Chegou um dia a Paris, nesse início da segunda década do século XXI, com aquele ar “jeuniste” arrogante que caraterizava alguns de uma geração política a quem a “troika” tinha dado asas para poder exercer o seu liberalismo sem pudor. Não era ainda membro do governo.
No encontro na embaixada, com entidades francesas, desenvolveu uma curiosa teoria. As grandes cidades portuguesas estavam cheias de gente, em especial “velha”, cujos meios de vida, agravados à época pelos cortes nas reformas, eram muito limitados, pelo que se tornavam quase incompatíveis, não apenas com as rendas que lhes eram pedidas, cuja liberalização iria ajudar à “festa”, mas com os próprios preços dos bens e serviços.
“Essa gente é, em geral, oriunda da província e devia a ela regressar, porque teriam aí uma vida mais compatível com os seus recursos. Não digo que para isso seja necessário recorrer a medidas constrangentes, mas o mesmo resultado podia ser obtido por um “mix” de métodos administrativos”.
Os interlocutores franceses estavam siderados, calados de espanto. Eu, embaixador daquela figura, estava interiormente furibundo. E envergonhado. A certa altura, não me contive: “No Cambodja, já experimentaram isso”. O homem, que acumulava a palermice ideológica com o ser um ignorante da História, olhou para mim e inquiriu: “Com políticas públicas?”
Quem lhe respondeu foram as gargalhadas de dois ou três dos franceses sentados naquele pequeno almoço de trabalho. Sabia lá ele quem tinha sido o Pol Pot e as suas celeradas medidas de migrações forçadas para os campos!
Tenho contado este episódio muitas vezes e já me aconteceu cruzar-me com a personagem.
