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segunda-feira, maio 31, 2021

A direita

Deliberadamente ou não, Passos Coelho converteu-se no maior problema da direita. Faz lembrar uma “allumeuse”: nem vai a jogo, nem sai de jogo. Ao não deixar de ser o dom Sebastião por que (quase) toda a direita suspira, seca em permanência o campo político à sua volta. Quem agora estivesse disposto a avançar para contestar a atual liderança do PSD (e, por consequência, da direita), fá-lo-ia “by default”, isto é, apenas porque a Passos Coelho não lhe apetece ir. Essa figura iria ser sempre um “second best”, um genérico de Passos Coelho. Faria recordar as lideranças peronistas sem Perón.

A direita está farta de Rui Rio, o qual, aliás, está farto de dizer que não é de direita, começando a não se perceber bem o que é que, afinal, ele é. Mas já se percebeu que está ali à espera que alguma coisa corra mal a António Costa, na mesmíssima aposta de contar com o desgaste de quem está no poder, que já foi seguida por Durão Barroso. Se Rio sofrer um desastre nas eleições autárquicas, vai acabar por sair pela direita baixa. Percebe-se que Passos Coelho não lhe queira suceder nessa ocasião: depois de ele próprio ter saído de cena como consequência de umas autárquicas em que levou uma “abada” do PS, seria quase irónico que pudesse voltar encavalitado numa derrota similar do seu sucessor. Mas quem vier a seguir a Rio, se este for substituído, será sempre o líder escolhido apenas porque Passos Coelho o não quis o lugar.

Ventura é um imenso incómodo para a direita. É uma figura pouco apresentável, com um discurso desagradável para muita gente decente, a quem não apetece, por compreensíveis razões, misturar-se com aquilo que o líder do Chega hoje representa. Outros, contudo, para quem “tudo menos a esquerda” é o lema, estão disponíveis para mandarem a ética democrática às malvas e dão-lhe ou acabarão por dar-lhe a mão - vê-se isso, a toda a hora, no “Observador”. O Chega é um produto de antigos votantes mais primários do PSD, ao passo que os liberais, de idêntica extração partidária, são um pouco mais urbanos e “finos”. Mas enquanto Ventura pode já ter segurado os seus num registo próprio, pressente-se que os liberais, se acaso o PSD viesse a adquirir uma liderança apelativa e congregadora, ficariam na nossa pequena história política como um epifenómeno passageiro.

Volto ao início. Passos Coelho está a fazer muito mal à direita. E se, como tudo indica, se está a “bater” a Belém em 2026, para o que terá Portas como concorrente óbvio (a gravata agora constante e a “gravitas” crescente já não enganam) numas informais “primárias afetivas” da direita, com isso vai conduzir a sua família política a um tempo próximo muito desagradável.

Para o presidente da República, que ganharia algum espaço de manobra se o governo estivesse a ser melhor “marcado” por uma potencial alternativa à direita, o tempo que aí vem deve ser de alguma expetativa. Marcelo Rebelo de Sousa não quer crises e faz figas para que o PCP e alguns votos esparsos possam ir viabilizando os orçamentos, para o país sair o melhor possível no pós-pandemia. Deixar o PSD no poder, em 2026, será, com toda a certeza, um seu natural objetivo. Isso permitir-lhe-ia fazer o país recordar que Cavaco deixou a “geringonça” a mandar e que foi com ela e, depois, com o seu sucedâneo “soft” atual, que teve de haver-se.

Humor castanho