O tema Marega trouxe por aí a peregrina ideia de que no tempo da ditadura é que era bom: não havia racismo, brancos e pretos viviam num mundo ideal de entendimento, o Portugal pluricontinental e plurirracial era, assim, “outra loiça”. Só faltou trazerem “o preto da Casa Africana” para o atestar. No fundo, subliminarmente, fica a ideia: a democracia é que estragou tudo isso!
Salazar, na sua bondade integradora, até tinha “eleito” uma deputada negra, para além dos indianos regularmente exibidos pelo regime. Mais do que isso: a ditadura nomeou mesmo um negro como Secretário de Educação de Angola, Pinheiro da Silva, que veio a tornar-se Procurador à Câmara Corporativa. Ah! Se o 25 de abril não tivesse aparecido!
É claro que, pelo meio, houve a guerra do Ultramar (para quem achava que aquilo eram possessões portuguesas) ou guerra colonial (para quem sabia que aquilo eram colónias) ou guerra de África (para quem pretende disfarçar-se por detrás dos eufemismos). Mas isso são “fait divers”, somados a mais de 10 mil mortos, só do lado “de cá”... porque os pretos mortos fazem parte de uma outra contabilidade, que nunca foi a “nossa”.
Um dia, na “metrópole”, nesse ambiente de consabida igualdade que prevalecia entre os diferentes coloridos humanos, sempre em amena convivência, teve lugar uma altercação entre dois políticos do regime: o já referido Pinheiro da Silva e o deputado salazarista Júlio Evangelista. Este último terá dito algo tido por insultuoso, o que levou Pinheiro da Silva a avançar para ele. O verniz do convívio multirracial estalou na frase de Júlio Evangelista, que a pequena história, com maior ou menor rigor, acolheu: “Alto lá! Preto não bate em branco!”
