Há dias, ao fazer notar nas redes sociais que, no usufruto da saudável tolerância que se vive no nosso país, um estandarte vermelho adejava na varanda de uma sede do PCP ao mesmo tempo que uma procissão passava pela mesma rua, constatei ter conseguido convocar, pela enésina vez, os demónios do anti-comunismo mais primário. Que espero se mantenham vigilantes, para o que vem a seguir.
Há uns bons anos, numa viagem que me fez passar por Moscovo, deparei com uma manifestação cheia de bandeiras vermelhas, com foices e martelos. Achei aquilo curiosíssimo, tanto mais que os comunistas, politicamente, eram já então uma escassa minoria na Rússia. Decidi aproximar-me, pelo ensejo raro de ver de perto uma reunião pública do único partido que, pensando bem, por ali nunca fora impedido de existir, desde 1917. E tirei a fotografia que acompanha este texto.
O comício ocorria num espaço vedado por uma alta rede (visível na imagem), com prévia passagem dos assistentes por um controlo de metais. Decidi entrar, para observar mais de perto o ambiente. Eram uma escassas centenas de pessoas, com muitas tarjas escritas em cirílico, junto a um palco onde peroravam algumas figuras - ao que me foi dito para protestarem contra os malefícios da alternância entre Putin e Medvedev (imaginem!).
Numa das áreas do evento, havia uma banca com pins e objetos da memorabilia comunista, desde velhos exemplares da Pravda e do Izvestia (e um facsimile do Iskra, que me arrependi não ter comprado) até estatuetas e imagens de Lenin de todo o género.
Aproximei-me e disse, em tom interrogativo: "Stalin?". Pensava conseguir adquirir uma lembrança estalinista para oferecer a um velho amigo que ainda é fã fiel do "pai dos povos". Notei a perplexidade espelhada na cara dos vendedores. Seria uma provocação? Olharam para o meu ar de turista e deduziram que deveria ser um estrangeiro ainda tocado pelo "grande Stalin". Um minuto depois, trouxeram-me um pin, de lata manhosa e claramente feito há pouco tempo, por que me pediram um imerecido número de rublos. Não comprei.
Apesar de tudo, a poucas centenas de metros, logo atrás da Casa dos Sindicatos, junto à muralha do Kremlin, o busto do líder georgiano continua a mostrar-se sobre o seu túmulo, sempre coberto de flores. Mas a memorabilia disponível de Stalin não estava claramente à altura disso. Foi o que, no regresso, disse ao meu amigo estalinista, que assim aumentou a sua desilusão sobre a nova Rússia destes tempos de Putin. Ter-lhe-ei dito: pouco vos resta, "tovarich"...
Da mesma forma que os seus homólogos de Moscovo, espero que os comunistas portugueses continuem a poder exercer, em pleno, o direito à sua existência entre nós, prosseguindo na sua teimosa insistência de defenderem o que consideram ser os interesses "do nosso povo", o qual, valha a verdade, lhes é ingrato e, a cada eleição, lhes dá cada vez menos razão e menos votos. Mas, mesmo assim, eles ainda acreditam que os amanhãs podem vir a cantar.
