terça-feira, março 21, 2023

Tamames e Cavaco


A maioria dos leitores deste espaço está farta (não sei se a palavra é bem escolhida) de saber quem é Cavaco Silva, mas o mais certo é que muitos ignorarão o nome de Ramón Tamames. 

E, isso com absoluta certeza, não fazem a menor ideia da razão por que eles aparecem juntos no título deste texto.

Começo por deixar uma pista: ambos são economistas. 

Cavaco Silva, agora com 83 anos, esteve em recente evidência, por ser o quarto (contei bem!) dos antigos líderes do PSD que, nas últimas semanas, surgiram a terreiro a atacar o governo PS, substituindo-se ao presidente atual do partido, o qual, coitado!, se debate com as aparições destas figuras "sombra", que assim contribuem para a sua dificuldade de afirmação.

Ramón Tamames é um caso de transmutação política radical. Quase patética. Depois de ter sido um opositor ao franquismo, tendo estado nas prisões da ditadura, ingressou no Partido Comunista nos anos 50, após o que iniciou um inexorável percurso para a direita. Agora, nas últimas horas, acaba de surgir como o putativo "primeiro-ministro", proposto pela extrema-direita, pelo VOX, por ocasião da apresentação da moção de censura, nas Cortes, ao governo socialista. Aos 89 anos...

Cavaco e Tamames são duas velhas figuras da direita, opostas aos dois líderes socialistas ibéricos. É isso? 

Não, não é apenas isso. 

Em 1975, quando fiz concurso pública para entrar para a diplomacia, tive como arguente, na prova oral de Economia Política, um jovem professor, convidado pelo MNE, recém-regressado do seu doutoramento em Inglaterra. Chamava-se Aníbal Cavaco Silva. 

Para esse exame, lembro-me muito bem, estudei um único livro: "Estrutura da Economia Internacional". Autor: Ramón Tamames, à época um óbvio marxista. 

Foi com base no que aprendi no livro de Tamames que Cavaco Silva me aprovou. E como ele nunca se engana...

10 comentários:

manuel campos disse...


Tenho este livro com esta capa, a capa foi mudando com as actualizações.
Só que o meu deve valer mais 1€ aí nos alfarrabistas porque não tem aquela pseudo-vinheta, é mesmo a 1ª edição.
Como não o tenho aqui, não posso ir ver quando foi editado entre nós, mas tenho ideia que foi no tempo "da outra senhora".

A 1ª edição em castelhano do livro é de 1970, portanto ainda no tempo de Franco todo-poderoso (só em 1973 foi "largando" algum poder).
Portanto o livro não era nem é o de um "marxista", está bem disfarçado, senão duvido que fôsse publicado por lá, até mais que por cá apesar de tudo.

Mas claro que a "ideia" do seu texto é clara e "ben trovata".
E sobre isso raramente me engano e nunca tenho dúvidas.

PS- Já se falou deste livro por aqui há uns meses.

Anónimo disse...

Ui…e os igualmente históricos do partido socialista, alguns dos quais também fazem comentário político e, por isso , volta e meia proferem a sua opinião, legítimo certamente mas, por isso mesmo o critério deverá ser o mesmo, não? Democracia, aceitarão pensamento diferente, pluralidade…ou estas são princípio que apenas só se um sentido?

Unknown disse...

Essa fixação pelo Cavaco está, diria, um bocado démodé. Agora uma esquerda forte zurziria no Marcelo, mas para esse, que se mexe muito, sente-se impotente...

Luís Lavoura disse...

nas últimas horas, acaba de surgir como o putativo "primeiro-ministro", proposto pela extrema-direita, pelo VOX

Curiosamente, também em Portugal nos últimos tempos se têm registado coincidências crescente entre as posições do Chega e as da extrema-esquerda.

Tony disse...

Tamames, Primeiro ministro com 89 anos? E esta hem!. O formol, faz milagres, em todo o lado. Vou dizer à minha sogra, que lhe falta um mês para os 104 anos e está esperta como um alho, e como é meia galega, para se propor para chefe de gabinete.

Renato disse...

Não havia um sujeito da UDP (não era o Arnaldo Matos) que no seu percurso parlamentar e politico passou dele ao PS e acabou nas listas do PSD/CDS (a velha AD)?

João Cabral disse...

Nunca apreciei a figura, mas convenhamos que o ódio a Cavaco em determinados sectores chega a ser pavlovianamente irracional. Imagino-o a regozijar-se sempre que incomoda uns certos quantos, que caem sempre na esparrela e lhe dão sempre mais palco.
Essa dos enganos, senhor embaixador, é mais do que sabido que é mito urbano, mas como é Cavaco, não faz mal, não é assim? E será que estão todos assim tão fartos dele? Foram quatro mandatos ao todo. Mas nunca ninguém votou nele, claro. Agora imagine se eu até gostasse de Cavaco...

manuel campos disse...


Quem me foi lembrar, o Arnaldo Matos!
O "grande educador da classe operária", um dos quatro fundadores do MRPP (mais tarde PCTP/MRPP), morreu com 79 anos em 22 de Fevereiro de 2019, sempre fiel ao MRPP.
Portanto fui dar uma olhadela rápida ao “lutapopularonline.org”, aonde já não ía há muitíssimo tempo, acho que vale a pena passar por lá quando se andou o PREC todo a ler os comunicados, manifestos e entrevistas deles, é um curiosissimo “regresso ao passado”, de falta de constância na visão do mundo e da vida através dos tempos não é possível criticá-los.
Com Arnaldo Matos ainda vivo ía lá muitas vezes ler os artigos que ele foi dedicando a Garcia Pereira, aquilo era imperdível.
Acabou por ficar lembrado na memória actual dos povos, não pela sua luta de décadas, mas pela frase "Isto é tudo um putedo!" em que atacou o Bloco de Esquerda e o PCP por virem a integrar um Governo "da troika e do capital alemão do PS".

Renato disse...

Então não era o Arnaldo Matos. Lembro-me de um ultra-revolucionário dos movimentos mais radicais pós-25 Abril que fez esse percurso... A menos que tenha imaginado esse personagem...:-)

manuel campos disse...


Renato

Não imaginou nada, bem pelo contrário.
Ultra-revolucionários dos movimentos mais radicais pós-25 Abril que fizeram esse percurso são mais que muitos, eu conheço vários, ainda que não esteja a ver neste momento a qual se refere em concreto (mas ele existe, lá disso não tenho dúvidas).
Como muitos deles já tinham feito o percurso inverso (e bem depressa) quando do 25A.

Já aqui contei que, dizendo exactamente as mesmas coisas, passei de comunista a fascista naquele período e na boca das mesmas pessoas (que andaram enganadas, diziam eles), valeu-me não ser propriamente acusação que se pudesse provar no meu caso.

Que Praga!

Ainda bem que o jogo acabou. Estava farto de ouvir chamar Chéquia à República Checa.