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quinta-feira, março 23, 2023

O senão da bela


Nesse ano de 1976, com menos de um ano de experiência como diplomata, após uns meses de destacamento no efémero Ministério da Cooperação, fui chamado a prestar serviço nas Necessidades. 

Colocaram-me numa obscura Repartição, embora com bastante serviço. Entre outras tarefas, cabia-me redigir correspondência, que manuscrevia para, depois, as dactilógrafas passarem a papel de ofício, após o que as coisas seguiam para o chefe de Repartição assinar.

Escassos dias após ter entrado naquele serviço, fui chamado a esse meu chefe. Dizia-se que estava de saída, o que, efetivamente, se confirmaria ser verdade. Poucas semanas depois, foi colocado num consulado nos Estados Unidos.

Era um homem muito formal, que criava uma deliberada distância, embora sem deixar de ser educado e correto. Para mim, que vinha do ambiente técnico na área da Cooperação, olhei-o logo como um paradigma de uma certa carreira diplomática, com um formalismo que me irritava, mas com que ia passar a ter de conviver, a partir daí. 

"Quero dizer-lhe que apreciei o trabalho que fez nestes dias, Seixas da Costa. Entrou bem no estilo da casa e vê-se que está habituado a escrever". 

Eu já tinha então 28 anos, cinco anos de funcionalismo público anterior e, posso agora confessar, alguma auto-suficiência, quiçá mesmo, ao que lembro, uma certa arrogância. O elogio satisfazia-me, era simpático, mas não me comovia demasiado. 

"Mas não há bela sem senão! Você cometeu aqui um erro de palmatória".

Mau! O que é que ele queria dizer com aquilo?

"Você escreveu 'durante a estadia do ministro'. Ora, como devia saber, a forma correta é 'estada'. A palavra 'estadia' é para embarcações".

Apanhado de surpresa, sem dicionário à mão, esclareci que, de facto, achava que as palavras eram sinónimos. Que não, que não se podiam confundir os conceitos, retorquiu-me. Saí do gabinete do homem intrigado. 

À noite, liguei para o meu pai, em Vila Real, que era orgulhoso possuidor do melhor dicionário de Português que continua a existir à face da terra, o inigualável "Moraes Silva", e pedi-lhe para ir ao volume quarto dos doze que compõem a obra (que vai da palavra "Desvalora" à palavra "Eza", porque, desde criança, sei de cor as palavras limites de cada volume, que surgem na lombada...) comparar "estada" com "estadia". Em tese, o meu chefe tinha alguma razão, mas ali também ficava claro que as palavras podiam ser tidas como sinónimas uma da outra, tal como eu pensava.

O tempo passou. Uma noite de 1990, no bar de um hotel de Maastricht, perante o olhar espantado de Durão Barroso e do meu colega António Monteiro, re-suscitei o assunto como o nosso embaixador na Holanda, que era, nem mais nem menos, aquele meu antigo chefe. Ficou espantado com o facto de eu me lembrar do episódio. Continuava a teimar na sua e eu fiquei na minha, embora nos ríssemos da nossa divergência.

Tenho, na realidade, boa memória. De tal maneira que, ontem, logo me ocorreu esta historieta, quando soube do funeral do meu colega embaixador Francisco Moita, que havia sido aquele meu primeiro chefe nas Necessidades, a quem deixo esta modesta homenagem de lembrança, no termo da sua estada - ou estadia - por este mundo.

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