quarta-feira, agosto 28, 2024

Quando a Adelaide toca



Em nossa casa, como creio que acontece com a maioria da gente mais velha, ainda há um telefone fixo. Se me perguntarem onde ele está, hesitarei muito. Com a era dos telemoveis, o telefone dito "de mesa" perdeu há muito a centralidade que, por décadas, tinha ganho nas familias. Nunca o usamos, ou melhor, só o descobrimos num recanto variável de uma estante, quando porventura toca. O que rarissimamente acontece. E, quando acontece, invariavelmente surge, da boca de um de nós, a frase: "Deve ser a Adelaide". 

A Adelaide foi uma empregada que, há 34 anos, levámos connosco, quando fui colocado na embaixada em Londres. Conhecêmo-la por intermédio de uns amigos. Era transmontana, de perto de São Martinho de Anta, e trabalhava num hotel em Carcavelos. Esteve em nossa casa nos mais de quatro anos em que vivemos em Londres. E por Londres ficou. 

Nos primeiros tempos, não sabíamos o que fazer com ela aos fins de semana. Não falava inglês, não conhecia ninguém, ficava pelo quarto a ver televisão, falada numa língua estranha para ela. Um tanto artificialmente, arranjámos-lhe uns conhecimentos na comunidade portuguesa, para a ajudar a romper o seu isolamento. E isso acabou por funcionar. Passados uns tempos, a Adelaide já tinha várias amigas, com quem saía. 

A Adelaide tinha um problema grave de estrabismo que, manifestamente, a complexava. Olhava as pessoas sempre de lado, penteava-se de forma a que um dos olhos ficasse um pouco encoberto. Uma médica a que teve de recorrer, a propósito de uma qualquer questão de saúde, numa consulta a que foi acompanhada pela minha mulher, ao notar esse comportamento, perguntou se ela não quereria ser operada à vista. Era algo que se podia corrigir. A Adelaide ficou de pensar no assunto e, tempos depois, estimulada por nós, colocou-se nas mãos do SNS britânico, que se encarregou da cirurgia. Que teve um imenso sucesso. 

Dali em diante, a Adelaide passou a olhar as pessoas de frente, o penteado simplificou-se, sentiu-se-lhe um renascer de confiança e uma nova alegria. Até a sua postura com os outros, às vezes um pouco rezingona, se suavizou. O efeito psicológico do fim do problema ocular foi muito evidente. E, talvez como corolário dessa nova forma de encarar a vida e olhar para os outros, a Adelaide arranjou um namorado, também português. Com quem veio a casar, connosco como padrinhos. E teve um filho, o Francisco, de que fui padrinho de batismo. E todos ficaram lá por Londres, quando regressámos a Lisboa. E ficámos amigos para sempre. 

Nós, a Adelaide e a família vemo-nos a espaços, em Vila Real, em Lisboa e até em Londres. A Adelaide telefona-nos algumas vezes, nós não tantas como devíamos. Ela liga sempre pelo telefone fixo que temos em casa. O mais das vezes, quando esse telefone toca, já sabemos que é a Adelaide. Quando não é e, afinal, é alguém a querer vender qualquer coisa de que não precisamos, temos pena que não seja a Adelaide.

3 comentários:

  1. Para que mantém o Francisco esse telefone, que custa um ror de dinheiro por mês? Não era melhor dar-lhe baixa?
    Quando o meu pai faleceu, também tinha na sua casa na aldeia um telefone fixo, e uma das primeiras coisas que tratei de fazer foi cancelar a subscrição desse telefone. Pagar 15 euros por mês para lá ter esse mono, que disparate!

    ResponderEliminar
  2. manuel campos16:34

    Mais uma belíssima “história com gente dentro”.
    Mais uma vez muito obrigado, estas histórias mantêm viva em nós a chama de que falei há 2 dias, a de que são as pequenas coisas de vida que vivemos e que ajudamos os outros a viver que justificam que andemos por cá, tudo isto fica quando tudo o resto passa.

    No entanto não posso deixar de saudar o notável contributo que mais uma vez o Luís Lavoura aqui nos traz, sempre preocupado com o nosso bem estar.
    A mim já me aconselhou até a vender a casa de Lisboa e mudar-me para um sítio da cidade onde não houvesse turistas já que falei várias vezes do sobreturismo local, passava-me assim a incomodar o vizinho da frente em cuecas à janela ou a passear-se pela casa quando agora o vizinho da frente mais próximo deve estar a uns 5 kms, mal por mal antes as trotinetes no passeio (há muito menos, o que é bom que se diga).

    Não sei o que o Luís Lavoura poderá pensar de mim, mas grande coisa não será (se calhar já não é, pior não fico).
    Pois eu tenho telefone fixo em 2 casas a mais de 300 kms uma da outra e não creio que pague mais por isso, está nos pacotes de “TV Cabo+Internet+Telefone fixo” praticamente iguais (ainda que de operadoras diferentes) que tenho, isto sim escandaloso pois não passo em média mais que metade do ano em cada uma, o que quer dizer que os tais pacotes me custam em média o dobro.
    E por isso o telefone fixo do nosso anfitrião também não lhe custará um ror de dinheiro (e mesmo que custasse, não me dei conta que este texto fosse para abrir uma subscrição para o pagar).
    Gasto assim umas centenas de euros por ano (se fossem só estes e por estas razões!), o que não me rala nada mas é sempre bom saber que há quem fique talvez ralado com o modo como gasto o MEU dinheiro, isto já não falando de ter 3 carros que no seu conjunto fazem 15 mil kms por ano (2 dos quais numa garagem paga, horror dos horrores) e outros crimes não menos graves que evito contar para não me trazer outros dissabores.
    E o mais chocante é que, mesmo que pudesse tirar o telefone fixo dos pacotes não o tirava, quando se tem que pôr no silêncio os telefones móveis durante a noite por razões de saúde de um e de horas de deitar do outro, o telefone fixo (precisamente porque ninguém liga por ali) é o que está de serviço aos problemas da família e dos amigos mais próximos (alguns que vivem sozinhos e doentes, acontece com a idade), pois nem todos nós temos a família toda em casa e cheia de saúde e força e, no meu caso, passei anos a ter que correr porta fora às horas mais díspares.

    Como apontamento final faço notar que fiquei muito quietinho ontem perante a possibilidade de ter que aconselhar ao Luis Lavoura o refeitório de algum convento de monges da “Ordem dos Cartuxos”, onde a vida contemplativa é a única possível e não deve haver melhor maneira nem mas alegre de fazer uma refeição.
    Assim vim aqui hoje, a primeira ainda vá que não vá, à segunda pronuncio-me, não vá à terceira ter um ataque mau e, como se sabe, deixei-me disso.
    Mas recordo algumas boas “espadeiradas” por aí.

    ResponderEliminar
  3. Manuel Campos, dixit!

    De repente, lembrei-me da alcunha de um personagem do Fernando Mendes numa série dos anos 90: "o gosma".

    ResponderEliminar

Letras & vitualhas

Para quem se tem por aqui deparado, nos últimos 10 dias, com " Um livro e uma mesa ", recordo o que notei no início dessa série: t...