quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Extremos


As expressões “extrema direita” e “extrema esquerda” têm duas similitudes. A primeira é semântica: em ambas, existe a palavra “extrema”. A segunda é que o passado em que essas correntes tiveram origem foi marcado por sinistras ditaduras - de um lado o fascismo e o nazismo, do outro os regimes comunistas, que resultaram num desastre totalitário. As similitudes acabam aí, pelo que é hoje profundamente desonesto procurar equiparar os dois conceitos.

A extrema direita é xenófoba, racista, discriminatória e promotora de políticas de ódio, obsessivamente securitária, cavalgando um sinistro nacionalismo.

A extrema esquerda, chamemos-lhe assim por facilidade, pelo contrário, defende políticas de igualdade e integração social, é anti-racista e anti-xenófoba e tem uma agenda política basicamente humanista - embora eu discorde do seu anti-europeísmo, do radicalismo simplista de muitas das suas receitas e ache irrealistas grande parte das suas propostas, por muito generosas que possam parecer.

Mas eu não esqueço nunca quem esteve do lado certo na 2ª Guerra Mundial, tendo tido um papel fundamental para a derrota do mais odiento projeto político que se conhece - o nazi-fascismo. E também me lembro bem de que, por cá, quando se tratou de ajudar a derrubar o projeto de fascismo saloio, mas criminoso, de Salazar, bem como lutar contra o colonialismo, essa esquerda foi essencial e, por virtude da sua luta corajosa, pagou um elevado preço, sofrendo o que nenhuma outra força de esquerda então sofreu.

Se é verdade que, nos anos de 1974/75 – vai para meio século! -, parte dessa esquerda foi tentada a uma deriva de populismo autoritário, é também uma evidência que a democraticidade da sua postura no sistema político tem sido, desde então, inquestionável. A sua participação na “geringonça” foi o reconhecimento natural desse seu pleno estatuto democrático.

Por isso, não votando eu nos partidos de Jerónimo de Sousa ou de Catarina Martins, de que muitas coisas me separam, deixo expresso que tenho consideração política (e, por sinal, também pessoal) por essas figuras e pelas formações que dirigem. E, como é óbvio, não tenho a menor consideração por quem titula políticas de extrema-direita, bem como por quem tende a desculpabilizá-las e por quem vier a prestar-se a estender-lhes a mão.

Há muito que me apetecia deixar isto bem claro. Seria porventura mais cómodo não o fazer, mas começo a estar cansado da fraude que é a recorrente tentativa de equiparar duas realidades que não se podem comparar.

19 comentários:

Anónimo disse...

Sejamos imparciais. O Sr. embaixador esquece-se do pacto Hitler/Estaline, e parece que Praga, muro de Berlim etc. nunca existiram. È evidente que os da extrema direita não são "boas companhias", mas entre os dois extremos venha o diabo e escolha.

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Embaixador não precisava deste texto brilhante, para explicar que é um social-democrata convicto. E tem todo o direito.

Só que a social-democracia, ao sabor das alianças, desde os anos 70, do compromisso inicial do socialismo com o capitalismo, que procurava conjugar uma economia competitiva e um Estado-providência generoso, passou a um bom gerente do capitalismo, levada pela vaga neo liberal anglo saxónia.

Perdeu muitas batalhas eleitorais e a sua hegemonia intelectual é apenas um “souvenir”!, contestada pela esquerda radical como pelo populismo de direita.

E, se num “casamento de razão” faz algum caminho com a extrema-esquerda portuguesa, todos sabemos porquê.

É que a lista é longa : De Jeremy Corbyn ao SPD alemão, à derrota histórica do Partido Social Democrata finlandês, que viu a presidência escapar-lhe pela primeira vez em 30 anos em 2012; ou a ultrapassagem pela esquerda do Partido Socialista Espanhol pelo Podemos; ao naufrágio do Pasok na Grécia, varrido pelo Syriza. Sem esquecer na Áustria e nos Países Baixos, onde os sociais-democratas foram postos de lado. Para não falar dos contratempos de Renzi na Itália.
Existem algumas razões, comuns a todos estes partidos, em toda a Europa.

Os regimes comunistas desapareceram. A social-democracia perdeu a sua aura de contra-fogo ideológico, uma alternativa social e regulamentada credível. Mas os partidos comunistas podem servir de bengala. Só.

As falhas do sistema económico e a situação cada vez mais precária das pessoas, provam que a social-democracia se tornou emblemática da derrota da política face à tecnoestrutura de Bruxelas e ao todo-poderoso economismo.

Manuel disse...

Esta história de classificar certos partidos como de extrema-esquerda é um embuste que dá muito jeito a uma certa comunicação social e, por simpatia, a um certo discurso político (não necessariamente por esta ordem).
Se recuarmos aos primórdios do pós-25 de abril, certamente muitos partidos, ditos agora do centro ou moderados, levariam também o epíteto à luz dos critérios atuais.

Quando metemos o "extrema" na equação surgem coisas como resistência armada, violência dirigida, políticas radicais de eliminação ou contenção dos direitos de certas classes sociais, etc... e repare-se que isto é válido para ambos os extremos; basta escolher os alvos adequados.

Anónimo disse...

Os extremistas, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins e o nome que por desventura não ousou mencionar, obtiveram, nas últimas legislativas, um reduzido total de votos válidos, no todo do universo eleitoral português.
Somando os votos dos 3 grupos extremistas totalizam-se menos de 10% dos eleitores recenseados.
Somando os votos dos 3 grupos extremistas totalizam-se menos votos dos que alcançados pelo PSD, ou pelo PS, nas recentes eleições legislativas.
Por enquanto a oratória dos chefes de partidos "extremistas", por cá, apenas conveceu uma faixa reduzida do eleitorado. Continuará a ser assim?. As recentes sondagens, presidenciais e legislativas, auguram alterações.

Joaquim de Freitas disse...

O ultimo paragrafo escapou : A América tornou-se o primeiro poder capaz de forjar o totalitarismo, sob o sentimento de viver em liberdade, anulando a consciência e a vontade dos indivíduos.

aamgvieira disse...

"PGEC". Processo de Grunhificação Em Curso"

«Motards perseguem polícia e enconstam-no contra carro patrulha durante funeral das vítimas da Segunda Circular. O agente, em sua defesa, puxou de uma arma quando estava a ser cercado.»

alvaro silva disse...

Artigo com muita piada... Mas zarolho como fácilmente se entende. A dita extrema esquerda é integradora(?). Só se for a subsidiar vadios com os recursos sacados a quem trabalha e arrisca. Que lutou contra o Salazar todos sabemos mas quem derrotou o Estado Novo foi um "putch" militar, hábilmente colonizado por essa extrema e que deu azo a outro "putch" militar para encarreirar a democracia, A "esquerda do Stalin" ajudou a "libertar" uma meia Europa e a espezinhar a outra meia que só se libertou com a queda do muro de Berlim, e, quanto a chacinas estamos conversados que o comunismo mata mais que o Covid 19, URSS, China, Camboja, Angola etc. Olhe sr embaixador "extremas" só nos campos do Minho e de Trás-os-Montes e por norma não dão palha nem grão.

Anónimo disse...

Gostava que o Sr. Embaixador identificasse algum partido de extrema-direita em Portugal. É que de extrema-esquerda vejo vários. E são todos filhos dos excessos da tão cantada revolução de Abril.

Anónimo disse...


Como vê, Sr. Embaixador, eles estão aí (a extrema direita), e avançam descaradamente. Não é possível ficar em cima do muro. È preciso tomar partido. Urgentemente. E estar ao lado daqueles que, historicamente, foram os mais consistentes, os mais consequentes, os mais coerentes, defensores da democracia e da liberdade e que em breve assinalarão 100 anos de dedicação aos trabalhadores, ao povo e à Pátria.

João Pedro

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Uma boa resposta aos incautos ou maniqueístas que vem com a conversa da extrema esquerda, quando se fala da toxicidade da extrema direita.
Assino por baixo!

Unknown disse...

Senhor EmbIxador. O anomino de 26 fev já chamou a atenção para o seu paradoxo eu gostaria de acrescentar qu e de acordo. Com o seu critrero ao regimes totalitários da Nicarágua,Venezuela e cuba não existem,Portanto a extrema esquerda não existes neste paises? Francamente

Unknown disse...

Desculpe eu costumo assinar o que escrevo. Liberal Correia. Sem liberalismo por enquanto

Jaime Santos disse...

Eu quase que assinaria por baixo o que o Sr. Embaixador escreve. Não existe xenofobia no discurso da Esquerda Radical e mesmo o programa político do PCP provavelmente não difere muito do programa social-democrata de há 40 anos atrás. Como Bernie Sanders, aliás (Corbyn é apesar de tudo mais centrista em alguns aspectos).

O pecado dessa Esquerda continua a ser, apesar de tudo, a falta de consciência histórica relativamente à tragédia que foi o socialismo real de inspiração soviética. E o apoio a regimes muito pouco recomendáveis que aliás de socialista já têm pouco (a começar pela República Popular da China e acabar na Venezuela).

O BE tem, salvaguarde-se, um atitude bem mais crítica relativamente a esses países.

Há figuras no Die Linke alemão que não tiveram dificuldade em reconhecer a natureza ditatorial do regime da RDA, como o Ministro-Presidente da Turíngia, Bodo Ramelow. Infelizmente, entre nós, sobretudo o PCP continua agarrado à mitologia de resistência à ditadura e ao enquadramento do regime soviético que teria tido aspectos positivos, como uma marcação ao capitalismo que obrigou ao dito consenso social-democrata ou o apoio aos movimentos anti-coloniais (só que esses aspectos positivos ocorreram todos fora do Bloco de Leste, claro).

Por isso, e para responder ao Sr. Joaquim de Freitas, o problema principal não está na social-democracia. Está no fim de um tempo que permitiu taxas de crescimento elevadas (sendo que os problemas ambientais não se tinham agudizado e não representavam uma preocupação de maior na população), acompanhadas de níveis muito altos de protecção social em sociedades homogéneas e está no facto de que a 'alternativa' ao capitalismo não produziu outra coisa que não despotismo, penúria e degradação ambiental. Ou seja, foi um verdadeiro desastre. E isso é culpa do Srs Lenin, Trotsky, Estaline, Mao e associados...

Joaquim de Freitas disse...

Escreve o Sr. Jaime Santo; “: “O pecado dessa Esquerda continua a ser, apesar de tudo, a falta de consciência histórica relativamente à tragédia que foi o socialismo real de inspiração soviética”

Para fazer curto, parece-me que o Sr. Jaime Santos esquece o facto que as burguesias do mundo, em pânico com a tomada de poder pelo proletariado (Revolução de Outubro de 1917), tentaram matar no ovo o socialismo, pela intervenção militar de 14 potências contra a Rússia.
A guerra civil e as duas guerras mundiais que vão seguir, nas quais a URSS pagou a nota mais elevada, explicam as grandes dificuldades do novo regime para se implantar numa sociedade exangue.

Colectivizar os meios de produção e a terra, construindo a economia socialista, e transformar o país numa grande potência, e ainda para mais socialista, enquanto as economias capitalistas se afundavam na crise económica mais profunda (1929) que os capitalistas só puderam resolver através da carnificina da Segunda Guerra Mundial, augurava mal para a Revolução de Outubro.

Outros edificaram impérios sobre o genocídio de povos, como os Índios , roubando-lhes as terras, impondo-lhes uma língua, uma religião e outros modos de vida, e os Negros pelo sistema mais abjecto de exploração dos humanos : a Escravatura, que enriqueceu os impérios.

O resto faz parte da História. O Sr. Embaixador já notou o papel da URSS na vitória contra o fascismo e o nazismo. A URSS entretanto desapareceu. A utopia chegou ao fim.

Mas escrever como o Sr. Jaime Santos fez, que, cito: “a 'alternativa' ao capitalismo não produziu outra coisa que não despotismo, penúria e degradação ambiental. Ou seja, foi um verdadeiro desastre »,

Como pode explicar que o sistema económico, vencedor, tenha estado em guerras permanentes no mundo inteiro, desde 1945, procurando impor-se contra a vontade dos povos, com um custo de milhões de humanos, de países e Estados destruídos, provocando terríveis êxodos das zonas de guerra dos quais ainda não vimos o fim.

E que este sistema vigente há mais de um século ainda não tenha sido capaz de eliminar o flagelo da fome que mata 900 milhões de homens, mulheres e crianças em vários continentes.

Quanto à China, que conheço bem pessoalmente, o regime actual permitiu de tirar 700 milhões de humanos da miséria e do flagelo da fome ancestral.

Quanto à Venezuela, creio que se o MNE português não se enganar, talvez o seu amigo auto proclamado presidente Juan Guaido, resolva o problema dentro em pouco…

João Cabral disse...

Averiguar qual dos carniceiros foi/é melhorzinho? Sinceramente, senhor embaixador. Já para não dizer que a Geringonça foi simultaneamente uma traição a Mário Soares e Álvaro Cunhal. Coisa pouca.

João Cabral disse...

O senhor embaixador em 2015:

«Repito o óbvio: o PS perdeu estas eleições. Por isso, estava e deve continuar na Oposição, embora agora numa posição mais forte do que aquela que tinha. Um seu regresso ao Governo só deve processar-se através de novas eleições, não por "maiorias" contranatura à sua direita, nem por alianças oportunistas, não menos bizarras, com o Bloco de Esquerda ou com o PCP. Porquê? Porque isso está fora da ordem natural das coisas para uma formação política com uma história ímpar de responsabilidade política no Portugal democrático. Não tenho dúvidas que António Costa sabe isto.»
https://www.jornaldenegocios.pt/economia/conjuntura/detalhe/quem_esta_contra_e_a_favor_da_aproximacao_de_antonio_costa_a_esquerda

Joaquim de Freitas disse...

Gostaria de deixar algumas palavras sobre o bom exemplo português, se o Sr. Embaixador permite.

Nas eleições portuguesas, ganhas pela direita, a esquerda conseguiu formar uma coligação sem precedente. Bloco de Esquerda, Verdes, Partido Comunista e Partido Socialista chegaram a acordo sobre um governo e uma maioria parlamentar.

Desde Novembro de 2015 que um governo socialista lidera Portugal, apoiado pelos outros partidos de esquerda. Uma garantia (argumento doo resto da esquerda) de que os socialistas não tomarão decisões "más" se quiserem continuar a ter maioria. E o mínimo que se pode dizer é que esta união está a dar frutos: como a união dos socialistas e da esquerda radical pôs fim à austeridade em Portugal.

Claro que esta aliança só foi possível porque o Partido Socialista Português rompeu com o que está a perder os outros partidos sociais-democratas que se recusam a iniciar uma mudança de esquerda.
O fracasso do PS francês foi indicativo do desastre de François Hollande. Uma política liberal, renúncias a todos os níveis, um aumento da miséria e, apesar da ligeira mudança para a esquerda de Benoît Hamon, os eleitores quiseram punir um período de cinco anos de traição.

Quando escreve: “o problema principal não está na social-democracia. Está no fim de um tempo que permitiu taxas de crescimento elevadas… acompanhadas de níveis muito altos de protecção social”. Quer isto dizer que a social-democracia serve somente para gerir o retrocesso social e a miséria?

Então, se a “geringonça” conseguiu eliminar a austeridade imposta pela social-democracia em Portugal, é a prova que só uma esquerda unida pode fazer recuar a social democracia…

Foi o que a esquerda não soube fazer em França e nos presenteou com Macron…que não sabe exactamente onde se situa. Mas eu sei…

Francisco Seixas da Costa disse...

A João Cabral, comentador das 21:54: https://duas-ou-tres.blogspot.com/2018/11/enganei-me.html

João Cabral disse...

Pois eu diria precisamente que não se enganou, senhor embaixador.