sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Clima e mentalidades


Há não muitos meses, ouvi alguém com grandes responsabilidades dizer mais ou menos isto: a crise climática apresenta-se hoje já tão grave que, daqui por uns tempos, como única forma de salvar o planeta, pode vir a ser necessário impor medidas muito drásticas, que terão como consequência alterar radicalmente os nossos padrões de vida, criando muitos incómodos e suscitando fortes reações. A grande questão estará então em saber se os governos nacionais terão condições políticas para, em regime democrático, conseguirem levar à prática essas medidas, alegando “estado de necessidade”. E o meu interlocutor interrogou-se: e se os cidadãos - repito, em pleno exercício das regras da democracia - não aceitarem essas imposições, seja por egoísmo seja por não estarem convencidos de que essas soluções drásticas são, de facto, necessárias? O plano B, para salvar o planeta, terá então de passar à margem da democracia? Como? Manu militari? Ou, em alternativa, para respeitar a democracia, deixa-se o planeta “afundar”? Fiquei a pensar nisto.

12 comentários:

Jaime Santos disse...

Os cidadãos escolherão Governos que lhes dirão aquilo que eles querem ouvir. A Ciência e a Razão só são boas e verdadeiras quando dão boas notícias.

É já assim com Trump e com Bolsonaro, até ao dia em que os desastres ambientais forem de tal ordem que a populaça não possa mais meter a cabeça na areia ou culpar terceiros. E nessa altura será provavelmente demasiado tarde.

Mas, Sr. Embaixador, existe uma boa parte de culpa nos Governos democráticos que têm sobrevivido sempre à custa da promessa do crescimento económico perpétuo num planeta em que os recursos são finitos. Isto já é discutido desde os anos 70, pelo menos, e ninguém deu ouvidos aos pessimistas...

A pior coisa que pode existir é um primata glutão e incrédulo com a ideia de que o imenso mundo à sua volta é um mundo finito. Esse primata somos nós...

Joaquim de Freitas disse...

«… saber se os governos nacionais terão condições políticas para, em regime democrático, conseguirem levar à prática essas medidas”

Mas, Senhor Embaixador, é já o que se pratica na economia, não? Quando o sistema entra em crise, a intervenção pública, salvadora do capitalismo financeiro, é feita de forma massiva e sustentável. As populações são coagidas a apoiar a socialização da “gabegie” das instituições bancárias e financeiras.
Para justificar isto, as elites políticas usam uma linguagem dupla.
A crise deixa de ser meramente financeira ou económica, torna-se inevitavelmente política. É uma crise global de legitimidade das elites políticas.

Para o clima é preciso pôr a tal questão: Até onde iria para salvar o planeta?
A grande maioria das pessoas subestima completamente os esforços que devem ser feitos, Eu também creio que a luta contra as alterações climáticas não pode ser feita num sistema puramente democrático.
E só pode ser feito ao nível internacional porque neste campo nao existem fronteiras…

Da mesma maneira que a nuvem mortal de Tchernobyl não parou na fronteira, (contrariamente ao que certos políticos afirmaram!), os vírus também não…

“Alterar radicalmente os nossos padrões de vida, criando muitos incómodos e suscitando fortes reações.” Escreve.

Pois é, C’est une erreur fatale de s’imaginer qu’il suffirait de reconnaître qu’on ne peut continuer comme avant. Il n’y a pas encore de véritable intelligence collective, c’est peu de le dire, pas d’accord sur les diagnostics ni sur les alternatives ou les solutions possibles aux crises multiples que nous affrontons.

Le volontarisme ne suffit pas, ni l’activisme, quand il faudrait s’entendre sur ce qu’il faut faire.
L préalable serait d’abord de comprendre ce qu’est un écosystème, ses interdépendances, ce qu’est un système de production, ses impératifs, comprendre notamment la dynamique du capitalisme (son productivisme) avant de savoir comment le brider ou comment en sortir. Car il est en cause.

Portugalredecouvertes disse...

a tal pergunta que vale mais de uma milhão

Anónimo disse...

E entretanto o nosso governo todo preocupado com as alterações climáticas, autoriza a importação de milhares de toneladas de lixo, para aterros que nem sequer controla. Não acham que está tudo doido?

João Cabral disse...

É precisamente essa via "manu militari" que partidos como o PAN querem. Seja por leis ou por censura social repressiva. Não, o problema não é só o Chega.

Anónimo disse...

Lembra-se FSC da campanha suja feita contra a Manuela Ferreira Leite por causa de dizer que talvez houvesse medidas que só se conseguiam aplicar suspendendo a democracia?

Essa personalidade de que fala é de esquerda? Se for de esquerda talvez se safe dos cães raivosos da demagogia de esquerda.

Jaime Santos disse...

Ora, João Cabral, está a ver André Silva de botas cardadas, uniforme e óculos escuros ao estilo de Pinochet? Não me parece nada. O tofu não combina com o machismo bélico. O PAN tem queda para o moralismo, mas está do lado certo desta história.

Agora, se episódios como os registados na Austrália este ano se tornarem comuns um pouco por todo lado, as democracias serão primeiro substituídas por regimes autocráticos que negarão o que está a acontecer (e isso já se está a passar) e depois por ditaduras militares quando for necessário impor o estado de sítio permanente...

Prepare-se pois para um dia destes ir de foice e ancinho, eu e você, limpar as matas...

Jaime Santos disse...

É curioso como o discurso da raiva que se esconde por detrás do anonimato acusa a Esquerda daquilo de que só ele é culpado.

Quanto a Manuela Ferreira Leite, ela esclareceu, bem entendido, que se tratava de ironia. Sucede que os Portugueses, à Esquerda e à Direita, não percebem bem o que é a ironia. Como se vê aqui, aliás...

Sabem melhor o que não é a ironia, e quando alguém tenta fazer de conta que aquilo que disse a sério era só a brincar, como mandar uma deputada negra para a sua terra, por exemplo...

João Cabral disse...

É evidente que não é esse o estilo, como ficou patente no meu comentário. O problema é precisamente esse. O lado certo da história não é certamente o do PAN, lamento. E quanto a machismo bélico, sem comentários.

Jaime Santos disse...

Falei do lado certo desta história, não do lado certo da História, o que faz toda a diferença.

Mas dizer às pessoas que têm que mudar de hábitos pela sustentabilidade ambiental, antes de tudo, pode ser algo que nos custa ouvir (eu gosto muito de uma tripalhada, p.e.), mas não o torna menos verdadeiro.

E se não classifica o General Pinochet como machista bélico, classifica como quê? De novo, parece que há coisas que custam a ouvir e que se despacham porque só saem da boca do 'politicamente correto'... Bem hajam eles por o dizerem então...

Joaquim de Freitas disse...

Devo ter sido distraído por alguém, talvez o gato, quando escrevia o meu comentário, cujos dois últimos parágrafos saíram em francês, língua na qual penso quando escrevo… Apresento as minhas desculpas, mas espero que a língua de Victor Hugo é conhecida de todos os leitores…e para não melindrar não traduzo!

Anónimo disse...

Temos no Jaime Santos mais um comentador de tom sério, sempre pronto a moralizar em relação aos outros. Já não é a primeira vez que o vejo mencionar o "anonimato". Pois bem, carreguemos no nome "Jaime Santos". Somos levados para uma página "vazia", sem fotografia da personagem, sem dados pessoais, sem links para conteúdos seus, enfim: nada!

Ou seja, o "identificado" Jaime Santos, não é ninguém, nem nada reconhecível. Estamos, portanto, perante um "mascarado". Não tem qualquer problema, isto. Mas é irritante que alguém ache que os outros são tão papalvos que não saibam que qualquer um se pode apresentar com um nome qualquer escolhido por si. Eu posso ser o Rato Mickey, hoje, mas, amanhã, posso ser um "Jaime Santos".

Haja pachorra!

Quanto ao comentário sobre a MFL, parece que o "mascarado" Jaime Santos é outros daqueles que tem a memória curta. Ou, então, estava em Marte, na altura, e não pôde ver o massacre "moralista" de esquerda a que MFL esteve sujeita.