segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O racismo no Estado Novo

O tema Marega trouxe por aí a peregrina ideia de que no tempo da ditadura é que era bom: não havia racismo, brancos e pretos viviam num mundo ideal de entendimento, o Portugal pluricontinental e plurirracial era, assim, “outra loiça”. Só faltou trazerem “o preto da Casa Africana” para o atestar. No fundo, subliminarmente, fica a ideia: a democracia é que estragou tudo isso!

Salazar, na sua bondade integradora, até tinha “eleito” uma deputada negra, para além dos indianos regularmente exibidos pelo regime. Mais do que isso: a ditadura nomeou mesmo um negro como Secretário de Educação de Angola, Pinheiro da Silva, que veio a tornar-se Procurador à Câmara Corporativa. Ah! Se o 25 de abril não tivesse aparecido!

É claro que, pelo meio, houve a guerra do Ultramar (para quem achava que aquilo eram possessões portuguesas) ou guerra colonial (para quem sabia que aquilo eram colónias) ou guerra de África (para quem pretende disfarçar-se por detrás dos eufemismos). Mas isso são “fait divers”, somados a mais de 10 mil mortos, só do lado “de cá”... porque os pretos mortos fazem parte de uma outra contabilidade, que nunca foi a “nossa”.

Um dia, na “metrópole”, nesse ambiente de consabida igualdade que prevalecia entre os diferentes coloridos humanos, sempre em amena convivência, teve lugar uma altercação entre dois políticos do regime: o já referido Pinheiro da Silva e o deputado salazarista Júlio Evangelista. Este último terá dito algo tido por insultuoso, o que levou Pinheiro da Silva a avançar para ele. O verniz do convívio multirracial estalou na frase de Júlio Evangelista, que a pequena história, com maior ou menor rigor, acolheu: “Alto lá! Preto não bate em branco!”

13 comentários:

alvaro silva disse...

Conheci tardiamente o dr Evangelista e o contacto com ele foi quase sempre profissional, era um homem de extrema graça e de resposta pronta, pelo que acredito piamente na estória, é mesmo dele. Não se esqueçam ou talvez não saibam que era filho duma contrabandista e dum guarda-fiscal por isso tinha um jogo de cintura política notável, talvez pela genética. Imaginam só que no fim da vida era o mentor e conselheiro do Partido Socialista de Viana do Castelo? Pois era mesmo, mas sempre nos bastidores. Paz á sua alma!

Jaime Santos disse...

Um lugar para cada um e cada um no seu lugar... E claro, o lugar dos brancos era em cima e o dos negros em baixo. Cabe lembrar que era comum, pelo menos na Guiné, até à chegada da administração militar causada pela guerra colonial, o recrutamento das populações para o exercício de trabalho não remunerado. Ora trabalho forçado é escravatura.

Creio aliás que nos anos 50 houve um levantamento em S. Tomé e Príncipe pelas mesmas razões, a que o Sr. Embaixador aludiu aqui há tempos.

O Coluna e o Eusébio podiam jogar na primeira divisão, mas lá por baixo a 'igualdade' era a do costume...

Existe uma certa faixa da nossa população oriunda das ex-colónias, ou sua descendente, que ainda não conseguiu perceber porque o tratamento dos colonos a seguir à independência foi tão duro. E aí, como é normal, pagou o justo pelo pecador...

Anónimo disse...

O Sr. Embaixador deve estar a referir-se mesmo à metrópole, onde o racismo sempre foi incomparavelmente maior do que aquele que existia nas "colónias".

Anónimo disse...

Então e o caso do rapaz morto em Bragança? Já ninguém se lembra dele? A partir do momento em que os radicais e "as pessoas de bom tom", deixaram de poder gritar "racismo!", deixou de ter importância? Agora já não é preciso apurar toda a verdade? A embaixada de Cabo Verde já não exige explicações? Como está esse caso que demonstrava o "racismo estrutural" da sociedade portuguesa?

Já agora, a continuada utilização da expressão "racismo estrutural" mostra, à saciedade, o espírito de rebanho das pessoas. É mais uma daquelas muletas que é usada até à náusea durante umas semanas para, depois, desaparecer... Ainda alguém anda por aí a falar em "narrativa"?

Anónimo disse...

"O Sr. Embaixador deve estar a referir-se mesmo à metrópole, onde o racismo sempre foi incomparavelmente maior do que aquele que existia nas "colónias"."

Ena, incomparavelmente!... A sério, amigo? Eu nasci em Nampula e também conheci Angola. Quer que lhe conte?

Anónimo disse...

O que me mete mais raiva (isto é uma forma de falar…) é o desaparecimento da memória das coisas, das vivências. Um dia não restará ninguém que tenha conhecido diretamente o que era o racismo nas colónias. A ver por quem acha que o racismo era incomparavelmente menor nas colónias é de supor que um dia a nossa memória seja apenas feita das fotografias tiradas então pelo SNI ou Agência Geral das Colónias, com crianças negras e branças lado a lado, com as suas encantadoras fardas de escola. Tudo o mais, será considerado boato e má língua.

Anónimo disse...

"...à saciedade, o espírito de rebanho das pessoas…"
penso que a frase acima mencionada tem bastante atualidade no passado e no presente
ou será que ninguém viu ainda que quando um habitante dos países mais a norte chega a Portugal por exemplo achará normal ir receber um salário superior ao salário dos portugueses nas empresas? ou será que essa diferença já desapareceu?
terá um carro de maior cilindrada? ou não terá? cada um tem a sua experiência de vida...
ou muita gente já esqueceu que os portugueses eram de origem celta com sardas e cabelos louros e lisos… e que pelos séculos adquiriram a cor mais escurinha e os caracóis característicos de Africa ? outros povos continuam branquinhos a expor-se ao sol nas praias da Europa ou da Austrália?!
esse mapa que mostra permitiu às pessoas terem uma ideia do tamanho dos territórios e visto até à exaustão, nenhum português se perdia no mundo!
quando outros povos não sabem identificar onde fica um determinado país europeu

Anónimo disse...

E o Matateu disse: os portugueses é gente muito estranha. Em Moçambique, quando era pequeno, davam-me muita porrada. Quando vim para a "Metropole" jogar a bola e metia muitos golos, os adeptos do Belenenses levavam-me aos ombros! Era dificil de perceber este povo...

Convém relembrar que Matateu morreu em Toronto, no Canadá, no total esquecimento dos lusos.

Anónimo disse...

Esta é, foi, sem dúvida, mais uma daquelas recorrente tempestades num copo de água. Ocorrem quando há copos muito, demasiado cheios ... Mas que “Alto lá! Preto não marca golos a branco!” lá isso é verdade. Coisas do futebol.

Nada disto teria acontecido ao bom do Marega se ele jogasse na liga Africana.
É assim: não é racismo. Acreditem, são apenas coisas do futebol e que são inseparáveis. Vêm com o território.

Ps- Imaginem, por ventura, ou desventura, o rapaz Messi a jogar na Liga Africana e a marcar lá, no Mali, um golo decisivo ao Desportivo de Barmako (a capital). Feliz da vida, vai desata a correr e a apontar para a sua pele argentina frente à bancada dos tifosos indígenas!.
Lá caíam mais uns pingos na tolha da mesa, até à próxima falta de temas nos jornais e nas TVs.

Anónimo disse...

Na metrópole não havia racismo porque não havia pretos. As colónias como sabe quem lá esteve, eram profundamente racistas, como dizia e bem o Matateu
Fernando Neves

Reaça disse...

Toda a gente anda "à nora", não só em Portugal, mas em toda a Europa, com esta história do racismo no futebol, quando o futebol e as claques não passam de uma brincadeira de gente jovem e meio irresponsável, sabendo que o racismo na cabeça das pessoas é tão natural e tão profundo, que esta histeria, de parte a parte, por causa do futebol, é só para disfarçar a incapacidade de discutir o que é na realidade o racismo.

O verdadeiro racismo não é chamar publicamente preto ao preto ou macaco ao preto, ou chamar branco ao branco, ou macaco ao branco, isto até se pode chamar uma certa maneira de convívio, estúpido, mas convívio.

Se fosse só isto o racismo, resolvia-se facilmente o problema, umas palmadas bem dadas e no momento certo, e ficava tudo resolvido, e os meninos aprendiam.

Mas o verdadeiro racismo não é aos gritos numa bancada, na prática é mais discreto, mas cínico, mais disfarçado, mais «diplomático», mais silencioso e por um afastamento escondido (desprezo)

Os "Maregas" facilmente dão a volta a estes racistas de bancada, dificil é dar a volta aos anti-racistas de bancada.

Reaça e retornado de longa duração.



Anónimo disse...

Por acaso o Sr. Fernando Neves conheceu as colónias antes do 25 de Abril? Ou o seu conhecimento advém apenas da historiografia contaminada da extrema-esquerda? AS colónias eram "profundamente" racistas? Conheceu, por acaso, a África do Sul e a Rodésia? Desculpe mas estou farto de pessoas ( não é o caso...) que falam daquilo que não vivenciaram.

disse...

É preciso preservar a memória do racismo para que não se repita. Branqueamentos são inaceitáveis (no pun intended). Eu penso que se vivem hoje dias incomparavelmente melhores a esse respeito, não só em Portugal como no mundo (o racismo de estado não foi uma especificidade da nossa ditadura). Em todo o caso, não podemos transigir com comportamentos racistas e, nesse sentido, a atitude do Marega era a única possível.