Há pouco, li uma citação de Jorge Luís Borges: “No hables a menos que puedas mejorar el silencio”. E ao ver o nome Borges associado à palavra silêncio, vieram-me à memória duas figuras que faziam parte do meu cenário de infância e juventude, em Vila Real: os “Borginhos”.
Eram dois irmãos, gémeos, franzinos, de estatura pequena, de uma família relevante na cidade. Ambos eram engenheiros técnicos, ambos trabalhavam na Junta Autónoma de Estradas.
Lembro-me deles sempre vestidos de escuro, muitas vezes pelos corredores do Club de Vila Real. Muito discretos e reservados, eram pessoas bastante consideradas. Eu, confesso, não distinguia um do outro. Como tinha uma parte da minha família na mesma área profissional dos “Borginhos”, falava-se bastante deles lá por casa. Sempre bem, diga-se.
Há tempos, dei-me conta de que um dos “Borginhos”, Filipe (o outro chamava-se José Manuel), tinha sido um excelente fotógrafo amador. Uma nota do Museu do Som e da Imagem da cidade dá-os a ambos envolvidos na “fundação do Sport Clube e do Circuito de Vila Real, dividiram o interesse pelo coleccionismo, pelas artes, pela arquitectura, pela heráldica, pelos desportos motorizados”.
Ao que se dizia, o pai desses dois irmãos, o senhor Borges, era uma pessoa muito parcimoniosa nas palavras ou, para utilizar linguagem comum, um homem de poucas falas. O silêncio seria cultivado entre ele e os filhos, sendo frequentemente vistos os três a passear pela cidade, sem falarem entre si. É talvez um mero mito, mas dele nasceu uma inocente historieta que sempre ouvi.
Um dia, na viragem entre os séculos XIX e XX, o senhor Borges e os seus dois filhos teriam ido passear para o Jardim da Carreira, então um muito frequentado local de lazer de Vila Real.
À entrada no portão, um dos “Borginhos” terá comentado: “Quer-me parecer que hoje vai chover!”. Sem que esta afirmação tivesse desencadeado qualquer conversa, o trio terá continuado, silencioso, a percorrer as duas centenas de metros que vão até à fonte no fundo do jardim.
Lá chegados, o outro gémeo terá dito: “Não vai chover! Vai estar sol todo o dia.” A esta frase, que, no fundo, contestava a que o irmão tinha dito minutos antes, voltou a suceder-se um silêncio. Silêncio que se prolongou no regresso, até ao portão, que viriam a atravessar minutos mais tarde.
Terá sido então nesse instante de chegada à rua que o pai Borges terá dito: “Os meninos já sabem que eu não quero ouvir discussões entre vocês!”. E, dado o raspanete, lá seguiram, até casa. Em silêncio. No silêncio dos Borges.
