quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Contra o vento


Vivemos num país de emoções: fortes, definitivas e superlativas. Com fervor quase militante, esgaravatamos o quotidiano para encontrar razões para nos mantermos em estado fervente, sempre escandalizados com “eles”, auto-flagelatórios com tudo “isto”. Se um país corrente, comum, tão igual como os outros, com defeitos e virtudes, ameaça emergir no horizonte, saltamos logo da trincheira: ou somos os melhores do mundo ou somos a escória e a vergonha da vizinhança. Ai de quem nos insulte chamando-nos normais!

Nunca Portugal viveu melhor, em toda a sua História, nunca a generalidade dos seus cidadãos, em média, teve uma vida tão confortável, em matéria de direitos, de segurança, de rendimentos ou de bem-estar. E, no entanto, se olharmos alguns títulos e o caráter façanhudo de certas pantalhas televisivas, dá ideia que o país está a caminho dos níveis de Aleppo. O nosso serviço público de saúde é notado como um dos mais eficazes do mundo, mas são as suas falhas, que sempre existiram, mas eram aturadas em silêncio, que agora fazem a notícia. Quando as estatísticas de segurança interna esmagam a boataria dos números falsos da criminalidade, não há quem não lembre que teve uma prima vítima de esticão na mala de mão, como se pudesse passar pela cabeça de alguém haver o menor orgulho em sermos o terceiro país mais seguro do mundo. Passámos décadas a gastar milhões para trazer turistas de fora, para atenuar a conversa dos comerciantes de que “isto este ano está pior do que no ano passado”. Um dia, os turistas vieram: “São demais! Lá se vai a nossa identidade! Invadem-nos a cidade!”.

E então, a corrupção? Não temos? Claro que temos, como temos o combate à corrupção, cada vez mais eficaz, o que a torna mais visível, infelizmente nunca tão eficaz que consiga erradicá-la por completo. Mas ninguém tem a coragem de dizer, alto e bom som, que os níveis de corrupção em Portugal estão perfeitamente na média dos países com o nosso grau de desenvolvimento. Espera aí! Mas a estatísticas não dizem que estamos no “topo”? Não dá jeito ler bem, não é? É que confundir deliberadamente corrupção efetiva com “perceção de corrupção”, que é o que tem sido alegado, é muito confortável para o achismo da “conversa de taxista” e vai muito com o ar do tempo e o discurso tremendista dos indignados profissionais.

É bom ser português. Tenho a ideia de que, nos dias de hoje, há muita gente que, pensando isso intimamente, teme dizê-lo alto, de tão policiado que anda pelos profissionais do pessimismo.

8 comentários:

jj.amarante disse...

Palavras sábias, as do embaixador! Não podia estar mais de acordo consigo!

sts disse...

Viva Portugal.

Anónimo disse...

Senhor embaixador! É um facto que tudo depende do prisma pelo qual olhamos para a realidade portuguesa, contudo julgo que a verdade nua e crua, com dados objetivos devem ser debatidos com clareza porque se assim não for as situações problemáticas nunca são resolvidas porque são constantemente escondidas debaixo do tapete..., tem sido esta a estratégia dos nossos governantes! Lamento dizê-lo! Por outro lado se os níveis de corrupção são idênticos a países idênticos devemos ficar confortáveis e entendê-lo como uma fatalidade...? não me parece ser este o melhor caminho...bem haja senhor embaixador!

Luís Lavoura disse...

É bom ser português.

Ainda ontem soube de uma mulher que vai emigrar. Porque, aos 32 anos, tem um emprego em que ganha 600 euros e, em Lisboa, tem que permanecer em casa dos pais, por não ter dinheiro para se autonomizar.

Fico satisfeito por ela. Fico triste pelo país.

Anónimo disse...

"Nunca Portugal viveu melhor, em toda a sua História, nunca a generalidade dos seus cidadãos, em média, teve uma vida tão confortável, em matéria de direitos, de segurança, de rendimentos ou de bem-estar. "...e nunca se deveu tanto como agora.

Anónimo disse...

Um texto tão amargo, ele próprio tão alinhado com o que critica, não ajuda nada a solucionar o problema. As redes sociais estão a ser muito perniciosas para todos os que as frequentam.

Anónimo disse...

Num altura em que no ranking dos 27 Portugal passou de 16ª lugar para 21º e se prepara para nos próximos anos ser o penúltimo país só à frente da Bulgária, exaltar as excelências do nosso país é capaz de ser exagerado...

Anónimo disse...

Exactamente, este provincialismo derrotista cansa. Em 2018 o nosso SNS passou de 14 para 13 no ranking europeu e subimos para os 5 primeiros na cura de doenças curáveis. E só se queixam. Se passassem uns tempos no mítico “lá fora” talvez mudassem de opinião. Ou se vissem as primeiras páginas dos jornais dos países tidos por mais civilizados do mundo. O que melhorámos nos últimos 40 anos é quase difícil de acreditar. E o que resta de mau, lixo, trânsito, indisciplina, não é certamente culpa só dos “eles” ,é de nós todos.
Fernando Neves