sexta-feira, março 10, 2023

Em boas mãos


Ontem, por uma razão que não vem ao caso, tive de ir ao edifício principal do Ministério das Finanças. E, de repente, recordei-me de um episódio ali ocorrido, há mais de uma década, que já por aqui tinha contado.

Era já tarde. O meu encontro com o ministro Vitor Gaspar estava aprazado para minutos depois. Na rádio, eu ouvira que o governante tinha terminado, há pouco, um debate importante no parlamento. Mas uma certeza eu tinha: o ministro não chegaria atrasado à conversa que tinha combinado com o embaixador em França que eu então era, nesse ano de 2012. Vitor Gaspar não chega atrasado aos encontros.

Entrei com o meu carro no pátio interior do Ministério. Um GNR levou-me por um corredor até à base de uma grande escadaria.

Nesse instante, dei-me conta de que nunca, até então, tinha ido ao Ministério das Finanças, nem nos cinco anos e tal que passara no governo, nem em qualquer outra ocasião, numa visita de uma personalidade estrangeira ou a uma posse. (Mais tarde, quando estive ligado à RTP, acabei por passar por lá algumas horas, para desbloquear problemas).

Naquele fim de tarde de 2012, olhei aquela escada larga que estava diante de mim e interroguei-me se seria por ela que Salazar subia. Provavelmente não. As portas dos ministros são quase sempre outras.

Na base da escada estava uma secretária, com uma senhora sentada. No topo da mesa, uma criança, seguramente filha da senhora, fazia os seus "deveres" (agora diz-se TPC, não é?). 

Expliquei ao que vinha. Eram 19.25. Ela tinha anotado que o senhor ministro me receberia às 19.30. Gentilmente, disse-me que me acompanharia, escada acima, para me encaminhar ao gabinete, onde sabia que uma adjunta me aguardava. Foi então que, voltando-se para a criança, que teria aí uns 11 ou 12 anos, lhe disse:

- Olha! Tu ficas aqui, a guardar isto, enquanto eu vou lá em cima levar este senhor, está bem?

A criança disse que sim com a cabeça. As Finanças ficavam em boas mãos.

4 comentários:

Rui C.Marques disse...

6 e meia da manhã .Aqui estou em frente do pc , como desde o primeiro dia do blog , para ler , sempre com a mesma satisfação ,este e todos os outros textos.
Um forte abraço ,Francisco .

Luís Lavoura disse...

Sendo uma criança uma menina, já teria maturidade para ali ficar. Se fosse um menino, não teria.

caramelo disse...

Luís Lavoura, quanta maturidade é preciso uma criança ter para ficar quieta durante 2 ou 3 minutos sentada a uma mesa?

Flor disse...

Uma situação um "poucochinho" doméstica não? ;)

Que Praga!

Ainda bem que o jogo acabou. Estava farto de ouvir chamar Chéquia à República Checa.