domingo, 2 de maio de 2021

Avisem-me, está bem?


Queria pedir o favor de me avisarem quando a ponte suspensa de Arouca deixar de ter visitantes. Nessa altura, quando puder passar por lá (aproveitarei, já agora, para ir almoçar ao “Parlamento” e encontrar, pela cidade, a nossa amiga Josefina e, se calhar, o Joaquim Brandão, como me aconteceu da última vez), gostaria de ter essa experiência. Mas não antes!

Faço parte de uma “raça”, por mania própria, que faz questão de “não ir” às novidades. 

Todos os anos, faço uma deliberada abstinência às aparições fílmicas. Quando surgem películas que estão escaladas para ou já tiveram Óscares, a minha reação automática é não as ver. Deixo passar - a sério! - um ano ou dois. Passo quase vergonhas nos “dinêrs en ville”, quando toda a gente já comenta um filme e eu, olimpicamente distante, digo: “Ainda não vi!”. Já olhei muitas caras espantadas a mirar-me de pasmo. A minha mulher vive menos bem com isto, porque há muito percebeu (ter começado a namorar comigo há 56 anos, dá para me conhecer já um pouquinho) que eu faço isto deliberadamente. E começa a irritar-se! Por este andar, daqui a vinte e tal anos, há uma crise no casamento!

Com a ficção literária, atuo da mesma forma. “O Nome da Rosa”, do Umberto Eco, é a minha coroa de glória. O filme, com o Sean Connery, saiu mesmo antes de eu ter lido o livro. Mesmo os que não tinham lido o livro já o comentavam, sempre comigo a deixar cair: “Já sei que é bom. Um destes dias leio!”. Um dia, li. Desde que a Elena Ferrante entrou na moda, eu coloquei-me à distância. Cá em casa, já passaram todos - mas todos! - os volumes e eu... nada! Já me tinha acontecido o mesmo com o “Memorial do Convento”: deixei passar dois anos sobre a edição, antes de o ler. Com os policiais nórdicos, foi a mesma coisa: eu ainda andava pelo Ellery Queen e pelo Dennis McShade e o pessoal cheio de ler sobre neve salpicada de sangue lá no cimo da Europa. Até na não-ficção isso se passa: o tempo que eu andei para ler o “Diplomacy”, do Kissinger! E ainda tenho em atraso, claro, todo o António Damásio. E tantas coisas mais!

Ultimamente, como quase deixei de ver televisão, a “snobeira” mudou de registo: só no dia 29 de abril li o (excecional!) discurso do presidente da República no 25 de abril (repito, um extraordinário discurso!). E tenho assim perdido, pelo menos no “timing” dito adequado, algumas outras coisas “imperdíveis”. Há um amigo, que me telefona quase todos os dias, que até hoje não entende como é que eu, com todas estas “falhas”, ainda consigo escrever nas redes sociais e na imprensa! 

Mas sou assim, que se há-de fazer! 

Há lá maior prazer do que encontrar um “finaço” do Porto e, perante a pergunta “O que é que achaste do Euskalduna?”, poder responder (a quem tem a ideia de que eu conheço ali desde a Badalhoca aos estrelados Michelin), com deliberada indiferença: “Nunca lá fui! Vale a pena?”

Há muitos anos, arrependi-me bastante desta atitude. Vivia no estrangeiro e, no Dona Maria, exibia-se o “Passa por mim no Rossio”. Eu adorava teatro de revista, como gosto imenso de fado (desde o chungoso ao aristocrático, com exceção do “Avenidas Novas” - um dia explico isto). Quando vinha a Lisboa, nunca havia bilhetes. Como não meto cunhas (quem alguma vez tiver recebido uma cunha minha pode escrever isso, em caixa alta, nos comentários), e aquilo continuava “na moda”, fui deixando passar a oportunidade. Até que a revista saiu de cena. Um dia contei isto ao José Bouza Serrano, que chefiava um gabinete de um governante com autoridade na noite lisboeta. Escandalizou-se: “Ó Francisco, podias ter dito! Arranjava-te, com gosto, dois bilhetes!”. Não pedi, perdi a revista. Dessa, não me perdoei!

Pronto(s)! Não gosto de ir às novidades! Era só isto que queria dizer. Ah! E pedir que me avisem quando aquilo em Arouca estiver “sem povo”!

3 comentários:

Maria Isabel disse...

Como o compreendo!!!!
Eu sou assim, até na publicidade.Há certas coisas que nunca experimentei por causa do exagero na publicidade.
Bom domingo
Maria Isabel

albertino ferreira disse...

Aquilo não deve ter muito povo por causa das vertigens; os Passadiços do Paiva são outra coisa!

Portugalredecouvertes disse...

O Sr. Embaixador quer dizer que não é muito pioneiro em experiências radicais ?!