que o pai por fim dissesse: Afinal não choveu! Enfim, não quis entrar na discussão dos meninos. Mais valia estar calado.:)

Tony disse...

Borges & Irmão e Companhia. Grande e barulhento "triálogo". Não fora, terem sido chamados à atenção, por certo, haveria discussão e da grossa. Os manos davam para Beneditinos de Clausura.

maitemachado59 disse...

Eram ricos, os Brges? Diz-se que o silencio e de oiro ...

maitemachado59

Margarida Palma disse...

Imagino um passeio, depois de jantar, pelo Jardim da Carreira, que nem sei se ainda existe,

visito o clube onde certamente, ao longo de anos, "cavalheiros" locais se foram entreter

jogando cartas, discutindo política, naquela espécie de rotina que dá sua espessura ao tempo.

E, pelas ruas, encontro os deliciosos Borginhos, agora parte da cidade, para sempre.

Toda uma atmosfera, todo um ambiente...

Belo texto.

Unknown disse...

Sou um bisneto dos Borginhos, é normal, se calhar até falaram demais, também sou assim e compreendo perfeitamente o desespero e o raspanete do pai!
Cumprimentos, José Borges